Alucinogénios

22-05-2012 00:34

 

Há bastante literatura produzida sobre esta temática, por etnobotânicos, químicos e neurologistas de créditos mais que firmados, mas o que importa aqui reter é que todos esses autores descrevem, basicamente, um ponto comum e incontornável:  como cada cultura do mundo descobriu plantas com poderes alucinogénicos ou intoxicantes, muitas vezes vistas como sobrenaturais ou divinas. O Velho Mundo, por exemplo, não sabia nada sobre as poderosas drogas alucinogénicas da América Central – o  ololiuhqui (a que os espanhóis chamaram semilla de la Virgen, semente da Virgem); o cogumelo psilocibíneo sagrado, teonanacatl, a carne de Deus (os seus constituintes activos também são derivados do ácido lisérgico, geralmente conhecido pelas iniciais LSD); e, no Norte do México, sobrepondo-se com o Sul dos Estados Unidos, os botões do cacto peyotl, às vezes chamados botões mescal (embora não tenham nada a ver com o mescal, a aguardente que se destila do agave).

Há produtos alucinogénicos Sul Americanos ainda mais exóticos como a ayahuasca (a vinha da alma), feita com a vinha da Amazónia Banisteriopsis caapí, que William Burroughs e Allen Ginsberg descrevem em The Yage Letters; e os produtos ricos em triptamina – Virola, yopo, cojoba , todos com ingredientes  quimicamente idênticos, e  estruturalmente muito próximos do neurotransmissor designado por serotonina. Os padrões geométricos das decorações dos lugares sagrados de um grande número de culturas apresentam uma semelhança espantosa com as formas descritas para as enxaquecas extremas, iguais às das resultantes da ingestão de um grande número de indutores de estados alterados de consciência.

Curiosamente, o trabalho dos arqueólogos mostra-nos que, na sua grande maioria, estas substâncias são consumidas pelos humanos, de forma ritual ou aleatória (em muitos casos é difícil de dizer) desde os tempos pré-históricos. Terá sido por acidente? Ou antes por tentativa e erro, na nossa tentativa constante de nos superarmos a nós próprios, mesmo quando ainda estamos dentro de umas cavernas inóspitas, (sem grandes defesas contra o exterior?). E por que é que plantas tão botanicamente diferentes convergirem, por assim dizer, para compostos tão similares, e que papel desempenham estes compostos na vida da planta – serão meros produtos secundários do metabolismo (como o índigo que se encontra em tantas plantas); ou serão usados (como a estricnina, ou outros alcalóides amargos) para deter predadores venenosos; ou desempenharão papeis essenciais nas próprias plantas?

Deus lá sabe.

 

Texto de Clara Pinto Correia.

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