O outro lado

30-04-2012 00:38

 

Nos últimos anos algumas vezes acedi à página da Fundação José Saramago pelo que, com alguma assiduidade, ia lendo os textos ali colocados.
Resolvi agora rever essas leituras e, de entre os textos que ainda não tinha lido, um prendeu particularmente a minha atenção.

O outro lado


Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

Ao ler este texto, de imediato me vieram à mente os enigmas da Física Quântica.
Para falar um pouco desse enigmas, vejamos o que, à luz da mecânica clássica, distingue uma onda de uma partícula.

Partículas:
Estão localizadas no espaço e tem propriedades discretas, variando de forma descontínua (ex. massa). Duas partículas não podem ocupar o mesmo espaço no mesmo instante.
 

Ondas
Não estão localizadas (existem em vários pontos) e têm propriedades que variam continuamente (ex. amplitude e frequência). Duas ou mais ondas podem ocupar simultaneamente o mesmo espaço (os vários sons de uma orquestra chegam simultaneamente aos nossos ouvidos).

O filme que poderão ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=DfPeprQ7oGc&feature=related, fala-nos de algo que colide com esta distinção aparentemente simples.
Ninguém considera que uma bola de futebol possa passar por dois buracos ao mesmo tempo. Ninguém esperava, no início do século XX, que os electrões se comportassem de modo diferente de bolas de futebol. Mas comportam e por isso a mecânica quântica teve que ser criada para os descrever…
(Adaptado de “Nova Física Divertida, C. Fiolhais)

Em 1971 três cientistas italianos, Merli, Pozzi, e Missiroli, começaram a planear uma experiência de interferência de um electrão consigo mesmo. Enviavam electrões, um de cada vez. Foram imediatamente bem sucedidos a detectarem um padrão de interferência.

 

Imagem retirada de Crease, R. (2006); O Prisma e o pêndulo; Publicações Europa-América, página 170.

 

Não temos outra escolha senão aceitar que os electrões são detectados um a um como partícula, mas que todo o conjunto manifesta propriedades ondulatórias.
A experiência da interferência dos electrões traz a sua realidade para os nossos olhos de uma forma dramática, económica e material. A experiência de ver os cliques de um detector a registar electrões isolados e a produção de um padrão de interferência é uma das experiências humanas mais avassaladoras e captadoras de atenção.

Mas, mais estranho ainda, é que se tentarmos detectar por que fenda passa cada electrão, já não observamos interferência.

Isto levou a que Niels Bohr e seus seguidores (a chamada escola de Copenhaga) admitissem que a realidade não existe por si. A realidade depende de quem a observa. A forma como observamos determina o que acontece.
A esta posição opuseram-se os “realistas”, entre eles Einstein. Para eles a realidade existe independentemente de nós próprios.

Na tentativa de decifrar o mundo quântico, os físicos tem evoluído através de uma teoria extremamente formalizada que escapa a quase todos nós.

(…) Niels Bohr defendia que a mecânica quântica é quase totalmente incompreensível, e chegou ao ponto de dizer que, para abordar o mundo quântico, a linguagem da razão e da lógica já não é apropriada, e que convém ir buscar a linguagem da psicologia ou da arte; por exemplo a linguagem dos poetas que não procuram representar os factos de forma precisa, mas apenas criar imagens e estabelecer conexões no plano das ideias (…).
(In D´Espagnat B. e Klein E., Olhares sobre a matéria).

É também atribuída a Bohr a frase: "Se alguém diz ter entendido a mecânica quântica é porque realmente não a entendeu".
 

Termino com um poema do poeta Carlos Vogt:

Cantos
 

A natureza em si, ou a natureza para a consciência que se tem dela,
O movimento na substância das coisas,
As coisas no movimento substantivo das formas,
As formas da consciência na percepção do fenómeno observável,
O observador como parte da observação, no observado,
O conhecimento aos saltos luminosos de massas e energias indesnudáveis,
Mas nuas no experimento fundador,
A orquestração de fórmulas perfeitas, acabadas, consistentes,
Belas em sua verdade abstractamente imperativa,
Sensivelmente intangível, empiricamente indemonstrável,
Dualidade de mundos, multiplicação de universos,
Dobraduras do tempo e do espaço,
Rugas infinitas do espaço-tempo!

 

Texto de Regina Gouveia

Tópico: Comentários

Não foram encontrados comentários.

Novo comentário