As rendas da Dona Ana Baptista (parte II)

21-12-2014 17:28

 

    Continuamos a analisar o trabalho em renda desenvolvido pela Dona Ana Baptista. Ao longo dos anos, esta artesã tem recebido vários prémios no âmbito do Concurso “Artesanato da Região Autónoma dos Açores”, na categoria de Rendas Tradicionais, dos quais de destacam uma Menção Honrosa (Ponta Delgada, 1995), um Primeiro Prémio (Horta, 1996) e um Terceiro Prémio (Angra do Heroísmo, 1997). Em 1998, voltou a ganhar novo prémio nas Lajes das Flores. Os seus trabalhos encontram-se à venda em numerosos locais, por exemplo, na Horta (Loja do Triângulo, Foto Jovial e Loja do Peter), em S. Miguel (Lojas de Artesanato do Aeroporto e das Portas do Mar) e no Continente (em Lisboa, na Loja dos Açores, e em S. Pedro do Sul, cidade no Distrito de Viseu famosa pelas suas termas). 

 

    Para Ana Baptista, uma das razões que justificam o sucesso que alcançou ao longo dos anos prende-se com a forma minuciosa com que desenvolve o trabalho em renda: “O desenho de duas peças pode ser o mesmo mas, quando comparadas, a sua qualidade pode variar de forma significativa, dependendo da forma como foram feitas. Nunca apresento aos clientes trabalhos sem qualidade!” Quando questionada sobre o que determina a qualidade de uma peça em renda tradicional, a artesã aponta dois fatores: “1- Os pontos de um mesmo tipo devem ser todos iguais quando comparados uns com os outros; 2- Cada ponto deve ser uniforme e não apresentar qualquer tipo de irregularidade.” Note-se que estes aspetos são fundamentais para conferir homogeneidade à peça e para lhe atribuir simetrias, que se caracterizam precisamente pela repetição de um motivo (em torno de um ponto do plano, numa determinada direção do plano ou em mais de uma direção). Desta forma, a sensação de beleza associada ao conceito de simetria é potenciada quando as cópias do motivo são idênticas ou praticamente idênticas. A artesã refere outro aspeto que considera muito importante para a concretização de um trabalho com qualidade: “Os pontos devem ser bem apertados, fazendo com que a renda se aguente e fique menos mole. Quando temos uma peça em renda bem elaborada, basta passar um pouco a ferro, não é preciso engomar!”

 

 

    Quando questionada sobre as possíveis agruras da profissão, Ana Baptista afirma com alguma tristeza: “Neste momento, é praticamente impossível participar em feiras fora da ilha, devido à redução de ajuda financeira por parte do Centro de Apoio ao Artesanato e à diminuição considerável de vendas nos últimos anos. Por estas razões, também deixei de ter pessoas a trabalhar comigo.” 

 

    Sobre as peças e motivos que prefere implementar, a artesã é clara: “Faço com muito gosto qualquer tipo de trabalho!” Contudo, Ana Baptista acaba por apontar duas peças que, pela originalidade, merecem algum destaque: um girassol (A) e um naperon retangular que apresenta na faixa exterior uma disposição diferente de amoras (B). A configuração da faixa de amoras tem recolhido vários elogios. Surgiram mesmo encomendas para reproduzir esta configuração em viras de lençóis e panos de tabuleiro para carros de chá. A artesã apresenta outro exemplar interessante: um naperon com rosas e folhas de faia (C) que foi escolhido para a capa do livro que mencionamos na primeira parte deste artigo (“Rendas dos Açores – Ilhas do Pico e Faial”, de 2004).

 

    Em seguida, analisamos as simetrias de algumas peças em renda tradicional desenvolvidas pela Dona Ana Baptista, que agradecemos pela disponibilidade e simpatia. 

 

    Podemos analisar o girassol, em A, como um todo ou podemos concentrar a nossa atenção na flor ao centro e em cada uma das faixas circulares que se seguem. Logo à partida, encontramos simetrias de rotação: se rodarmos o naperon em torno do seu centro segundo uma determinada amplitude, a figura obtida sobrepõe-se por completo à figura inicial. A amplitude a utilizar depende do número de repetições do motivo. Por exemplo, na flor ao centro, contam-se 12 pétalas (12 repetições), pelo que o ângulo de rotação deverá ter uma amplitude de 360/12=30 graus (ou de algum dos seus múltiplos), de forma a obtermos uma simetria dessa flor. Se analisarmos as faixas circulares do naperon que se seguem, encontramos, logo a seguir, uma faixa com 24 “raios de sol” (a amplitude mínima é agora de 360/24=15 graus) e a faixa exterior com 18 pétalas de girassol (a amplitude mínima é de 360/18=20 graus). 

 

    Nas situações analisadas encontramos também simetrias de reflexão em espelho (o número de eixos de simetria coincide com o número de repetições de cada motivo). Tal acontece na flor ao centro e na faixa exterior constituída por pétalas de girassol, mas já não é válido para a faixa de “raios de sol”. A utilização de um espelho permite concluir facilmente que esta faixa não apresenta simetrias de reflexão. Ficamos, assim, apenas com simetrias de rotação para a faixa de “raios de sol”, que transmitem uma sensação de movimento em torno de um ponto, tal como acontece quando olhamos para um catavento ou para as velas de um moinho.

 

    As figuras como o naperon em A, que apresentam simetrias de rotação e, eventualmente, simetrias de reflexão, designam-se por rosáceas, aspeto que já foi referido em anteriores artigos. Se analisarmos a borda do naperon destacada em B e se supusermos que o motivo se repete indefinidamente para a esquerda e para a direita, obtemos um friso, ou seja, uma figura com simetrias de translação numa única direção. A faixa em B apresenta também outros tipos de simetria: simetrias de meia-volta (rotações de 360/2=180 graus; se imaginarmos a faixa “de pernas ao ar”, a sua configuração não se altera); reflexões verticais (de eixos perpendiculares ao friso); e reflexões deslizantes (com a mesma direção do friso, caracterizam-se pela composição de uma reflexão com uma translação de vetor paralelo ao eixo de reflexão e produzem um efeito semelhante às marcas das nossas pegadas quando caminhamos descalços na areia).

 

    Em C, podemos analisar as flores isoladamente como rosáceas. Podemos também considerar faixas de flores, por exemplo, na horizontal ou na vertical, e temos um friso. Se analisarmos o naperon como um todo, temos um padrão bidimensional, pois as flores pavimentam todo o plano.

 

    As rendas tradicionais são riquíssimas em simetrias. Apresentamos mais alguns exemplos em D, E e F, desafiando o leitor a identificar as suas simetrias!

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8659-as-rendas-da-dona-ana-baptista-parte-ii

 

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