Números curiosos: o azarento 13 (parte II)

29-06-2015 15:53

 

    Na sua obra “Unpopular Essays”, de 1950, o conhecido matemático e filósofo Bertrand Russel refere que o ser humano é um animal crédulo que precisa acreditar em algo e que, na ausência de uma boa crença, ele fica satisfeito com a má. Na cultura ocidental, o 13 é um dos números com mais impacto no universo das superstições e das crenças populares. Há mesmo quem leve muito a sério a suposta influência negativa deste número e que, por isso mesmo, o evite a todo o custo. 

 

    Ao longo do tempo, houve quem fosse alertando para o facto de as superstições apelarem à ignorância e de contradizerem, muitas vezes, as próprias crenças religiosas. Para São Tomás de Aquino, filósofo e teólogo medieval, superstição e ateísmo eram dois extremos opostos: a verdadeira fé religiosa encontrava-se equidistante destes dois pólos antagónicos. Entendia-se que o ateísmo resultava da falta de fé, em contraponto às superstições, que eram fruto de excessos religiosos. A partir do Iluminismo, passou-se a entender a superstição como uma crença que ofende a razão e não propriamente a religião.

 

 

    A forma como os governos lidaram com o fenómeno das superstições sofreu também modificações significativas ao longo dos tempos. Vejamos, por exemplo, o que se passou nos Estados Unidos da América. Nos anos 30 do século XX, a sexta-feira 13 era a superstição mais popular em todo o país. A crença segundo a qual uma sexta-feira 13 trazia má sorte estava enraizada na esmagadora maioria da população, de tal forma que as autoridades de French Lick, no estado de Indiana, decretaram em 1939 que todos os gatos pretos deveriam usar guizos, durante as 24 horas da sexta-feira 13, de forma a alertar os residentes dessa localidade, que assim poderiam evitar a sua presença no decorrer desse fatídico dia. O decreto foi aprovado cinco semanas depois do início da II Guerra Mundial, o que leva Nathaniel Lachenmeyer, autor do livro “13”, a salientar que este facto suporta a teoria de que as superstições ganham força em tempos de incerteza. Com o passar dos anos, vários setores governamentais começaram a posicionar-se progressivamente contra as superstições por entender que estas crenças irracionais, bem como vários preconceitos, fomentam a ignorância.

 

    A verdade é que muitas superstições persistem na atualidade. A fobia ao número 13 é uma delas. Algumas companhias aéreas, como a Air France e a Lufthansa, ainda omitem a fila 13 nos seus aviões. Em algumas partes do mundo, é raro conseguir encontrar um Hotel que não tenha renumerado o seu décimo terceiro andar (substituindo o 13 pelo 14 ou por 12A). É o caso, por exemplo, de Nova Iorque. O curioso é que ainda antes dos prédios terem 13 andares, já se saltava do 12 para o 14 na numeração dos quartos. Mas há quem vá mais longe, recusando-se a pernoitar, por exemplo, num quarto 454, por entender que esse número está a camuflar o 13 (note-se que 4+5+4=13). Stephen King, conhecido autor de contos de horror fantástico e de ficção, revelou que, quando está a ler um livro, nunca pára nas páginas 94, 193, 283 e em todas as outras em que a soma dos algarismos seja 13. Os jogadores de críquete da Austrália costumam chamar ao 87 “o número do diabo”, já que 87=100-13. Há também quem evite morar numa casa com o número 13 ou que não queira dar um nome ao seu filho com exatamente 13 letras. 

 

    Outro aspeto referido com frequência tem a ver com o facto do décimo terceiro Arcano Maior do Tarot ser a carta da morte (na foto), que pode estar relacionada com algum tipo de fatalismo, de desastre financeiro ou de separação dolorosa. Contudo, para os entendidos na matéria, a carta da morte não significa necessariamente uma mudança negativa, pois pode estar ligada a factos agradáveis, como o início de uma nova relação, um casamento ou um nascimento. Mas é quase sempre o fim de uma antiga forma de vida. O 13 também marca presença no baralho de cartas tradicional, pois este é composto por 4 naipes de 13 cartas cada.

