Na praia à beira mar

17-10-2015 21:12

 

 

 

    Enquanto passeamos na praia admiremos a química que podemos  encontrar à beira mar. A areia dourada é essencialmente sílica e a cor amarelada é devido à presença de óxidos de ferro. Já a cor mais escura  da areia molhada e o branco da espuma das ondas resultam da difusão da luz. No caso da espuma, a difusão de todos os comprimentos de onda origina a cor branca como acontece com o leite e outros materiais coloidais. Na areia molhada, como há água em vez de ar entre os grãos de areia, a luz é difundida preferencialmente no sentido da sua  incidência, originando uma  maior atenuação da luz. E a areia grossa  parece mais escura pois a luz tem maior probabilidade de ser absorvida  durante a sua difusão.

   

    A areia molhada poder ser moldada em  castelos é uma manifestação das ligações de hidrogénio: as forças de  atracção entre a sílica e as moléculas de água mantêm os grãos de areia  unidos. Por esta e outras razões, a água é um líquido especial e  fundamental para a vida que, com o calor intenso, é necessário beber em  maior quantidade, especialmente as crianças e os idosos. A água do mar  tem, para além de cloreto de sódio, vários outros sais dissolvidos que a tornam mais densa, sendo por isso mais fácil flutuar nela. Mas como tem uma percentagem de sais de cerca de 3.5%, enquanto os nossos fluidos corporais têm uma percentagem de cerca de 0.9%, beber água do mar aumentaria a concentração de sais no sangue, causando grandes problemas.

   

    Tenhamos cuidado com o sol. A absorção da radiação ultravioleta que consegue  atravessar a camada de ozono, ao mesmo tempo que origina o bronzeamento e a formação de vitamina D, provoca  queimaduras solares e aumenta a probabilidade de cancro de pele. Os protectores solares tanto podem fornecer protecção física, reflectindo e difundindo a radiação ultravioleta, como protecção química, absorvendo a radiação e libertando de forma rápida a energia absorvida por relaxação vibracional. E se usarmos óculos escuros, é importante saber que o vidro filtra naturalmente a radiação ultravioleta, mas nem todos os plásticos o fazem. As lentes de policarbonato são opacas à radiação ultravioleta,  mas em imitações podem ter sido usados materiais menos seguros.

 

 

 

 

    Ao apanharmos conchas e búzios lembremos que resultaram da fixação do dióxido de carbono pelos animais marinhos na forma de carbonato de cálcio e que, por processos geológicos complexos e demorados, estão na origem das rochas calcárias. E notemos a corrosão dos objectos de ferro junto ao mar. Nas regiões marítimas formam-se aerossóis que contêm sais hidratados, em particular de cloretos. Estes, assim como a humidade elevada, ajudam a solubilizar e remover os iões de ferro que resultam da oxidação deste metal, acelerando muito o processo de corrosão. Os aerossóis ajudam também a difundir o característico cheiro a mar. Ao que parece, este é originado por uma complexa mistura de compostos de enxofre provenientes da actividade de microorganismos, vários tipos de compostos produzidos pelas algas e animais marinhos, alguns deles atractivos sexuais, assim como compostos de cloro, bromo e iodo.

   

    Talvez ainda haja tempo para um gelado. E também neste há química.

 

 


Sérgio Rodrigues (Professor de Química na U. de Coimbra e colaborador do CcT)

 

Versão original em: http://percursosquimicos.blogspot.pt/2011/07/na-praia-beira-mar.html

 

 

Comentários

Escaldões dentro de água

Data: 19-10-2015 | De: Gui Santos

Tenho uma dúvida com a qual já me deparei várias vezes em conversas casuais e que agora aproveito para deixar aqui:

A exposição solar é mais ou menos perigosa se a pele estiver submersa na água do mar?

Re:Escaldões dentro de água

Data: 20-10-2015 | De: Sérgio Rodrigues

A pergunta é complexa e envolve vários factores, mas vou procurar responder. Primeiro, o que causa as queimaduras solares e é mais perigoso para a pele é a radiação ultravioleta (UV). Ora a água absorve ligeiramente no UV (e também na parte vermelha da radiação visível, daí ser ligeiramente azul...) mas tal é quase insignificante. Quando se refere "pele submersa", pressuponho que seja a de um mergulhador, já que a de alguém simplesmente molhado, embora se sinta mais fresco, não está mais protegido da radiação UV do que se estivesse seco (está até pior, ver abaixo). No caso da água do mar podemos também considerar os sais dissolvidos que podem também absorver ligeiramente no UV, mas isso não deve ser significativo. Idem para a maior reflexão e difusão da luz devida ao "sal" na pele. Mesmo para a mergulhador não me parece que a diferença seja muita em termos de absorção de radiação UV se este estiver perto da superfície da água. Finalmente há a considerar a sensação de frescura por estar molhado a qual pode levar as pessoas a passar mais tempo ao sol e aí, sem protecção adequada, acabarão por ter mais queimaduras solares.

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