Os Bordados da Dona Maria de Fátima Oliveira

16-11-2014 19:00

 

    Terminou mais uma Semana do Mar. Ano após ano, na primeira semana completa de agosto, a cidade da Horta transforma-se num palco de animação para todos os gostos. Destacam-se as provas náuticas, a feira do livro, a música diversificada e os sabores provenientes dos restaurantes e das tasquinhas. No primeiro dia da Semana do Mar, marcam presença obrigatória o cortejo, pedestre e náutico, com a imagem de Nossa Senhora da Guia e o corso etnográfico com representação de todas as freguesias da ilha do Faial. Já nos últimos dias da festa, ocorre o desfile de automóveis clássicos, com exemplares sempre muito bem conservados. 

 

    Este ano surgiu uma iniciativa diferente e muito interessante, que acabou por substituir o tradicional fogo de artifício no encerramento destas festividades: o lançamento de mais de 400 lanternas voadoras na baía da Horta, uma organização da Associação de Jovens da Ilha do Faial (AJIFA). Esta associação foi fundada recentemente com o objetivo de estimular a participação ativa dos jovens da ilha do Faial. Posso testemunhar o sucesso deste espetáculo luminoso, pelos olhos da minha filha de três anos e meio, uma “jovem” que adorou a iniciativa por lhe fazer lembrar uma cena do filme de animação da Disney, “Entrelaçados”, de 2010. Nessa cena, Rapunzel e Flynn Rider observam o espetáculo de cor produzido pelo lançamento de lanternas voadoras, muito semelhantes às utilizadas na Semana do Mar. Para os curiosos, aqui fica o link do vídeo com a música “I see the light”, na sua versão portuguesa: www.youtube.com/watch?v=YCmDV9-ERJc&feature=youtu.be .

 

    Um dos pontos obrigatórios da Semana do Mar é a sua já tradicional Feira de Artesanato. Este artigo é dedicado ao trabalho desenvolvido pela Dona Maria de Fátima Oliveira, em especial a alguns dos seus bordados que estiveram expostos na Feira. Esta artesã faz bordados há 52 anos. Aprendeu os fundamentos da arte de bordar com uma vizinha de Castelo Branco e, mais tarde, frequentou um curso de uma conhecida marca de máquinas de costura. Ainda muito nova emigrou para Moçambique, seguindo a onda de emigração decorrente das erupções provocadas pelo Vulcão dos Capelinhos, que se manteve em atividade entre 27 de setembro de 1957 e 24 de outubro de 1958. Viveu nessa antiga colónia portuguesa durante cerca de 12 anos, onde casou e teve um filho. Em Moçambique, apenas bordava ao fim de semana, nomeadamente toalhas e lençóis para algumas amigas. Aos 28 anos, regressou à Ilha do Faial, no decorrer dos tempos agitados do 25 de abril de 1974, tendo retomado a atividade de artesã. 

 

    Atualmente, os seus bordados são vendidos em algumas lojas da cidade da Horta. Participou pela primeira vez na Feira Regional de Artesanato da Semana do Mar em 2010, onde tem mantido uma presença regular desde então. Este ano também teve a oportunidade de expor os seus bordados na Feira de Artesanato organizada no âmbito das celebrações em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em São Miguel. 

 

    Nos seus trabalhos utiliza linho e algodão. Para além da máquina de costura, necessita também de um bastidor, de tesoura e de linha de algodão de cores variadas. Para esboçar no tecido os desenhos que pretende implementar, utiliza papel vegetal, químico e uma esferográfica sem tinta. Maria de Fátima Oliveira confessa: “tenho sempre uma grande curiosidade em ver as peças finalizadas, por isso prefiro aquelas que são mais pequenas e que, por isso, são de rápida execução”. De entre as peças que habitualmente produz, destacam-se panos de pão, panos de tabuleiro, toalhas da louça, aventais e laços para garrafas, bases para copos, argolas para guardanapos, porta-chaves e bolsas para telemóveis. Quando questionada sobre as peças que mais gostou de fazer ao longo dos anos, Maria de Fátima recorda as toalhas que bordou para os altares da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, localizada na Ribeira Funda, na freguesia dos Cedros. Sobre a Feira de Artesanato da Semana do Mar, esta artesã afirma que “as vendas têm caído nos últimos anos, apesar de a situação este ano estar um pouco melhor do que no ano passado”. Acrescenta: “mesmo assim, vale a pena participar pelo gosto que tenho por esta arte”.

 

    Seguem-se algumas imagens de panos de pão bordados pela Dona Maria de Fátima, cuja disponibilidade e simpatia agradeço.

 

 

    Todos estes trabalhos (A, B, C e D) apresentam simetrias de rotação de 90 graus e dos seus múltiplos: ao rodar um pano de pão no sentido anti-horário, segurando com um dedo no centro da peça, a configuração do desenho do pano permanece a mesma sempre que se completa um ângulo de 90 graus (ângulo reto). Por outras palavras, ao olharmos para o pano de pão segundo direções perpendiculares (num sentido e no oposto), a configuração do desenho não se altera: por exemplo, se nos posicionarmos em qualquer um dos lados de uma mesa quadrangular ou retangular, em frente ao pano de pão, a configuração do desenho é sempre a mesma. Os pontos utilizados nos bordados A, B e C são o matiz, o ponto pé de flor e o ponto de recorte ou cordoné. Este último serve para fazer o rebordo da peça, cujo tecido se apara após terminado o trabalho. Já para a peça D utilizaram-se os seguintes pontos: ponto cheio, richelieu e cordoné.

 

    Numa próxima oportunidade, analisaremos o trabalho em crivo de outra artesã faialense que também tem marcado presença assídua na Feira de Artesanato da Semana do Mar, a Dona Salomé Vieira.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/8525-os-bordados-da-dona-maria-de-f%C3%A1tima-oliveira

 

Comentários

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Data: 04-09-2015 | De: conceição fatima tondato da costa

quero comprar o seu produto muito obrigado conceição tondato

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