Deus e a Bioética: algumas considerações sobre a quadratura do círculo

13-09-2013 01:31

 

 

    Talvez todos respirássemos mais facilmente se começássemos por estabelecer, não como mera hipótese de trabalho mas como realidade incontornável, que a expressão “bioética” é o exemplo acabado de uma verdadeira contradição nos termos. Se entendermos por “bio” a raiz grega para “vida”; e se entendermos por “ética” o conceito ocidental de “conjunto de regras básicas de comportamento moral que as sociedades aceitam observar para que as pessoas, ao menos, não se prejudiquem constantemente umas às outras”— então, meus amigos, não há mesmo nada a fazer. A bioética é a quadratura do círculo.

    Porque estamos a tentar aplicar a ética às leis da vida, e o mundo vivo é tudo menos ético.

    O mundo vivo, sabemos nós já desde o século XIX e não sem bastante pesar, não observa qualquer espécie de moralidade nos seus comportamentos.

    Quando o leão descobre que a girafa se desequilibra completamente no asfalto mas ele não, o seu instinto primordial não é exactamente “deixa lá a desgraçada acabar de atravessar a estrada, que é nova para ela, e eu a seguir, mas só a seguir, vou caçá-la na savana, onde sempre a cacei”.

     Em casos de excesso de densidade populacional, são inúmeras as espécies em que as próprias mães se encarregam de comer as ninhadas recém-nascidas, mesmo quando estamos a falar de animais que não são necessariamente carnívoros, como por exemplo o nosso bem conhecido coelho. Mas convém insistir aqui que o coelho não está minimamente sozinho na manifestação ocasional de canibalismo, ainda por cima aplicado às crias.

    E sim, é verdade que existiram populações como as dos lemingues que, nos casos de sobrepopulação, se entregavam à prática do suicídio colectivo, entrando todos juntos pelo mar dentro e deixando-se afogar. Se este fenómeno hoje já raramente se regista, é apenas porque, com o crescimento das zonas urbanas, o número de lemingues sobreviventes nas regiões árticas desceu exponencialmente. Não é propriamente que os lemingues tenham convocado um concílio para eliminar das suas práticas tribais o suicídio colectico, devido à sua total falta de ética.

    Nunca ninguém viu um urso polar caçar um pinguim. Isto, claro, acontece porque os ursos polares vivem no Pólo Norte e os pinguins vivem no Pólo Sul. Como não conheceram predadores em milhões de anos de evolução na Antárctida, os pinguins não possuem minimamente o instinto da fuga. Se pusessem um pinguim à frente de um urso polar, o primeiro ficaria parado, tranquilo, à espera que o segundo lhe saísse da frente, para ele poder continuar o seu caminho. E está-se mesmo a ver que, nestas circunstâncias, o urso polar pensa logo “ah, vou desviar-me deste simpático rapaz cheio de carne saborosa, porque ele não pertence a este habitat, não conhece predadores, não tem medo de mim, pelo que não é decente eu aproveitar-me disso e comê-lo”.

    Se temos este conhecimento de amoralidade a nível das espécies animais desde o século XIX, o que aprendemos no século XX a nível das células apenas confirma e reforça a noção de que a vida não se pauta por convenções morais, e muito menos moralistas. A Igreja Católica, e em grande medida a sociedade ocidental como um todo, consideram o suicídio eticamente incorrecto, ou até mesmo um grave pecado, passível de arrastar os seus praticantes para o Inferno quando o Inferno ainda existia? Pois bem, desde que apareceram os organismos multicelulares complexos que o suicídio celular se transformou numa rotina diária, e estamos a falar de milhares de células por dia num ser humano. Esta rotina chama-se apoptose, e é apenas uma das várias estratégias que os seres vivos desenvolverem para ganharem forma, sobreviverem, e possuírem órgãos funcionais, com um máximo de economia na exigência energética envolvida em todos estes processos. E parece que, para a Natureza, sai frequentemente mais barato produzir em excesso e a seguir eliminar o defeito. Durante o desenvolvimento embrionário formam-se milhões de neurónios – e, depois, os que, dentro de um mesmo complexo, são inúteis para a locomoção de um membro ou para estimular a reacção à dor, suicidam-se. Da mesma forma, geram-se no timo milhares de linfócitos desatinados, que atacam o próprio organismo em vez de atacarem entidades invasoras – e depois, quando são identificados como prejudiciais, suicidam-se. Os nossos dedos formam-se inicialmente com uma membrana interdigital igual à dos patos ou dos ornitorrincos – e depois, quando já não são necessárias para assegurar a protecção mecânica dos ossos, as células dessas membranas suicidam-se. Tal como se suicidam milhares e milhares de espermatozoides em cada ejaculação, da mesma forma que, na mulher, uma vez por mês, da puberdade à menopausa, há um ovo maduro que se suicida se não for fertilizado. Mesmo que essa mesma mulher tenha dezasseis filhos, nunca conseguirá salvar a vida a todos os cerca de quinhentos ovos com que nasceu.

