Mal-entendidos sobre Ciência e Religião

12-07-2014 15:06

 

Difference between Science and Religion

 

    Nunca aqui publiquei artigos de crítica directa a outros artigos, contudo desta vez vou fazer uma excepção. Assim, este texto vai refletir um pouco da minha opinião pessoal, a qual é evidentemente parcial e discutível. Se o leitor se sentir incomodado com alguma das minhas observações, proponho-lhe que exponha os seus pontos de vista nos comentários.

 

    Irei focar-me no recente artigo “Misconceptions of science and religion found in new study” (Mal-entendidos encontrados num novo estudo sobre ciência e religião). Se o leitor não tiver vontade de ler o artigo original em inglês, não se preocupe, porque em seguida traduzo as partes que quero comentar (sem remover um possível contexto que invalidasse a minha crítica). O estudo foi realizado pela socióloga Elaine Howard Ecklund e foi apresentado o mês passado na conferência anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (American Association for the Advancement of Science – AAAS).

 

    O supracitado artigo começa assim: “A visão do público de que a ciência e a religião não podem trabalhar em colaboração é um equívoco que impede o progresso, de acordo com um questionário feito a mais de 10 mil norte-americanos, cientistas e protestantes evangélicos.”

 

    Seria muito bom que o público tivesse efectivamente essa visão, porque é uma visão correcta. Infelizmente, embora talvez a generalidade compreenda que existe uma certa incompatibilidade entre a ciência e a religião, muitos não compreendem porque razão não pode haver maior complementaridade entre as duas. Primeiro convém constatar que a colaboração é impossível, porque a religião não tem nada para oferecer. Existe alguma tecnologia desenvolvida por alguma religião? Não. A única forma de obter novo conhecimento é através da ciência e do seu método. A religião tem um objectivo completamente diferente e não pode ajudar de forma nenhuma a ciência. Tudo o que a religião faz é criar um dado número de alegações que não pode provar, mas que não servem basicamente para explicar nada. Mesmo que “Deus” exista e tenha criado tudo isto, a questão do “como tudo isto funciona” mantém-se. Quando não se sabe algo, pode-se assumir o desconhecimento e tentar procurar uma forma de compreender, ou pode-se simplesmente assumir uma dada resposta. Qual será o caminho com maior probabilidade de sucesso?

 

    “ – Nós descobrimos que quase 50% dos evangélicos acreditam que a ciência e a religião podem trabalhar juntos e suportarem-se mutuamente, – disse Ecklund. – Isto está em contraste com os apenas 38% dos americanos que sentem que a ciência e a religião podem colaborar.”

 

    Como é evidente, os evangélicos podem pensar o que quiserem – é irrelevante para a questão. Se quisermos saber se é prejudicial à saúde de uma criança oferecer-lhe um rebuçado por dia, iremos fazer essa questão à criança? Poderemos tirar conclusões da resposta delas? No máximo ficaremos a saber que as crianças gostam de rebuçados…

 

    “O estudo também mostrou que 18% dos cientistas frequentam semanalmente serviços religiosos, comparados com os 20% da população dos EUA…” [Segue-se uma exposição detalhada de percentagens, mostrando que os cientistas são em geral quase tão religiosos quanto a população em geral.]

 

    De que modo é que isto é uma evidência seja para o que for? A religião faz parte da nossa herança cultural e social, e por isso não é de estranhar que tenha uma prevalência semelhante em indivíduos com diferentes percursos académicos. De qualquer forma, se se quer concluir algo, note-se então que todas as percentagens indicadas (que aqui omiti) são inferiores no caso dos cientistas. A diferença seria provavelmente superior se tivessem restringido o grupo dos cientistas ao das ciências exactas…

 

    “Como exemplo, ela descobriu que é duas vezes mais provável um protestante evangélico consultar um livro ou líder religioso sobre questões sobre ciência, do que uma pessoa do público em geral (11%).”

 

    A questão necessária que se faz é o que terá essa pessoa aprendido.

 

    “Quase 60% dos protestantes evangélicos e 38% de todos os questionados acreditam que os cientistas deveriam estar mais abertos a considerar milagres nas suas teorias e explicações.”

 

    Qual a diferença entre acreditar num milagre ou afirmar-se que não se sabe a origem do fenómeno? É que o primeiro impede a procura de uma explicação lógica. Eu não sou dono da verdade, por isso não posso afirmar categoricamente que os milagres não existem. Partamos do princípio de que existem: como é que poderemos diferenciar um milagre de um fenómeno desconhecido? A supercondutividade, por exemplo, poderia parecer um milagre e isso poderia impedir-nos de a analisar convenientemente, de a compreender e de a usar. Se por outro lado um dia destes eu sem querer transformar água em vinho, isso poderá ser um milagre. No entanto, eu não irei acreditar que se trata de um milagre e irei estudar o fenómeno. Na pior das hipóteses perco tempo, porque se tratou mesmo de um milagre. Mas que maior conhecimento teria eu se assumisse de que se tratava de um milagre?

 

    “Quase 36% dos cientistas questionados não têm dúvidas da existência de Deus.”

 

    Cada pessoa é livre de acreditar no que quiser. Nem está em questão se podem demonstrá-lo ou não. O que interessa para o presente estudo é se isso faz deles melhores cientistas, ou se de algum modo essa crença lhes trouxe novo conhecimento. Para ambas as hipóteses a resposta é não.

 

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“A intersecção da ciência com a religião.”

Lê-se na inscrição: “Igreja da cura psicosomática.” O sacerdote diz: “Recebam este placebo. Pelo esquecimento da razão.”

  

 

Marinho Lopes (colaborador do Ciência com Todos e doutorando em Física na U. de Aveiro) - texto primeiramente publicado no Blog do autor: Sophia of Nature.

 

Ver original em: http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/03/02/mal-entendidos-sobre-ciencia-e-religiao/

 

Tópico: Comentários

Mal entendidos sobre ciência e religião

Data: 12-07-2014 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro. Fernandes

Eu, como não professo qualquer religião, não podia deixar de estar de acordo consigo.
Um cientista não é dono da verdade mas procura-a sempre através do estudo e da investigação. Verdades absolutas são do domínio da religião. Seja ela qual for vai sempre ter a uma incógnita Deus ou Deuses, na Antiguidade, cuja existência não pode provar E ficam-se por aí.
Como sempre, gosto muito da maneira como põe os problemas. Simples e eficiente.
Um abraço.

Re:Mal entendidos sobre ciência e religião

Data: 12-07-2014 | De: Marinho Lopes

Obrigado.

Nos Estados Unidos vivem-se tempos conturbados entre a religião e a ciência, principalmente no que diz respeito ao criacionismo e evolucionismo. Assim, este estudo pareceu ter um pouco o objectivo de começar a tentar criar "laços de amizade" entre as duas áreas - mas falhou redondamente.

Um abraço.

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