 

    Alguns acontecimentos históricos ajudaram a alimentar a fobia ao 13. Lançada no dia 11 de abril de 1970, às 13h13, a Apollo 13 consistiu na terceira missão tripulada do Projeto Apollo com destino à Lua (note-se que, se adicionarmos os algarismos de 11/04/70, obtém-se 13). Devido a um acidente causado por uma explosão num dos módulos, não foi possível concluir a missão. Mesmo assim, os tripulantes conseguiram regressar com a nave à Terra, após seis dias no espaço. 

 

    A sexta-feira, 13 de outubro de 1972, foi um dia negro para a aviação civil: o voo 571 da Força Aérea Uruguaia caiu nos Andes (note-se que 5+7+1=13). Dos passageiros que sobreviveram à queda, 8 foram mortos por uma avalanche que atingiu o local onde se encontravam. Ao todo, sobreviveram apenas 16 passageiros. 

 

    Na sexta-feira, 13 de outubro de 1989, o índice Dow Jones sofreu a segunda maior queda da época. Houve quem associasse essa queda ao facto de, nesse ano, existirem três sextas-feiras 13. Hoje, a queda que ficou conhecida como o “mini-crash da sexta-feira 13” não entra nem nas 10 maiores quedas da história.

 

    O medo excessivo e irracional do número 13 tem um nome. Chama-se triscaidecafobia. Por sua vez, o medo específico da sexta-feira 13 é chamado de frigatriscaidecafobia. Em casos extremos destas fobias, recomenda-se um tratamento que passa por uma exposição gradual da pessoa ao objeto da fobia, como forma de reduzir a ansiedade. Por exemplo, uma pessoa que tenha medo dos andares número 13, é convidada a visitar um e a permanecer progressivamente mais tempo nesse andar. 

 

    A fobia ao 13 e à sexta-feira 13 continua a marcar presença e a influenciar as vivências do mundo ocidental. Em contraponto, na China e no Japão o 13 é considerado um número da sorte e o papel de número azarento é atribuído ao 4 (note-se, por curiosidade, que 1+3=4). No Ocidente, a fobia ao 13 emergiu de reinterpretações de crenças religiosas, como foi observado na primeira parte deste artigo, publicada na semana passada. Já na China e no Japão, o motivo pela fobia ao 4 é bem diferente: o símbolo utilizado para representar o “quatro” tem um som muito semelhante à palavra “morte”!

 

    Recentemente tem-se verificado que a fobia ao 13 está a perder terreno em favor de movimentos alimentados na Internet por crenças neopagãs que defendem precisamente o contrário: consideram que o 13 é um número benevolente, com poderes místicos. Existem mesmo empresas dedicadas ao fabrico de t-shirts e de todo o tipo de bijuteria que apelam ao fetiche pelo 13. Quem sabe se esta moda não pega e, num futuro próximo, todos nós estaremos a jantar em mesas com 13 lugares, para comemorar as sextas-feiras 13, com os talheres cruzados à nossa frente, com a sala decorada com espelhos partidos e guarda-chuvas abertos e com a oportunidade de espalhar à vontade sal sobre a mesa. A imaginação é o limite!

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (Docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores e colaborador no CcT)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8298-n%C3%BAmeros-curiosos-o-azarento-13-parte-ii

 

Comentários

número 13

Data: 03-07-2015 | De: Mara Girlandia de Sousa

Para mim o número 13 é um número que mim dar sorte.

Re:número 13

Data: 03-07-2015 | De: Ricardo Cunha Teixeira

E para muitos o número da sorte é o 7!
http://cienciapatodos.webnode.pt/news/numeros-curiosos-o-favorito-7-parte-i/
http://cienciapatodos.webnode.pt/news/numeros-curiosos-o-favorito-7-parte-ii/

Itens: 1 - 2 de 2

Novo comentário