As simetrias na tecelagem (parte III)

01-02-2015 18:11

 

    Ao retomar o tema do último artigo, lanço novamente ao leitor o desafio de se tornar num detetive à descoberta de simetrias nas peças de tecelagem da autoria de Joana Dias. O trabalho desta artesã pode ser apreciado ao visitar o seu blog: http://joanadiastecelagem.blogspot.pt/.

 

    Voltamos à conversa com Joana Dias. Sobre o feedback do trabalho desenvolvido ao longo dos anos, a artesã refere: “Considero-me uma pessoa de sorte pois, na verdade, tenho recebido críticas bastante positivas. Gosto muito dos momentos em que trabalho ao vivo em feiras e exposições, pois o contacto com os visitantes é extremamente importante para mim. Muitas pessoas, geralmente de idade mais avançada, dizem-me que as suas avós eram tecedeiras mas, olhando para a minha forma de trabalhar, afirmam logo que antigamente era bastante mais penoso tecer. De certa forma, sinto que as pessoas relembram o passado. Acabo descobrindo que muita gente fazia o que eu faço, mas que agora já não faz…” Joana prossegue: “Aqui, em Santa Maria, onde resido, temos bom ambiente e camaradagem na comunidade artesã, o que nem sempre é fácil de conseguir entre pessoas com temperamento artístico. Trocamos frequentemente ideias relativamente a novos produtos ou oportunidades de comercialização.”

 

    Quando questionada se, na confeção das peças, tem preocupações acrescidas quando pretende obter simetrias, Joana refere: “No tecer, não tenho cuidados adicionais. Já quando corto o tecido, a repetição do padrão para mim é um fator preponderante. Por vezes, desperdiço muito na procura do corte certo para aquele padrão aparecer da forma que eu pretendo depois de costurado.”

 

 

    Em seguida, analisamos as simetrias de algumas peças em tecelagem feitas pela Joana. Encontramos frisos em todos os exemplos selecionados. Os frisos são figuras que apresentam simetrias de translação numa única direção. Isto significa que estamos na presença de um friso sempre que é possível identificar um motivo que se repete sucessivamente ao longo de uma faixa, estando as cópias do motivo igualmente espaçadas. A classificação do friso baseia-se na forma como esse motivo se repete, ou seja, na identificação de outras simetrias que o friso possa apresentar.

 

    Vejamos o primeiro exemplo (figura 1): “Esta mala é uma peça recente trabalhada em fio de algodão e retalhos de tecido de algodão. Cada mala corresponde seguramente a mais de oito horas de trabalho. Aprendi em S. Jorge um ditado popular muito interessante: À casa da tecedeira sempre lhe faltou telha!”

 

    Ao analisar em pormenor uma das suas faixas (figura 2), o friso em causa apresenta simetrias de reflexão em espelho (tem um eixo de simetria horizontal, que coincide com a reta a amarelo; e, supondo que o motivo se repete indefinidamente para a esquerda e para a direita, um número infinito de eixos de simetria verticais). Se o leitor colocar um espelho perpendicular à página do jornal, de modo a que a borda do espelho assente na reta a amarelo (reta horizontal que divide o friso ao meio), verá que cada lado da imagem é, de facto, um reflexo do outro. O mesmo exercício pode ser feito assentando o espelho nos eixos de simetria verticais do friso. Este exemplo também apresenta simetrias de meia-volta: se virarmos o friso “de pernas ao ar”, a sua configuração não se altera.

 

    Na figura 3, podemos observar alguns exemplos de marcadores de livros, muito originais, feitos pela Joana: “A peça fica francamente pequena e transportável, sendo feita igualmente de modo tradicional. Tento apresentar sempre um cariz regional na escolha do motivo.”

 

    Analisamos, de seguida, as faixas de dois marcadores de livros, ambas inspiradas em motivos existentes em muitas saias de folclore. Na figura 4, o friso apresenta simetrias de meia-volta e de reflexão em espelho na vertical. Contudo, ao contrário do friso da figura 2, este novo exemplo já não apresenta simetria de reflexão na horizontal, como se pode comprovar facilmente com recurso a um espelho. Em contrapartida, este friso apresenta simetrias de reflexão deslizante, com eixo de deslocamento coincidente com a reta horizontal que divide o friso ao meio: o efeito de ziguezague é semelhante às marcas das nossas pegadas quando caminhamos descalços na areia.

 

    Por sua vez, o friso da figura 5 também apresenta simetrias de reflexão na vertical, mas ao contrário do friso da figura 4, já não tem simetrias de meia-volta: se virarmos este friso “de pernas ao ar” os corações ficam invertidos, pelo que não se mantém a configuração inicial.

 

    Terminamos com o exemplo da figura 6: “É uma manta que apresenta um ziguezague desencontrado ou ‘espinhado’. Esta manta está no Faial, na Quinta das Buganvílias. É de lã e alpaca, pelo que tem um toque extremamente suave.” Se analisarmos cada faixa desta manta, obtemos um friso com a seguinte configuração: ... >>>>>>... Este friso não tem simetrias de meia-volta pois, ao virá-lo “de pernas ao ar”, a sua configuração altera-se (...<<<<<<...). Também não apresenta simetrias de reflexão vertical. Tem apenas uma simetria de reflexão horizontal (o eixo de simetria é a reta horizontal que divide o friso ao meio).

 

    Em todos os exemplos apresentados, a preparação do tear é feita em ziguezague, “matematicamente falando é uma sequência do tipo 1234321234321… e por aí fora. É assim que se enfia nos liços ou quadros (figura 7).”

 

    Em relação ao futuro, podemos ter novidades em breve, pois Joana Dias aceitou o desafio que lhe lançámos: reproduzir os 7 tipos de frisos em peças de tecelagem (como marcadores de livros, cadernos ou estojos), inspirando-se nos exemplos em calçada portuguesa das 9 ilhas do Arquipélago!

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8934-as-simetrias-na-tecelagem-parte-iii

 

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