Cérebro de Einstein: a origem de um génio

25-07-2013 01:17

 

    

    

          Levará a evolução do Homem a um aumento do volume do cérebro? Ou talvez de apenas algumas partes? Será que quanto maior o número de circuitos elétricos, mais eficiente é o cérebro? Ou tornará o encurtamento das redes neuronais o pensamento mais rápido? Estas e outras questões tentam ser resolvidas por neurocientistas em todo o mundo.

          Assim começou esta busca entre a relação da inteligência com a anatomia do cérebro. Surgiu um grande interesse no estudo neuroanatómico dos grandes génios como o matemático alemão Carl Friedrich Gauss (1777-1855) e o psicólogo russo Ivan Pavlov (1849-1936), comparando a anatomia entre pessoas dotadas e pessoas comuns, e mesmo entre si, na busca do “padrão da inteligência”.

          Para muitos, Albert Einstein é o físico mais célebre e dos que mais contribuiu para o desenvolvimento da física como hoje a conhecemos. De facto, as suas teorias foram tão revolucionárias, que ainda hoje são utilizadas e postas à prova nas mais variadas áreas, desde a física e cosmologia, à biologia e medicina.

          Einstein nasceu às 11h:30min no dia 14 de Março de 1879 e faleceu às 13h:00min no dia 18 de Abril de 1955, com 76 anos (figura 1), vítima de um aneurisma da aorta abdominal. O relatório da autópsia esteve desaparecido por mais de 18 anos…

 

Figura 1 – Falecimento de Albert Einstein como notícia

de primeira página do Jornal New York World – Telegram.

 

          Algumas horas após o seu falecimento, o seu filho Hans Albert permitiu a remoção do cérebro, cerebelo, tronco cerebral e artérias cerebrais para serem preservados e estudados.

          Antes do seccionamento em peças histológicas (figura 2), o cérebro de Einstein foi pesado (1230 g), fotografado e dividido anatomicamente em 240 blocos, 180 dos quais se encontram no Centro Médico Universitário de Princeton, mas o maior agregado de lâminas microscópicas estão no Museu Nacional de Saúde e Medicina, Estados Unidos. Existem ainda alguns blocos de tecido em Ontário, Califórnia, Alabama, Argentina, Japão, Havai e Filadélfia, estando as restantes porções do cérebro de Einstein em paradeiro desconhecido. O corpo foi cremado, com exceção do cérebro e dos olhos. O tecido cerebral e fotografias foram analisadas por mais de 18 investigadores resultando na publicação de 6 artigos científicos.

 

Figura 2 - Fatia histológica 42 do córtex cerebral de Albert Einstein.

 

           O cérebro humano é dos órgãos mais complexos e a sua total compreensão ainda está longe de ser alcançada. É constituído por 2 hemisférios, o direito e o esquerdo, ambos com 4 lóbos: frontal, parietal, occipital e temporal (figura 3). Vários estudos descrevem as superfícies externas dos lobos e as possíveis relações que possam existir com o comportamento e a inteligência do ser humano.

 

Figura 3 - Nomenclatura dos lóbos cerebrais (hemisfério direito):

lóbo frontal (amarelo), lóbo parietal (rosa), lóbo occipital (azul) e lóbo temporal (verde).

Na imagem também é possível distinguir o cerebelo e o tronco cerebral.

 

           O cérebro de Einstein possuía características raras, e talvez únicas, que podem estar relacionadas com a inteligência.

          Começando pelo lóbo frontal: o hemisfério direito, responsável pela atividade motora esquerda, está bastante pronunciado. Esta característica incomum foi vista em violinistas destros, tal como Einstein (figura 4). O córtex pré-frontal, incrivelmente bem desenvolvido, pode estar na origem das extraordinárias capacidades cognitivas, inclusive a sua produtividade em teorias, o que explica a grande imaginação de Einstein, como colocar-se a si próprio a viajar lado a lado com um fotão, ou estar fechado num elevador a acelerar em direção ao espaço. Esta imaginação pode também estar associada ao córtex parietal e occipital. Einstein escreveu uma vez que o pensamento implica uma associação de imagens e “sensações”, e por isso, na sua visão, os elementos do pensamento, eram não só visuais mas também “musculares”. Esta associação pode estar relacionada com a considerável expansão do córtex motor primário esquerdo e somatosensorial primário esquerdo. Por outro lado, a visão espacial e o pensamento matemático de Einstein podem estar relacionados com os seus lóbos parietais.

