As rendas da Dona Ana Baptista (parte I)

08-12-2014 18:44

 

    Revisitamos neste artigo o tema das rendas tradicionais do Faial e Pico, também conhecidas por croché de arte. Esta atividade, tradicionalmente feminina, já conta com mais de 100 anos de existência. Não se conhece propriamente quem a inventou. Foram mulheres que ficaram sem nome, como as fiadeiras e as tecedeiras. Há ainda quem se lembre de histórias contadas pelas suas avós, apesar de muitas delas terem sido esquecidas pelo tempo. 

 

    Para os curiosos sobre os aspetos históricos que marcaram a integração desta arte no património cultural das duas ilhas, recomendamos o livro “Rendas dos Açores – Ilhas do Pico e Faial”, de 2004, publicação que resultou de uma parceria entre a então Secretaria Regional da Economia, através do Centro Regional de Apoio ao Artesanato, a Associação para o Desenvolvimento Local de Ilhas dos Açores (Adeliaçor) e a Associação para a Salvaguarda do Património Cultural de S. João (O Alvião), freguesia do concelho das Lajes do Pico. Um dos primeiros registos escritos sobre as atividades femininas nas duas ilhas diz respeito a um comentário de um pároco da freguesia da Piedade, nas Lajes do Pico, que, a respeito da elaboração de estatísticas sobre o estado da população açorina, afirma, a 24 de agosto de 1838, que: “Não deve causar admiração haver nesta freguesia tantas fiadeiras porque nesta profissão estão anexas outras; quais são de agulha, de esteiras e de rendas, sendo porém a mais comum o uso do fuso (…)”. Pensa-se que a palavra “renda” usada no texto refere-se ainda à renda de bilros, uma arte portuguesa muito antiga. As chamadas rendas de farpa terão surgido mais tarde, na viragem do século XIX para o século XX. 

 

    As suas especificidades baseiam-se em elementos de base ou rosetas com várias configurações (rosas de amora, folhas de faia, amores-perfeitos, maracujás, dálias, margaridas, entre outros) e na forma como esses elementos são ligados entre si, através de uma variedade de pontos, rigorosamente contados, para que a peça adquira a forma pretendida, sem puxar nem enfolar (as rosetas são normalmente ligadas por gregas, irlandas ou caseados). O encadeado de motivos repetidos origina peças ricas em beleza e simetria. As agulhas ou farpas, utilizadas na confeção das rendas, passaram de geração em geração. Muitas foram feitas a partir dos arames de pneus, quando estes eram atirados para o lixo, depois de completarem o ciclo normal de utilização. Já para o cabo das farpas tradicionais, utilizava-se osso de baleia ou vime.  

 

 

    Entre 1920 e 1960, a confeção de rendas tornou-se na atividade feminina dominante. As rendeiras organizavam as suas tarefas domésticas de forma a dispor do maior número possível de horas para dedicar às rendas. Eram muitos os longos serões passados a trabalhar em grupo, num saudável convívio. Juntavam-se à noite à volta de um candeeiro alimentado, primeiro por azeite de baleia e, mais tarde, por petróleo. Durante a II Guerra Mundial e nos anos que se seguiram, o comércio das rendas tradicionais atingiu um sucesso considerável. Eram vários os comerciantes do Faial que contactavam com os navios que faziam escala no porto da Horta, nomeadamente José Azevedo, o fundador do Café Peter´s. As rendas eram vendidas na Casa das Casimiras. Havia também quem as vendesse diretamente às colónias de estrangeiros que estavam ao serviço da estação de cabos submarinos, Cable & Wireless. Vários caixeiros-viajantes recolhiam rendas para as vender no Continente. Os próprios taxistas tornavam-se vendedores no contacto com os turistas. 

 

    No início da década de 50 do século passado, havia à volta de quinhentas rendeiras ocupadas a tempo inteiro. Hoje em dia os números são bastante mais reduzidos. O que outrora constituiu um meio crucial de subsistência de muitas famílias e a atividade feminina dominante, atualmente é um marco do nosso património cultural, que passou a ter certificado de garantia e a ganhar honras de destaque em exposições nacionais e internacionais.

 

    Das rendeiras ainda em exercício, responsáveis por manter viva esta arte, destaca-se o trabalho da Dona Ana Baptista, pela perfeição com que executa as suas peças. Ana Melo Baptista é natural da freguesia dos Flamengos, na Ilha do Faial, e vive atualmente na cidade da Horta. Deu os primeiros passos na confeção de rendas pelas mãos da sua irmã mais velha, Regina Melo. Começou aos 5/6 anos e aos 8 anos fez o primeiro trabalho de renda para venda por encomenda (umas pontilhas para roupa interior). Ainda andava na escola e já fazia luvas em renda. Os pontos caseados e os ilhoses constituíram alguns dos desafios que lhe deram mais luta nos primeiros anos de aprendizagem.

 

    A jovem artesã aproveitava todo o tempo que tinha disponível, incluindo os serões. Quando terminou a antiga quarta classe, dedicou-se a aperfeiçoar o que tinha aprendido e começou a trabalhar por conta da Dona Isilberta Peixinho para ganhar algum dinheiro. Ao fim de algum tempo, já fazia renda por conta própria e passou a contar com várias rendeiras a trabalhar para si, o que revela um percurso profissional muito interessante.

 

    Ana Baptista pertence à geração de mulheres que iniciou os seus contactos nas feiras, onde encontrou muitos dos seus clientes. Começou por participar na Feira Internacional de Turismo de Lisboa. Em 1997, participou na VIII Feira Nacional de Artesanato e Gastronomia da Marinha Grande. Em 1998, começou a participar no Festival Nacional de Gastronomia de Santarém. Marcou presença neste evento durante 10 anos. Continuou a participar na Feira Internacional de Lisboa ao longo de vários anos, bem como em outras feiras (por exemplo, na Feira de Artesanato da Semana do Mar, na Horta, e na Feira de Artesanato inserida nas celebrações em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em S. Miguel). Também  participou em vários simpósios e    workshops. 

 

    Terminamos com uma pequena amostra de alguns dos trabalhos desta artesã: peça de vestuário semelhante à que a sua irmã fazia (A), com amoras, renda de gancho e botões caseados; gola (B), luvas e bolsa (C), com pontos, laças, amoras, caseados e repeniques; e um bonito pormenor de um naperon que recebeu um prémio (D), com folhas caseadas e margaridas feitas com laças, caseados e repeniques.

 

    Numa próxima oportunidade, daremos continuidade a este texto, desde logo mencionando alguns dos muitos prémios que a Dona Ana Baptista recebeu ao longo do seu percurso profissional.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8589-as-rendas-da-dona-ana-baptista-parte-i

 

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