    Ainda por cima, temos cada vez mais a noção de que todo o programa da vida é antes, na realidade, um programa de morte. Começamos a morrer assim que começamos a nascer, porque todo o nosso crescimento se faz por divisão celular (é de um único ovo fertilizado que resultam as cerca de 1014 células do humano adulto), e, em cada divisão celular, a pontinha dos braços de cada cromossoma, o chamado telómero, encolhe um bocadinho de nada. É assim que as células envelhecem, para mais tarde poderem morrer. Com todos os dados que já temos a este respeito até hoje, a disciplina até agora conhecida como Biologia do Desenvolvimento já deveria chamar-se Tanatologia do Desenvolvimento. Independentemente do que a bioética ocidental tenha a dizer sobre a morte, e mais ainda sobre a morte programada. E em total indiferença à reacção extremamente negativa que se fez sentir na comunidade científica das décadas de 50 e 60 do século passado, quando foi preciso reconhecer que o fenómeno eufemisticamente encapotado como apoptose queria mesmo dizer suicídio – com todas as letras. O mundo vivo não se compadece minimamente com a coloração benévola e idílica que tentámos dar-lhe enquanto pudemos – e isto foi até ao século XVIII, quando a ciência e a religião faziam parte da mesma procura da verdade e do conhecimento do mundo, numa lógica que se manteve inalterada de Santo Agostinho a Isaac Newton: quanto melhor estudássemos e compreendêssemos a Natureza, maior admiração sentiríamos pela magnificência da obra de Deus.

    Aliás, nunca é demais recordar que, nos tempos de Charles Darwin, a questão da evolução, só por si, foi bastante pacífica. O aspecto da origem das espécies através da selecção natural que mais consternou os seus contemporâneos cultos foi exactamente a total amoralidade pressuposta pelo sistema: as espécies extinguiam-se ou sobreviviam não devido às suas virtudes, mas antes devido às variações absolutamente aleatórias da sua sorte. Uma colisão de meteorito, e lá se vai o dinossauro – mas o mamífero com ar de ratinho escapa porquê? Um grande degelo, e lá se vai o mamute peludo – mas os hominídeos que o caçavam, e esses sim, estavam a ser maus porque podiam perfeitamente sobreviver só de frutos e raízes, merecem ficar cá por que acto de grandeza ou generosidade? Por que é que as trilobites resistiram a tantas extinções em massa antes de, também elas, se extinguirem? Não sabemos. Mas de certeza que não foi por serem umas meninas lindas que de repente começaram a portar-se mal. Que dotes morais extraordinários possuem as formigas para que as que estão vivas hoje sejam iguaizinhas às que se encontram fossilizadas dentro do âmbar?  

    Ou seja, o que os contemporâneos de Darwin tiveram que engolir com bastante repulsa (a começar pelo próprio Darwin, que detestava a sua teoria tão sentidamente como Kepler detestou ter que modificar as órbitas dos planetas de esféricas para elípticas1) foi que, afinal, não existia qualquer Benevolência Divina, como até aí sempre se acreditara que existisse, presidindo ao desenrolar dos acontecimentos por forma a premiar os bons e a castigar os maus. 