 

Figura 4 – À esquerda o cérebro de Albert Einstein fotografado por Thomas Harvey em 1955, com a nomenclatura dos sulcos, com visão lateral esquerda (em cima) e visão occipital (em baixo). À direita os esquemáticos do cérebro de Einstein com destaques coloridos: a amarelo os córtices motor primário e somatosensorial primário, a roxo o lóbulo parietal superior, a azul o lóbulo parietal inferior, a rosa os lóbulos occipitais.

 

          É interessante notar que, apesar da aparência macroscópica, o cérebro não apresenta simetria nos dois hemisférios (figura 4), podendo mesmo ter funções diferentes em diferentes áreas, responsáveis pelo controlo de diferentes partes do corpo. Por exemplo, o lóbo parietal inferior do hemisfério esquerdo está relacionado com a linguagem, imagem corporal e matemática, enquanto que o lóbo parietal do hemisfério direito ocupa-se com o processamento espaço-visual não-verbal. O lóbo parietal superior esquerdo está envolvido na atenção e orientação espacial, estando o lóbo parietal superior direito associado a imagens espaço-visuais. Uma característica do cérebro do Einstein é que o lóbo parietal superior direito é mais largo que o esquerdo. De facto, os lóbos parietais superiores, especialmente os posteriores, estão funcionais durante a aritmética mental.

          Nestes estudos deve ter-se em consideração que Einstein já tinha 76 anos quando faleceu, e o seu cérebro já manifestava sinais de envelhecimento, levando à diminuição do tamanho. De facto, o peso do cérebro de um idoso em comparação com um adolescente tem uma diferença cerca de 9%, pelo que o peso estimado para a sua juventude seria 1350g.

          Numa última nota, propõem-se uma reflexão sobre a doação do corpo à ciência, por este e muitos outros seres humanos, fundamental para o estudo da evolução e do desenvolvimento do cérebro humano. Mais estudos far-se-ão deste e de outros génios que marcaram a história, na tentativa de conhecer e compreender este tema tão complexo: a origem de um génio...

 

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Ricardo Santos – Aluno do 3º Ano do Mestrado Integrado em Engª. Biomédica e Biofísica, FCUL.

Horizon Magazine - Nova revista do Departamento de Fisica da Faculdade de Ciencias da Universidade de Lisboa, Edição 0.

 

Ver original e respetiva revista em: http://horizon.fc.ul.pt/?q=content%2Fcerebro_einstein

e

http://horizon.fc.ul.pt/?q=content/edicao_0

 

Tópico: Comentários

Re: cérebro de Einstein

Data: 07-08-2013 | De: Marinho Lopes

Gostei do artigo, mas senti a falta de três informações:
1) É referido o peso do cérebro de Einstein, mas não é indicado o peso médio de um cérebro humano, que é normalmente algo entre 1.4 e 1.5 kg, fazendo com que o de Einstein não seja propriamente mais pesado que o normal, pelo contrário.
2) O texto apresenta a questão de um modo, mas a verdade é que questão pode ser vista ao "contrário". Isto é, em vez de supor que Einstein foi um génio por causa do cérebro que tinha, podemos supor antes que o facto dele ter "esforçado" o seu cérebro até esse limite é que levou a que o cérebro dele adquirisse algumas características invulgares.
3) Pelo que sei, uma das características mais invulgares do cérebro de Einstein é um número anormal de "dobras" no tecido neuronal (superior ao comum). Achei estranho não ter sido referido.

De qualquer forma, parabéns pelo artigo.

Cérebro de Einstein

Data: 25-07-2013 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Bastante interessante este artigo. Eu penso que, de facto o cérebro é o centro do pensamento e da inteligência, embora seja necessário continuar e aprofundar tantos estudos já feitos. Recordo muitas vezes a frase do cientista português António Damásio "EXISTO,LOGO PENSO" contrapondo-a ao "PENSO,LOGO EXISTO" de Descartes.
Um abraço.

Itens: 1 - 2 de 2

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