No mar também há seca ...

20-04-2012 23:32

O café chama-se Beira-Mar e partilhei mesa com o dono que é também Mestre de um barco de pesca.

A conversa começou, como tantas outras, pelo tempo.

“É que vai de seca”, disse-me.

“Pois vai. Não chove vai já para…bem, noutros anos não noto o tempo como desta vez”, respondi. “Desde que o meu filho nasceu, e já lá vão quase três meses, o rapaz ainda só apanhou uma manhã de chuva”, resumi eu o clima no Algarve dos últimos tempos.

“Pois…a seca é má para tudo. Não há nada para que sirva, é má para os campos, para a pesca…”

“Para a pesca?”, interrompi, pensando tratar-se de um engano.

“Sim, para a pesca também faz falta que chova em terra. Se chove, o mar fica revirado e isso é bom para a faina. A terra que vem de terra alimenta os peixes…a seca em terra, também é seca no mar!”

A aparente contradição, haver seca no mar, depois do espanto inicial, fez-me pensar que o Mestre tinha mais que razão.

Sempre que chove em terra, os sedimentos são arrastados para os cursos de água e, por sua vez, estes são transportados para o mar. O mar fica então carregado de sedimentos vindos de terra, com a cor alterada, como se tivesse sido lavrado. Seria isto que o pescador queria dizer com “revirado”?

Talvez.

Todo o aporte sedimentar continental, carregado de matéria orgânica e mineral, contribui para a produtividade do meio marinho. Elementos químicos como o carbono, azoto e fósforo são fundamentais para os ecossistemas marinhos. A falta de um meio que os transporte da terra para o mar, a água, irá originar alterações na produtividade destes ecossistemas. A influência terrestre é especialmente importante em ambientes estuarinos como aquele a que o Mestre se referia e onde pesca – em zonas próximas à foz do Rio Arade.

O mar precisa da água e das substâncias da terra. De um mar revirado dependem os ecossistemas marinhos e, também, os pescadores.

As conversas de café têm disto: percebermos que a seca em terra…também é seca no mar.

 

Referências:

Lake, P. S. (2011) Estuaries and Drought, in Drought and Aquatic Ecosystems: Effects and Responses, John Wiley & Sons, Ltd, Chichester, UK. doi: 10.1002/9781444341812.ch10.

Consultado o capítulo 10 “Estuaries and drought” em Google Books.

 

Luis Azevedo Rodrigues (texto publicado no âmbito do projeto: Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva, a 01 de Março de 2012)

 

Tópico: Comentários

seca no mar

Data: 26-04-2012 | De: Rui Costa

Um artigo simples, mas muito agradável. Especialmente porque alerta para questões e problemas que nem sequer ocorre ao comum dos cidadãos.
Gosto sempre de ver um determinado problema por um ângulo que nunca me tinha ocorrido.
Neste caso, penso que este problema ainda se tem agravado mais com a contrução de barragens e mini-hidricas que tem proliferado nas últimas décadas.

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