    Por esta altura, já muita gente dissera, com John Locke, que fazia mais sentido procurar a Palavra de Deus na Natureza e não “nos anais de uma tribo semítica semi-letrada2, já que, “os trabalhos da Natureza, por toda a parte, evidenciam suficientemente a existência da Divindade”.  Mas, agora, o caso mudava de figura. Em última análise, mesmo numa Terra cujo tempo de vida fora brutalmente expandido pelos geólogos de uns meros seis mil anos para biliões e biliões deles, ao ponto de nem poderem ser contados, talvez ainda pudéssemos continuar a tomar as Escrituras apenas como uma sequência de metáforas descritivas dos principais acontecimentos terrenos. Mas já não podíamos sustentar, de todo em todo, que Deus criara um mundo feliz para deleite do Homem. Para já, o Homem, afinal, não consistira um objectivo preciso de Deus para materializar a Sua imagem perfeita neste mundo, mas resultara tão-somente de um acidente evolutivo feito às cegas, igual a tantos outros. E, ainda por cima, o mundo não era feliz nem deixava de ser: era, apenas, sobrevivente.

    Um dos professores de Geologia mais admirado por Darwin, e um dos homens a quem ele mais temeu enviar a primeira edição da Origem, chamava-se Adam Sedgwick.  A sua reacção às primeiras ideias de evolução das espécies aplicada ao homem como a qualquer outro animal (que ainda nem sequer eram as do seu aluno) não podiam ter sido mais explícitas: admitindo-se a amoralidade da Natureza, abria-se a porta para o colapso moral e social do Ocidente:

    “O mundo não pode tolerar ser virado do avesso; e estamos prontos a reentrar numa guerra sem quartel contra qualquer violação dos nossos princípios modestos e das nossas maneiras sociais. É a nossa máxima que as coisas devem manter-se nos locais apropriados se se destinam a trabalhar em conjunto para qualquer finalidade positiva. Se as nossas gloriosas donzelas e matronas não podem sujar os dedos com a faca do anatomista, também não podem envenenar as nascentes do pensamento feliz e do pensamento modesto escutando as seduções deste autor; que se lhes apresenta com [...] os aneis da serpente de uma falsa filosofia, e uma vez mais lhes pede que estendam o braço e colham o fruto proibido [...] que lhes diz que a sua Bíblia é falsa quando lhes ensina que foram feitas à imagem de Deus, que são filhas de macacos e engendradoras de monstros [...] e que todos os fenómenos do Universo, vivos e mortos, devem ser postos perante a mente numa nova gíria, e como o desenvolvimento e o progresso de um materialismo degradante e sem tréguas”.

    Na carta que Sedgwick escreveu a Darwin depois de ler a primeira edição da Origem, esta preocupação é expressa em tons talvez menos coloridos, mas inegavelmente ainda mais clarividentes:

    “A coroa de glória da ciência orgânica é conseguir, através da causa final, ligar o material ao moral [...]. Você ignorou esta ligação; e, se percebi bem a sua intenção, fez o melhor em um ou dois casos para quebrá-la. Se fosse possível (o que, graças a Deus, não é possível) quebrá-la, a humanidade, na minha opinião, sofreria um dano que poderia brutalizá-la, e afundar a raça humana num grau de degradação mais baixo do que qualquer um em que já tenha caído desde o início da sua história registada”.

    E ninguém pode argumentar que Sedckwig não tinha razão. Vá lá que a Revolução Americana ainda foi obra de teístas convictos, que cunharam “In God we trust” na sua moeda, defenderam o direito ao lucro e à procura de riqueza como parte integrante do nosso dever de sermos felizes e assim fazermos Deus feliz, e justificaram noções tão contrárias à criação do Paraíso na Terra como a propriedade privada e a acumulação de capitais com a necessidade de continuarmos a expiar o pecado original. Mas, logo a seguir, a Revolução Francesa já deixou as fundamentações de carácter teístico bastante mais para trás, tanto no seu tríptico “Liberté, Équalité, Fraternité” como no seu recurso sem precedentes à decapitação, tão intensivo que exigiu a invenção da guilhotina.

