O oceano e o clima

19-04-2015 17:58

 

    Alterações climáticas? Aquecimento global? Efeito de estufa? Cheias? Tornados? Todos estes termos povoam cada vez mais os nossos telejornais, mas o que significam realmente? E haverá alguma relação entre eles e o oceano?

 

    Ao contrário da Lua, a Terra possui uma atmosfera bem definida que lhe permite reter calor através do famoso efeito de estufa (Figura 1). Enquanto que na Lua as temperaturas diárias variam entre os -233 e os 123°C, na Terra as temperaturas variam em média entre os -50 e os 50°C. Ao incidir na Terra, a radiação solar aquece a sua superfície. Contudo, parte desta radiação é re-emitida para o espaço. Sem atmosfera, a retenção de calor seria limitada e, na ausência de incidência solar, o planeta arrefeceria muito. São gases atmosféricos como o dióxido de carbono (CO2), o óxido nitroso (N2O), o metano (CH4) e o ozono (O3), bem como o vapor de água, que absorvem uma grande parte da radiação e a emitem de volta para a superfície da Terra, retendo asim o calor no planeta de forma semelhante ao vidro numa estufa. Apesar do clima da Terra depender de factores como a actividade vulcânica, os ciclos solares ou tectónica de placas, dados científicos dos últimos anos parecem apontar cada vez mais para o impacto do Homem no aumento das temperaturas médias (o aquecimento global), devido ao uso intensivo de combustíveis fósseis (petróleo, carvão) como fonte de energia, cuja queima resulta na libertação de grandes quantidades de gases causadores de efeito de estufa. O aumento da temperatura significa que existe mais energia disponível na atmosfera para desencadear fenómenos extremos como tempestades e tornados, cuja intensidade e frequência têm vindo a aumentar.

 

Figura 1. Esquema ilustrativo do efeito de estufa. Crédito: Shutterstock

 

    O oceano cobre cerca de 70% da superfície do planeta e desempenha um papel fundamental no clima do planeta.  Como a água tem capacidade de absorver e reter muito mais energia do que a terra, os oceanos absorvem muito mais energia solar do que os continentes. Como a massa de água oceânica está em constante movimento, essa energia vai ser transportada ao longo do planeta. Assim, a energia absorvida entre o equador e os trópicos, onde a incidência solar é maior, vai ser transportada para as regiões polares, “aquecendo-as”. Este transporte de energia a larga escala é feito através de correntes oceânicas geradas pela acção do vento, da maré e por diferenças de densidade como é o caso da circulação termohalina que, tal como o nome indica, resulta de diferenças de temperatura (termo) e salinidade (halina) (Figura 2). Usando como exemplo o oceano Atlântico, na região equatorial, devido à maior intensidade solar, a água do mar é relativamente quente à superfície e salina, devido à evaporação mais intensa. Ao circular para norte, devido ao movimento de rotação da Terra, a massa de água vai transportar calor para o norte da Europa que apresenta temperaturas relativamente amenas quando comparada com a costa dos EUA e Canadá localizada a latitudes semelhantes. Ao avançar para norte, a massa de água salina vai arrefecendo, aumentando assim a sua densidade e acabando por “mergulhar”. Torna-se então numa corrente profunda que vai cruzar o oceano, aflorando à superfície nas regiões do Índico e Pacífico, onde integra novamente a corrente de superfície.

 

Figura 2. Circulação Termohalina percorrendo o oceano global. Crédito: WikiMedia Commons

 

    A circulação termohalina é essencial na regulação do clima global. Estudos paleoceanográficos já relacionaram alguns eventos de glaciação (período frio) e interglaciação (período quente) com alterações na intensidade da circulação termohalina, com uma circulação menos intensa (menor transporte de calor para os pólos) a favorecer um período de glaciação.

 

    Os oceanos desempenham outro papel essencial na regulação do clima planetário ao representarem o maior reservatório de carbono do planeta. Uma grande quantidade de CO2 atmosférico é removida pelos oceanos e incorporada em matéria orgânica (fitoplânction) através da fotossíntese. O fitoplâncton representa a base da cadeia alimentar oceânica pelo que vai ser predado por zooplânction, que por sua vez serve de alimento a organismos de maiores dimensões. Uma boa parte destes organismos vai acabar por sedimentar ou ser transportada (por exemplo, através da circulação termohalina) para o fundo dos oceanos. O CO2 atmosférico é assim removido da atmosfera por um período de tempo longo, por vezes à escala do ciclo geológico ao ser incorporado nas rochas sedimentares que se formam no fundo dos oceanos, diminuindo o efeito de estufa.

 

Figura 3. Fitoplâncton visto ao microscópio. Credits: Richard Kirby, Plymouth University

 

    Resumindo, o oceano desempenha um papel fundamental na regulação do clima global, podendo pequenas alterações resultar em consequências dramáticas no clima do planeta.

 

 

Catarina Leote (doutoranda no Royal Netherlands Institute for Sea Research e colaboradora do CcT - texto inédito elaborado para publicação no Ciência com Todos).

 

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Caracteristica do oceano

Data: 23-02-2017 | De: Clima

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