Números curiosos: o azarento 13 (parte I)

22-06-2015 14:53

 

    Os números são uma presença constante nas nossas vidas, por isso não lhes conseguimos ficar indiferentes. Mesmo que de forma inconsciente, procuramos naturalmente padrões numéricos no dia a dia e naqueles acontecimentos que nos marcaram ao longo da vida. Todos nós temos números de que gostamos particularmente, seja por acharmos que nos trazem sorte, seja por encerrarem boas recordações das nossas vivências. De igual modo, há sempre um ou outro número de que não gostamos, ou porque nos traz más recordações, ou porque entendemos estar conotado com o azar. Podemos fazer esta análise indivíduo a indivíduo, mas também do ponto de vista coletivo. Isto porque, de entre estes números, há alguns que se destacam pela quantidade significativa de pessoas que os admiram ou receiam. Muitas vezes estamos a falar de superstições e de teorias da conspiração que arrastam multidões de adeptos.

 

    Os números objeto de admiração ou de receio são, em geral, números naturais, ou seja, números inteiros positivos (1, 2, 3, 4, 5, …). Talvez por serem os números mais utilizados no quotidiano e também aqueles que aprendemos na escola em primeiro lugar. Outros números, como os números negativos ou os fracionários, não alcançam, em geral, o estatuto de admiração ou de repúdio coletivo. Não é comum, por exemplo, ouvir falar de pessoas que detestam o -3 ou que consideram 1/2 o seu número da sorte. Mais curioso ainda é que, de entre os números naturais, parece haver uma clara preferência pelos números primos, que geram muitas vezes sentimentos controversos.

 

    Recorde-se que um número diz-se primo se não tiver divisores próprios, ou seja, se os seus únicos divisores forem a unidade e o próprio número. Os primeiros números primos são: 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29, 31, … A verdade é que estes números são admirados pelos matemáticos há séculos por serem as pedras basilares de toda a aritmética. Senão vejamos: depois da unidade, todo o número natural maior ou igual a 2 ou é primo ou escreve-se como o produto de números primos. Por exemplo, 6 não é primo, mas 6=2x3, sendo 2 e 3 números primos. 

 

    Já aqui falámos do 11, do 17 e do 23, números geralmente conotados com maus pronúncios ou catástrofes. Em contrapartida, também já falámos do 7, considerado por muitos como um número da sorte. Neste artigo, dedicamos a nossa atenção ao 13 e ao azar que aparenta encerrar, pelo menos na cultura ocidental. 

 

    Nathaniel Lachenmeyer, na sequência de um estudo que incluiu a análise de numerosos documentos históricos, defende no seu livro “13” que as primeiras evidências sólidas da origem desta má conotação associada ao 13 remontam aos finais do século XVII, quando surgiu uma das superstições mais emblemáticas de todos os tempos: “Se 13 pessoas se sentarem a uma mesma mesa, uma delas morrerá no espaço de um ano!” Embora não haja consenso sobre o motivo que despoletou esta superstição, pensa-se que poderá estar relacionada com a Última Ceia: Jesus sentou-se com os 12 discípulos à mesa e no dia seguinte foi crucificado, depois de ter sido traído por Judas. 

 

    A partir de meados do século XIX, esta superstição entrou no imaginário coletivo ocidental, sobretudo americano, e eram difundidas regularmente histórias de indivíduos que se haviam sentado numa mesa com outras 12 pessoas e que haviam morrido tragicamente no espaço de um ano. Esta paranóia era alimentada pelos jornais da época, o que levou um grupo de nova-iorquinos a fundar um clube, “The Thirteen Club”, com o objetivo de combater uma superstição que consideravam nefasta para a sociedade. No décimo terceiro dia de cada mês, os membros deste clube juntavam-se para jantar em mesas de 13 lugares. A ideia era provar que, ao fim de um ano, todos continuariam vivos. Foram-se associando a este clube muitas personalidades famosas da época. As salas onde decorriam os jantares eram decoradas a preceito com elementos que visavam desafiar a má sorte: guarda-chuvas abertos, espelhos partidos e silhuetas de gatos pretos. Apesar de todos os esforços desenvolvidos, a crença no fatalismo associado às mesas com 13 pessoas não se dissipou. Interessante é verificar que esta superstição ligada ao 13 só perdeu força perante outras que surgiram associadas ao mesmo número, em particular uma de que falaremos já de seguida.

 

 

    Foram surgindo, entretanto, várias superstições que consolidaram o papel do 13 como número de azar. Essas crenças ditavam o azar a quem tivesse 13 moedas no bolso, a quem alugasse um quarto com o número 13, a quem vivesse no décimo terceiro andar de um prédio, etc. Mas foi no início do século XX que surgiram as primeiras evidências da superstição que derrubou todas as outras em termos de popularidade: a sexta-feira 13, considerada como um dia de extremo azar.

 

    Curiosamente, aquele que se considera o responsável pela origem desta superstição foi membro do “The Thirteen Club”. Trata-se de Thomas W. Lawson, que publicou em 1907 o romance intitulado “Friday, the Thirteenth”. O autor não tinha a intenção de despoletar tão fervorosa adesão a esta superstição, já que ele próprio não era supersticioso. No entanto, foi isso mesmo que aconteceu. Lawson teve o dom de juntar no seu romance duas superstições na moda na época: a crença de que 13 é um número de azar e a crença de que sexta-feira é um dia de azar (com origem provavelmente no facto de Jesus ter sido crucificado numa sexta-feira). Desde então, o receio associado à sexta-feira 13 cresceu exponencialmente, derrubando em popularidade todas as outras superstições assocadas ao 13, incluindo a primeira de todas: a fatalidade das mesas com 13 pessoas!

 

    Segundo Nathaniel Lachenmeyer, encontram-se com frequência outras explicações para a origem do mau agouro associado ao 13, a seu ver sem fundamento. Uma delas inspira-se na mitologia nórdica e está relacionada com a morte de Baldur durante um banquete onde estavam presentes 12 deuses, incluindo o invulnerável Baldur, e um décimo terceiro comensal: o assassino Loki, que tinha inveja por Baldur ser o favorito entre os deuses. Segundo o mesmo autor, outra explicação sem fundamento que pretende justificar a origem da superstição associada à sexta-feira 13 prende-se com o facto de a 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira, a Ordem dos Templários ter sido declarada ilegal pelo rei Filipe IV de França, o que conduziu à prisão e ao extermínio de muitos membros dessa Ordem.

 

    Não podemos também deixar de referir a série de filmes de terror intitulados precisamente “Sexta-feira 13”, que tem como figura principal Jason Voorhees, um implacável assassino em série. Curiosamente, o filme original, que data de 1980, era para se ter chamado “Long Night at Camp Blood”. O seu título acabou por ser alterado de forma a seguir as pisadas do sucesso de 1978, “Halloween”, que também se baseava num dia específico do calendário. Desde então, o filme conta com inúmeras sequelas, todas elas sangrentas. A última data de 2009. Estes filmes transformaram-se num ponto de referência para o culto associado ao número 13. Veremos mais curiosidades acerca do 13 numa próxima oportunidade.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (Docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores e colaborador no CcT)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8275-n%C3%BAmeros-curiosos-o-azarento-13-parte-i

 

Comentários

Não foram encontrados comentários.

Novo comentário