    E, não falando sequer da forma como Freud nos afastou ainda mais do nosso antigo pedestal de criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus reduzindo-nos a meros prisioneiros do nosso subconsciente, basta recordarmos que o século XIX de Charles Darwin é também, logo a seguir, o século XIX de Karl Marx. Ou seja, é o século de O Capital, da invenção da sociedade sem classes, dos primórdios de uma forma de pensar na vida humana sem desígnios ou deveres predestinados por Deus que haveria de levar ao clímax da Revolução Russa em 1930.

    Temos aqui, portanto, um ponto assente – uma verdade histórica indiscutível, gostemos ou não dela. Para tanto a ciência como a religião poderem continuar a evoluir frutiferamente, foi necessário o separar das águas imposto pelos conhecimentos do século XIX. E esta separação não é reversível. Não esqueçamos que, nos séculos XVII e XVIII, ainda homens como Isaac Newton e Robert Boyle escreviam mais sobre as Escrituras e os Profetas do que sobre Física e Matemática. A partir da separação das águas, para assegurar a tranquilidade e o progresso colectivos, os cientistas passaram a fazer apenas ciência. E os teólogos passaram simplesmente a estudar teologia. Não é por acaso que o chamado “Criacionismo Científico” moderno é obra exclusiva das convicções religiosas fundamentalistas de um punhado de homens da ciência, para grande embaraço dos teólogos, que se distanciam da questão o mais que podem e se recusam a entrar no debate. 

    Perante este cenário, torna-se apenas sensato deduzir que não é certamente voltando atrás e misturando outra vez conceitos com cada vez menos traços de ligação entre si que vamos conseguir chegar a alguma forma de entendimento minimamente consensual sobre o que é que, do ponto de vista moral e social, devemos ou não devemos fazer nas nossas intervenções científicas sobre a vida humana. 

    Vamos a um exemplo por redução ao absurdo.

    Reparem que nem a legislação sobre o aborto deveria passar por este tipo de crivo, pura e simplesmente porque o crivo está tão desadequado ao problema que permite contradições das mais flagrantes. Pensem nos Estados Unidos. É certamente o país do mundo onde existem os grupos de pressão contra o aborto mais fanáticos e radicais, e ainda por cima mais agressivamente activos. Mas é também o país democrático em que se verifica mais vezes a aplicação da pena de morte suportada por legislação e jurisprudência. Temos, portanto, uma sociedade com sectores bem visíveis que se opõem militantemente ao aborto enquanto atentado contra a vida humana – e aqui, ao falar em “vida humana”, estamos apenas a falar de um blastocisto, ou seja, de um embrião de poucas células, ainda em estádios muito preliminares de desenvolvimento. Mas depois esses mesmos sectores são, por regra, os que defendem com mais fervor o direito de roubar essa mesma vida aos membros da sociedade que forem considerados perniciosos. Ao contrário do aborto, que é por norma apresentado como um atentado à vontade divina, a pena de morte decorre exclusivamente de critérios meramente humanos. E, neste caso, já estamos mesmo a falar de matar adultos completamente formados. Perguntem ao George W. Bush qual é a lógica subjacente a este raciocínio, já que ele se gabou tantas vezes, quando era governador do Texas, de mandar fritar mais criminosos do que todos os seus pares. Visto de fora, parece apenas que o senhor, e todos os senhores como ele, está a incorrer numa tamanho desrespeito pela aferição de pesos e medidas que não pode, sequer, começar a ser discutido.

    Mas passemos à frente destas considerações estritamente do foro das fraquezas e misérias humanas. Sobretudo, a história já nos mostrou repetidas vezes que é do mais ridículo e inútil que possamos imaginar tentarmos justificar ou basear as nossas ideias religiosas em dados científicos. Esta tendência é tão velha como o Cristianismo, e sempre produziu resultados absurdos, que centenas de anos mais tarde não qualificam como mais que umas boas anedotas. 

    No tempo de Santo Agostinho, a primeira legislação canónica relativa ao aborto regulava a admissibilidade do procedimento num feto masculino até aos 44 dias de gestação contra 81 dias de gestação num feto feminino... porque, segundo o raciocínio herdado dos Clássicos, as mulheres se desenvolvem a metade da velocidade do desenvolvimento do homem, por serem de natureza mais fria e passiva. 

