A matemática dos antigos IV

04-03-2014 18:18

 

    Este artigo é dedicado ao trabalho desenvolvido há cerca de 20 anos por Miguel Gouveia, formador em calcetaria portuguesa e artística.

 

    Em jovem, Miguel estudava e nas férias trabalhava na construção civil para ganhar algum dinheiro. Chegou a fazer de tudo um pouco, desde serventia de carpintaria e pintura até trabalho com alumínios. Aos 21 anos, quando se mudou para as Caldas da Rainha, surgiu pela primeira vez a oportunidade de trabalhar em calcetaria. Desde logo, Miguel sentiu interesse por esta arte: “O que eu vi na calçada foi uma auto-estrada aberta para a minha afirmação pessoal!” Na altura, não havia muitos calceteiros. Além disso, o trabalho era bem pago e não exigia grande investimento: “Para além de um martelo e de duas pás, pouco mais era necessário do que uma forquilha e uma vassoura. Com empenho e dedicação, tinha uma forma de pagar as minhas contas.”

 

 

    De início, Miguel encarou a calcetaria apenas como uma forma de ganhar o seu sustento, pois sabia que não iria conseguir o que pretendia com um mero emprego convencional: “Sempre fui ambicioso. Queria estudar, viajar e ter as coisas de que gostava” Chegou a pensar em ficar apenas uma meia dúzia de anos a trabalhar em calçada, o tempo suficiente para ganhar algum dinheiro que lhe permitisse tirar uma licenciatura em História, uma das suas grandes paixões. Tal acabou por não se concretizar: “Houve um ano em que não entrei no curso de História em Coimbra por duas décimas! A vida nunca é como a gente quer…”

 

    O destino levou Miguel a investir muito mais nesta arte do que inicialmente tinha previsto. A passagem de empregado a patrão surgiu com naturalidade: “Quando os mestres iam à merenda, eu pegava no martelo e, assim, comecei a colocar as primeiras pedras sozinho. Essas experiências tiveram que ser refeitas apenas nos primeiros 3-4 dias. Daí em diante, fui aperfeiçoando as técnicas de calcetaria. Passados seis meses, comprei uma carrinha, o equipamento necessário e comecei a fazer obras por minha conta.” Acrescenta ainda: “Ser patrão também é um estado de alma!”

 

    Miguel considera-se um autodidata que aposta no perfecionismo, profissionalismo e empreendedorismo: “Gosto de ser o melhor no que faço, quando tal não acontece fico chateado!” O formador explica em pormenor as várias fases que compõem o trabalho do calceteiro: preparação da caixa (remover plantas; aplanar e compactar o espaço a calcetar); extração dos níveis (definir as cotas da obra e o escoamento das águas, se necessário); serventia de pó e pedra (colocar uma almofada de pó e pedra, de forma a permitir um assentamento eficaz); execução do trabalho artístico (através de desenhos e moldes); execução da calçada; colocação de betume (fazer uma mistura a seco de pó de pedra ou areia com cimento e colocar nas juntas da calçada; este passo é muito importante porque garante a fixação do piso); compactação e verificação do desempeno (compactar o pavimento e corrigir pequenas diferenças de altura); betume com aguada de cimento (com areia e cimento, faz-se uma mistura liquida, que se volta a meter nas juntas, o que garante a uniformização do piso, pois durante a compactação as juntas voltam a abrir); afagar e polir (particularmente se for uma calçada interior); limpeza e conclusão (limpar e esfregar a calçada com areia e água de forma a retirar a sujidade).

 

    Para além dos trabalhos desenvolvidos nos Açores e Madeira, Miguel Gouveia tem deixado a sua marca pelo mundo fora: Espanha, França, Alemanha, Suíça, Itália, Luxemburgo, Bélgica, Suécia, Dinamarca, Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales. O formador destaca as técnicas de aplicação de calçada mais comuns: a antiga calçada à portuguesa, que se caracteriza pela forma irregular de aplicação das pedras (figura 1); o malhete, semelhante mas com mais espaço entre as pedras (figura 2); a calçada portuguesa clássica, que tem uma aplicação em diagonal, segundo um alinhamento de 45 graus com os muros ou lancis (figura 3); a calçada à fiada, com as pedras alinhadas em filas paralelas (figura 4); a calçada circular (figura 5); a calçada sextavada (figura 6); a calçada artística, que se caracteriza pela aplicação de pedras com formatos específicos e/ou pelo contraste de cores (figura 7); o Mar Largo (figura 8); o leque segmentado (figura 9); o leque florentino (figura 10); e o rabo de pavão (figura 11). Segundo Miguel Gouveia, “Antigamente aplicava-se mais a calçada à portuguesa e o malhete. A partir da segunda metade do Séc. XX evoluiu-se gradualmente para a calçada portuguesa clássica. O leque florentino e o rabo de pavão são muito similares, muda apenas a forma de execução, com ou sem molde, e a ausência ou presença de um espaço na base do leque. Além disso, é possível misturar várias técnicas numa mesma obra. Por exemplo, dentro dos leques pode-se aplicar as pedras de forma irregular, em diagonal, ou à fiada.”

 

    Há cerca de seis anos, Miguel desenvolveu uma nova técnica de colocação das pedras da calçada, que designou por leque em concha (figura 12). Esta técnica difere da dos outros leques pelo facto de a posição dos arcos ser aleatória, pelo que se adequa melhor aos espaços irregulares dos pátios franceses: “Tinha de arranjar uma maneira de fugir aos penosos remates! Além disso, fica ainda mais bonito o efeito final. Sinto-me muito feliz por ter desenvolvido um novo tipo de aplicação, onde supostamente nada mais havia a inventar.”

 

    Em termos matemáticos, os trabalhos em calcetaria podem ser analisados como pavimentações do plano. Surgem, assim, exemplos de pavimentações não periódicas (calçada à portuguesa e malhete) e de pavimentações periódicas, como as pavimentações com retângulos (presentes muitas vezes na calçada à fiada) e com polígonos regulares: quadrados (calçada portuguesa clássica e calçada à fiada) ou hexágonos regulares (calçada sextavada). Deixo ao Miguel o desafio de construir pavimentações com triângulos equiláteros, tarefa que não é impossível para este mestre da arte de calcetaria!

 

    Numa próxima oportunidade, analisarei as simetrias presentes no trabalho desenvolvido pelo Miguel. Para já, os leitores mais curiosos podem apreciar algumas das suas obras em www.calcadaportuguesa.blogspot.com.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/7625-a-matemática-dos-antigos-iv

 

Tópico: Comentários

A Matemática dos antigosIV

Data: 04-03-2014 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Quando olhamos para as nossas belas calçadas, nem nos lembramos do trabalho, estudo ,persistência e arte que elas encerram.
Quem julga que dispor assim as pedrinhas é um mero trabalho sem grande "ciência", engana-se muito. E isso está bastante bem explicado neste Artigo. O calceteiro é um verdadeiro artista , com conhecimentos de engenharia, que podem ser empíricos mas necessários, e a profissão é pouco valorizada.
Obrigada por nos dar a conhecer a complexidade e arte deste trabalho. Um abraço.

Re:A Matemática dos antigosIV

Data: 10-03-2014 | De: Ricardo Cunha Teixeira

Cara Graciete, obrigado pelo feedback atento. Concordo inteiramente consigo. Os próximos dois artigos continuarão a explorar o trabalho do Miguel Gouveia em calçada portuguesa. Um abraço.

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