Números curiosos: o favorito 7 (parte I)

31-05-2015 15:46

 

    O número 7 é, sem dúvida, um dos números mais admirados de todos os tempos. Hipócrates, que viveu na Antiga Grécia e é considerado o “pai da medicina”, defendeu a grande influência deste número sobre todos os seres, por ser o promotor da vida e a fonte de todas as mudanças, referindo-se ao facto de a Lua mudar de fase, aproximadamente, de sete em sete dias. O curioso é que este fenómeno está na origem das nossas semanas de sete dias. Pensa-se que os babilónios foram os primeiros a agrupar os dias em conjuntos de sete. Nessa altura, acreditava-se que cada dia da semana era regido por um astro diferente: o Sol, a Lua e os cinco planetas que se podiam avistar a olho nu (Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno). Mais tarde, esta prática de organização dos dias acabou por ser adotada pelos romanos e por outros povos europeus por eles influenciados.

 

    O número 7 também é referido com frequência na Bíblia, desde logo se pensarmos nos sete dias da criação. No capítulo 2 do Génesis, versículo 3, salienta-se mesmo que “Deus abençoou o sétimo dia e fez dele um dia sagrado, pois foi o dia em que descansou de toda a obra da criação”. Ainda no Antigo Testamento, no capítulo 6 do livro de Josué, versículo 4, Deus dá instruções a Josué para a tomada de Jericó: ao sétimo dia, sete sacerdotes devem levar sete trombetas de chifre de carneiro e, tocando nelas, dar sete voltas completas às muralhas da cidade, à frente da arca da aliança. A vontade divina e o poder mágico do número 7 acabam por surtir efeito e as muralhas desmoronam-se. Já no Novo Testamento, no capítulo 18 do Evangelho de S. Mateus, versículos 21-22, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-lhe: “Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo sete vezes, mas setenta vezes sete.” Também encontramos o 7 no Apocalipse de S. João. No capítulo 5, versículos 1-7, há um cordeiro com sete chifres e sete olhos, que recebe um livro lacrado com sete selos. No capítulo 8, versículos 1-2, quando o cordeiro quebra o último selo, aparecem sete anjos com sete trombetas que anunciam desastres terríveis, no meio de granizo, fogo e sangue.

 

    Há outros aspetos curiosos a ter em conta como, por exemplo, as sete vacas do sonho do faraó (Génesis 41:1-2), os sete anos para os escravos hebreus adquirirem a liberdade (Êxodo 21:2), o sétimo ano, após seis anos de cultivo, em que se concedia descanso à terra (Levítico 25:4), as sete tranças de Sansão (Juízes 16:13), os “outros sete espíritos” que se juntam ao espírito impuro (Mateus 12:45) e os sete espíritos malignos de que Maria Madalena foi curada (Lucas, 8:2). Sete são os Dons do Espírito Santo, as Obras de Misericórdia Corporais, as Obras de Misericórdia Espirituais, os Sacra-mentos, os Pecados Capitais, as Virtudes e os pedidos expressos no Pai Nosso. Sete são os domingos da Quaresma, bem como as semanas que vão da Páscoa ao Pentecostes. O leitor recorda-se certamente de uma rima popular dedicada à contagem dos domingos da Quaresma: “Ana, Magana, Rebeca, Susana, Lázaro e Ramos, na Páscoa estamos!” De notar que os cinco primeiros nomes dizem respeito a figuras bíblicas: Ana (Santa Ana, casada com São Joaquim, pais de Nossa Senhora); Magana (Maria Madalena ou Maria Magdala, pecadora que se converteu); Rebeca (esposa de Isaac, filho de Abraão); Susana (mulher injustamente acusada de adultério, salva pelo profeta Daniel); e Lázaro (São Lázaro, ressuscitado por Jesus três dias depois de morto).  

 

    Na tradição judaica, o 7 aparece associado ao conceito de Shamayim ou multiplicidade de céus. São sete os céus ou palácios que constituem a rota mística de ascensão da alma, todos eles regidos por anjos: o primeiro céu ou Shamayim faz fronteira com o nosso mundo e é o reino dos ventos e das nuvens; o segundo é Raqia, onde estão aprisionados os anjos caídos que pecaram contra o criador, aguardando julgamento final na escuridão completa; o terceiro é Sagun, onde está o inferno e o paraíso; o quarto é Machonon, onde está Jerusalém Celeste; o quinto é Mathey, morada dos anjos vingadores; o sexto é Zebul, onde se guardam todos os infortúnios da humanidade; e o sétimo e último céu é Araboth, onde se encontra o trono de Deus.

 

 

    Muitas pessoas consideram que o 7 é o seu número da sorte. Exemplo disso é o conhecido futebolista português Cristiano Ronaldo, que não abdica de jogar com a camisola 7. Curiosamente, a primeira vez que lhe atribuíram uma camisola com este número não foi por opção própria. Aos 18 anos, Cristiano deixou o Sporting e tornou-se jogador do Manchester United. Nessa altura, perguntou ao treinador Alex Ferguson se estava disponível o número 28 que tinha no Sporting, ao que ele lhe respondeu: “Não, o teu número é o 7!” Ferguson, confiante nas qualidades do seu jogador, pensou na camisola 7 que já tinha sido envergada por grandes nomes do Manchester United, como George Best, Eric Cantona e David Beckham (Beckham havia saído rumo ao Real Madrid, deixando vaga a camisola 7). À impressa portuguesa, Cristiano declarou: “Em Manchester, toda a gente me fala de Best e de Cantona. É um orgulho seguir os seus passos. Mas há uma coisa que desconhecem. Para mim o 7 é especial porque é o número de Luís Figo, o que ele tinha no Sporting. Desde pequeno, eu queria ser como ele e vestir a camisola com o número 7.” Foi precisamente devido a Luís Figo, que usava o mesmo número na seleção portuguesa, que Cristiano Ronaldo envergou inicialmente a camisola 17 da nossa seleção (o leitor recorda-se certamente da sua participação no Euro 2004). De igual forma, quando Cristiano se mudou para o Real Madrid em 2009, teve que usar a camisola 9, uma vez que o número 7 pertencia ao então capitão Raúl. Contudo, em ambos os casos, assim que surgiu uma oportunidade, o jogador madeirense não hesitou em mudar para a camisola número 7. Segundo Luca Caioli, autor da biografia de Cristiano Ronaldo de 2012, da Editorial Presença, Cristiano tem uma fixação pelo número 7 e pelas suas iniciais CR. Porém, o repórter desportivo acrescenta que a obsessão maior deste jogador, que engloba todas as outras (como o cuidado com a sua imagem e condição física), é de ser melhor do que ninguém e de alcançar a perfeição, “algo que não é deste mundo”! 

 

    Como se pode ver na foto, CR7 conta já com a sua figura no Museu de Cera de Madrid. Por influência positiva do número 7 ou não, certo é que Cristiano Ronaldo apresenta um leque glorioso de conquistas, não só dentro das quatro linhas, como também no mundo da publicidade e da moda, onde se inclui o recente lançamento da coleção de roupa interior CR7.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (Docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores e colaborador no CcT)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8010-n%C3%BAmeros-curiosos-o-favorito-7-parte-i

 

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