    No século XVII, quando Charles Bonnet descobriu a partenogénese nas pulgas de água, houve imediatamente um jesuíta anónimo que escreveu um tratado sobre ser esta a explicação científica para o parto virgem de Jesus. 

    No século XVIII, quando Abraham Trembley descobriu a regeneração na hidra de água doce, um outro jesuíta, desta vez o conhecido naturalista John Tubberville Nedaham, escreveu prontamente que fora exactamente por um mecanismo semelhante que Eva se desenvolvera a partir da costela de Adão. 

    Durante todo este período, parte da grande aceitação da preformação como teoria da reprodução residia na sua explicação científica das palavras de Jesus ao afirmar que todos os homens são irmãos – já que, de facto, segundo os preformacionistas, todos tinham estado inicialmente encaixados dentro dos órgãos sexuais do progenitor primordial – Adão ou Eva, conforme as preferências. 

    A lista é bastante mais extensa que esta amostragem. E, como todos sabemos, nunca foi assim que evoluiu nem o nosso conhecimento de Deus, nem o nosso conhecimento da Natureza.

   Outro debate velho como o mundo, que continua tão carente de resposta como se encontrava cinco mil anos antes de Cristo, é o do momento em que alma entra no embrião – e, consequentemente, este deve passar a ser considerado um verdadeiro ser vivo. Cinco mil anos antes de Cristo os egípcios debateram exaustivamente a matéria, chegando a concluir que o “ruh”, ou “espírito”, entrava no embrião do pinto ao décimo primeiro dia de gestação. Aristóteles dedicou ao assunto uma atenção considerável em Sobre a Geração dos Animais, propondo que todos os embriões deviam ter uma sucessão de almas cada vez mais especializadas, já que todos começavam por ser extremamente parecidos no início da sua génese e depois iam, progressivamente, evidenciando características cada vez mais distintivas. Nos séculos XII-XIII, ao proceder ao chamado Baptismo de Aristóteles promovendo a combinação do pensamento clássico com os dogmas religiosos de que resultaria o escolasticismo, São Tomás Aquino acabou por criar sérios problemas para si próprio ao propor que o embrião humano começa por ter uma alma vegetativa, que quando a formação dos órgãos externos do corpo está concluída é substituída por uma alma animal, capaz de concluir a formação dos órgãos internos, e que finamente é substituída por uma alma racional, que o distingue de todos as outros animais e é enviada directamente por Deus. Tudo muito bonito – mas como explicar, então, e transmissão hereditária do pecado original, se as almas são mandadas do Céu novinhas em folha? Na Divina Comédia, o próprio Dante propõe a sua resolução pessoal (e extremamente arrevesada) para este dilema, que, simultaneamente, é discutido em profundidade tanto no Talmude como na Cabala – sendo que, em ambos os casos, o processo fica simplificado com o retomar ideia pré-socrática de que o embrião só está vivo, e consequentemente dotado de alma, a partir do momento em que nasce.

    Estas perguntas perturbam legitimamente a nossa sociedade, e é apenas humano querermos responder-lhes, por muito que a missão apareça à partida como perdidamente impossível. O que já não é legítimo, à face de tudo o que acabámos de expor, é que tanto os media como os legisladores procurem estas respostas, de foro francamente teológico, junto dos cientistas. 

    Um cientista pode dizer quando é que começa a formar-se o tubo neural, que constitui o primeiro primórdio do cérebro, e portanto, supostamente, da consciência. 

    Pode dizer quando é que se dá a transição materno-zigótica, ou seja, qual é o momento em que os primeiros genes embrionários dão instruções ao citoplasma para a sintetização da primeira proteína que já não é determinada pelas mensagens que estavam arquivadas no citoplasma do ovo mas sim por mensagens vindas do próprio embrião (o que, em grande medida, corresponde ao primeiro sinal de individualidade). 

    Pode dizer quando começa a organizar-se o primeiro esboço de intestino3, garantia da autonomia em relação à nutrição, e sistematicamente a primeira estrutura que os embriões organizam por forma a assegurarem a sua sobrevivência.                       

