As simetrias na tecelagem (parte II)

25-01-2015 17:43

 

    Voltamos à conversa com Joana Dias sobre o trabalho que tem desenvolvido no âmbito da tecelagem tradicional.

 

    A artesã explica as diferentes fases de execução de uma peça: “Primeiro há que fazer a teia. Aqui reside o grande segredo da tecelagem: na preparação da teia e na consequente preparação do tear está mais de metade do trabalho feito. Em seguida, escolho os fios de trama para cobrir a teia. Se forem retalhos, por exemplo, tenho de os cortar, o que demora muito tempo. Confesso que, por vezes, esta é uma tarefa cansativa que me retira algum ânimo e energia. Já o tecer propriamente dito é relativamente rápido, mas é o mais interessante. Só por isso tudo o resto vale a pena!” De facto, é nesta fase que se define o padrão da peça e as simetrias que o caracterizam. É sobretudo esta componente criativa que entusiasma a nossa artesã. Joana prossegue a sua explicação: “Depois do tecido estar pronto, há que costurar e lavar a peça. Tenho especial cuidado com a etiquetagem das peças e com as embalagens que as acompanham, pois os tecidos são muito sensíveis à exposição.”

 

    Apresentamos, de seguida, algumas fotos dos utensílios utilizados por Joana Dias. Começamos pela preparação da teia. Esta é composta por um conjunto de fios paralelos todos do mesmo comprimento (o comprimento do tecido que se quer tecer). Os fios da teia são esticados no tear para posteriormente serem cobertos pelos fios de trama. Na preparação dos fios da teia, Joana utiliza uma moldura quadrangular em madeira, com lados de 1 metro de comprimento (Figura 1). De notar que “um tecido mais forte e resistente exige mais fios de teia por cada centímetro de tecido, já um tecido mais suave exige menos”.

 

    O tear que Joana utiliza (Figuras 2 e 3) é acionado por manípulos manuais, em vez dos tradicionais pedais: “É uma peça de dimensões reduzidas em relação aos teares tradicionais que estamos habituados a ver. Tem também a particularidade de se dobrar e guardar de forma a adaptar-se a locais de dimensões reduzidas.”

 

    Para o trabalho de fiação de lã, Joana utiliza as cardas manuais e a roda. Em relação às cardas manuais (Figura 4), a artesã refere: “Depois de lavada e aberta, a lã é cardada. Usam-se as cardas manuais para que as fibras da lã fiquem todas alinhadas e para excluir fibras de menor dimensão. As cardas tradicionais não tinham esta ligeira curvatura, que poupa muito os tendões das mãos, pois a lã, parecendo uma fibra leve e macia, tem uma resistência enorme que lhe é conferida em parte pela lanolina, proveniente da gordura natural das ovelhas.” Tradicionalmente dizia-se que “rebentava os pulsos”.

 

    A roda que Joana utiliza (Figura 5) é acionada por um pedal e fia as fibras de lã. Depois de fiada, a lã é torcida com dois cabos. Na Figura 6, apresenta-se um exemplo de um fuso tradicional, usado em Santa Maria: “A vantagem da roda em relação ao fuso é essencialmente uma: a rapidez. O fuso também torna o gesto de fiar repetitivo e inimigo dos mesmos tendões, já massacrados pela cardação da lã.”

 

    A artesã destaca o trabalho de algumas pessoas que admira: “Tenho algumas tecedeiras que sigo com muita atenção. Desde logo, a Lurdes Lindo e a Mary Anne Melo, colegas de São Miguel. Outra referência é a artesã holandesa Helena Loermans, que vive em Odemira e é representante de uma marca de teares. A Helena tece com fios inteligentes (fios que mantêm a temperatura corporal constante), misturados com desperdício têxtil. Este ano viajei até São Jorge e constatei que os trabalhos feitos naquela ilha são de uma beleza e riqueza verdadeiramente extraordinárias, escapando à banalidade e à moda do artesanato que agora começa a proliferar um bocadinho por todo o lado.”

 

    Joana prossegue com entusiasmo: “Participei recentemente numa residência criativa com a designer Teresa Neves, na Cooperativa de Artesanato de Santa Maria, e a verdade é que desde então tenho-me interessado muito pelo trabalho com retalhos e pela ideia de dar uma segunda oportunidade à roupa velha, cortando-a e usando-a como fio para o tear. Os resultados podem ser igualmente surpreendentes e na verdade, tal como defende a Teresa, podemos ter a nossa T-shirt que adorávamos, mas que se rompeu com o uso, reconvertida noutra peça. O mesmo em relação à peça de roupa de alguém que nos é especial mas que por algum motivo já não pode estar presente.”

 

 

    Em relação à diversidade de peças que tem desenvolvido, Joana refere: “A tecelagem tem um problema de venda que se baseia no tamanho das peças. Como é um trabalho que demora e que implica a utilização de materiais de qualidade, o resultado são peças grandes (por exemplo, mantas e cobertores) difíceis de transportar e que custam muito dinheiro. O preço acaba por não ser muito elevado tendo em conta que são peças que valorizam com o passar dos anos. Contudo, não é fácil encontrar, em geral, quem tenha essa disponibilidade financeira. Por este motivo, tenho optado por fazer peças mais pequenas, que demoram menos tempo e requerem menos matéria prima, mas que usam padrões tradicionais. Desta forma, consigo disponibilizar peças mais baratas, mas igualmente simbólicas, com raízes açorianas e que respeitam o saber fazer que é realmente nosso.”

 

    A artesã acrescenta: “Penso que os trabalhos de artesanato se fazem, por vezes, ao contrário do que deveria ser. Numa busca pela modernização do artesanato, perde-se o que realmente é tradicional e ‘de mestre’ para entrarmos numa banalização de que tudo o que é feito à mão é artesanato. Por vezes, não sinto que haja uma vontade de preservar o que é verdadeiramente nosso, cedendo-se às pressões do souvenir para o turista, das miniaturas e afins, em vez de se ir à essência das coisas e partir daí para uma utilização real do objeto e/ou da técnica. Está a banalizar-se um saber fazer que antes se chamava de ofício e não de artesanato, usando-o como aspeto meramente decorativo, de utilização aleatória, que podia ser aquela ou outra qualquer.”

 

    Numa próxima oportunidade, retomaremos o tema deste artigo e lançaremos ao leitor o desafio de se tornar num detetive à descoberta de simetrias nas peças de tecelagem da autoria de Joana Dias.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8824-as-simetrias-na-tecelagem-parte-ii

 

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