    Pode dizer em que dia se dá a implantação no útero, correspondente à fixação do embrião no seu local próprio de crescimento. 

    Até pode dizer quando é que começa a bater o coração, ou quando se dão os primeiros movimentos autónomos. 

    Mas não pode, de maneira nenhuma, dizer qual destes vários estádios é que corresponde, exactamente, cientificamente, fisicamente, ao início da vida ou ao aparecimento da alma. Nem sequer pode discutir, armado de todo o conhecimento que possui, se estes dois fenómenos são ou não um só.

    Na sua esmagadora maioria, as tentativas modernas de estipular “cientificamente” alguns destes espaços em branco cognitivos, considerados como vitais para tomadas de decisão sobre gâmetas e embriões humanos, resultam em patetices de cortar o fôlego que só servem para baralhar ainda mais os cidadãos. Querem um bom exemplo, mesmo de cá de casa?

    Então, aqui há tempos, a revista Sábado anunciava na capa que “os cientistas” tinham descoberto que a alma entra no embrião humano à oitava semana de gestação. Claro que fui logo ler o artigo em questão. O título, lá dentro, já era bastante menos triunfalista do que capa: rezava, apenas, Ciência: discussão sobre o início da vida continua: MISTÉRIOS DA ALMA. 

    O conteúdo? Bem. Depois de sermos informados de que “a doutrina católica dominante faz coincidir o início da vida humana com o momento da gestação” (coisa que eu, como católica desde que nasci em 1960, e como historiadora das teorias da reprodução deste 1994, desconhecia por completo), éramos avisados de que isto “pode estar a afastar-se de uma certa sensatez científica”. Porquê? Porque “de acordo com cientistas ingleses e norte-americanos” (não há nada mais perigoso para a informação do público do que não nos dizerem quem são estes “cientistas”, que experiências fizeram, que controlos usaram, e onde publicaram os seus resultados) às oito semanas de vida intra-uterina do embrião nasce a alma, depois de o embrião se fixar nas paredes do útero (...) Na fase das oito semanas, o embrião emite os primeiros sinais de actividade cerebral”.          

    É verdade que o embriologista Manuel Barbosa, da Faculdade de Medicina do Porto, ainda consegue explicar que “nesta altura, o sistema nervoso já tem uma formação próxima da adulta”. Mas depois não lhe dão grande espaço para apresentar a contraposição fundamental: é que, mesmo com alguns sinais cerebrais presentes, “é errado falar deste período como o do aparecimento de qualquer tipo de consciência ou cognição”.

    Onde o cientista consultado é modesto nas suas extrapolações teológicas, o teólogo consultado pronuncia-se como um doutorado em embriologia: trata-se do franciscano Hermínio Araújo, que parece não dar grande importância à prática do aborto enquanto a individualidade do embrião não estiver definida. E essa individualização ocorre quando? Segundo o entrevistado, exactamente durante a fase da implantação no útero, ou seja, cerca de catorze dias depois da fertilização. Porquê? Porque “é precisamente a partir daí que ocorre a diversificação celular, que tanto pode dar origem a um indivíduo como a dois ou três”. O que não é verdade, mas é que não é verdade, mesmo. Se foi galegada do franciscano ou transliteração do jornalista não sei, mas sei o que dá tentar misturar água com azeite. Para fechar em beleza, a peça contava ainda com um destacado intitulado A Igreja Sempre Condenou o Aborto, onde o texto não diz exactamente o mesmo que o título.

    Alguém ficou esclarecido com este chorrilho de lugares-comuns atamancados? Na melhor das hipóteses, os leitores ficaram confusos – sobre o que pensar, sem dúvida, mas sobretudo sobre quem tem, de facto, a legitimidade necessária para dar respostas definitivas a estas perguntas ancestrais.

    Como parece por demais evidente que a bioética, com a sua total falta de sentido nos dois termos que formam a palavra e o conceito, nunca nos permitirá chegarmos por via directa a conclusão nenhuma nestes domínios inconciliáveis, talvez fosse melhor alterar completamente a fórmula da equação. É mais inteligente, para a criação de uma orientação bioética universal e eficaz, estabelecermos limites arbitrários que não passam nem pelo religioso nem pelo científico mas que garantem uma abordagem decente aos métodos experimentais possíveis. Precisamos muitíssimo destas regras no momento de viragem civilizacional em que nos encontramos. Vivemos a alvorada de uma mudança de paradigma tão marcante que, mais do que mais uma Revolução Científica, terá que ser celebrada como uma grande Revolução Humana. E viver este momento da melhor forma possível requer trabalho, tal como requer parâmetros para balizar os pontos de chegada tornados possíveis por esse mesmo trabalho. É importante começarmos a trabalhar a sério na investigação em embriões e células embrionárias humanas. Alguns dos resultados destas experiências poderão elevar a medicina a um grau de bem-estar e dignidade para os pacientes nunca antes visto. E isto, certamente, é uma coisa que interessa tanto aos teólogos como aos cientistas – exactamente porque, se formos boas pessoas, supostamente tendemos a querer o bem dos outros. 

    Desde que estejamos devidamente informados, todos poderemos participar na definição desta nova bioética, que poderá muito bem vir a transformar-se na mão direita de Deus – mas já não será concebida como tendo sido ditada por Deus, assim como usará a ciência como base de dados mas não como imposição. Desta vez, poderemos tomar decisões em democracia. A quadratura do círculo parece uma forma muito estimulante de começar.

 

Texto amavelmente enviado por Clara Pinto Correia (docente e investigadora universitária, escritora, e colaboradora do Ciência com Todos).

 


1 A esfera é o símbolo da perfeição absoluta, enquanto que a elipse é o símbolo do caos. Kepler é muito franco sobre estes seu desgosto nas páginas introdutórias do Harmonia Mundi.

2 Expressão anglo-saxónica de precaução relativamente à Bíblia que se tornou muito popular durante o triunfalismo da revolução científica do século XVII.

3 Uma estrutura primitiva designada tecnicamente por arquêntero.

 

Tópico: Comentários

Bioética

Data: 18-09-2013 | De: Luís Filipe Calafate

O termo "bioética" surgiu pela primeira vez, em Dezembro de 1970, no título de um artigo - "Bioethics, The Science of Survival" - que constituiria um capítulo da obra publicada em Janeiro de 1971 - "Bioethics: Bridge to the Future", pelo mesmo autor - Van Rensselaer Potter (Madison, EUA), que era um oncologista americano do Wisconsin, que inventou a expressão definindo-a como a "Ciência da Sobrevivência".

Potter, preocupado com o futuro do Homem, pensou na bioética como numa ponte para o futuro. Para ele não era suficiente pensar na vida e no instinto de sobrevivência como critério expectável de mudança do Homem em direção ao futuro. É necessária, ao invés, uma ciência da sobrevivência - e para isso propões a bioética - com a tarefa de melhorar a qualidade da vida nos ecossistemas. O progresso do Homem não está assegurado pelo progresso da ciência. A bioética é como uma sabedoria que nasce da própria ciência enquanto realidade nas mãos do Homem.

Esta nova ciência da sobrevivência pretendia combinar o conhecimento dos sistemas vivos (factos biológicos) e os sistemas de valores (valores éticos). Para Potter, só uma ética, conjugada com as ciências sociais e articulada com a ecologia poderá assegurar o futuro sustentável do Homem.

Em suma, a Bioética traduz-se numa "biological wisdom".

Deus e a bioética

Data: 13-09-2013 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Muito,muito interessante este artigo. De facto a Natureza não é nada ética. Apenas existe a diferença entre o animal irracional que mata por sobrevivência ou até para equilibrar o "habitat" e o ser humano que mata pela conquista do seu "Paraíso na Terra" ( tal como diz a autora), princípio adotado por seguidores da Revolução Americana e apenas reservado a alguns. Quanto ao momento em que a alma se instala no embrião, não tenho nada a dizer porque não sigo qualquer religião. Sou absolutamente materialista,não "materialona".
Mais uma vez os meus parabéns ao meu amigo João Pedro Calafate por ter criado este "site" e á autora do artigo que considero muito bom.

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