Os bordados de palha de trigo sobre tule da Dona Isaura Rodrigues (parte I)

08-03-2015 18:19

 

    O Arquipélago dos Açores é rico em formas diversificadas e criativas de artesanato. Em artigos publicados no Tribuna das Ilhas ao longo dos últimos anos, analisámos as simetrias das rendas tradicionais do Faial e do Pico e de peças feitas noutros suportes como, por exemplo, as obtidas do recorte de papel ou do recorte de madeira. Neste contexto, seria uma falha não explorar as simetrias dos bordados tradicionais dos Açores. 

 

    Para os interessados, o livro Bordados dos Açores constitui uma referência bibliográfica a ter em conta. O livro foi editado pela primeira vez em 2001 conjuntamente com a Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, tendo sido as posteriores reedições da responsabilidade do Centro Regional de Apoio ao Artesanato.

 

    A singularidade e a riqueza dos bordados dos Açores justifica em pleno a sua divulgação e promoção, a nível regional, nacional e internacional. Trata-se de um produto genuinamente açoriano com certificação de origem e qualidade desde 1998.  Na Portaria n.º 89/98, de 3 de dezembro, foram contemplados os bordados tradicionais do Faial, da Terceira e de S. Miguel, sendo que cada um apresenta características muito próprias. No Faial, destacam-se os bordados de palha de trigo sobre tule. 

 

    A arte de bordar em tule remonta ao século XVIII, quando novas texturas começaram a ser testadas por várias indústrias europeias. Na corte de Napoleão, este tecido foi amplamente aplicado em vestidos de baile bordados a ouro, prata e seda. Já na Península Ibérica, destacam-se os célebres lenços de cabeça do traje das noivas de Viana do Castelo. 

 

    Vejamos o que se passou nos Açores e, em particular, no Faial. Por volta de 1850, iniciou-se na ilha do Faial a indústria caseira dos bordados a palha, que, aos poucos, foi ganhando adeptos pelo mundo fora. Na sequência da emigração que decorreu ao longo do século XIX, os bonitos artigos feitos por mãos femininas eram largamente exportados para o estrangeiro, nomeadamente para os Estados Unidos da América. De destacar também os muitos estrangeiros que visitaram a cidade da Horta e que se interessaram por esta arte, desde logo, os ingleses. Confe-cionava-se de tudo um pouco: mantilhas, mantas de pescoço, lenços, chapéus e vestidos. Bordava-se a palha sobre tule de seda ou de algodão branco ou preto. A palha de trigo dos Açores apresentava características próprias, como o brilho e a cor, inconfundíveis aos olhares mais atentos.

 

 

    A certificação dos bordados de palha de trigo sobre tule obedece a uma tipologia específica quanto às matérias-primas utilizadas (tule de algodão ou de nylon, palha de trigo ou de centeio, fio de piteira/babosa), às técnicas empregues (pontos de granito e de folha, recorte picotado no remate) e à configuração do desenho implementado (elementos florais e figurativos dispostos de forma simétrica). Sim, e é aqui que entra a Matemática, como veremos em pormenor no próximo artigo!

 

    Sentámo-nos à conversa com a Dona Isaura Rodrigues, artesã de reconhecido mérito na arte de bordar palha de trigo sobre tule. Começámos por falar nas diferentes fases de execução de uma peça. Em primeiro lugar, deve-se escolher o desenho que tem de se adaptar à estrutura do tule. Em seguida, passa-se o desenho para papel vegetal, que é anexado a uma folha de papel de ferro para ficar mais fácil de trabalhar. Por fim, coloca-se o tule sobreposto ao papel vegetal, que deve ser alinhado e mantido fixo (figura 1). 

 

    A matéria-prima necessária exige também algum cuidado. Por exemplo, a palha de trigo deve ser cortada com uma rachadeira artesanal, que está preparada para dividir a palha em 5 ou 6 hastes (figura 2). Em seguida, utiliza-se uma faca para retirar o miolo e uma dedeira para alisar (figura 3). Para a ponta das espigas, os caules e os pés das flores, utiliza-se a folha da piteira/babosa. Vejamos como deve ser preparada. Coze-se uma folha de cada vez, num alguidar com água retira-se o revestimento exterior e desembaraça-se os fios com a ajuda de uma escova de aço. Por fim, enrolam-se os fios num cartãozinho. 

 

    Apresentamos, de seguida, alguns trabalhos desenvolvidos pela nossa artesã (figuras 4 a 9), em que podemos apreciar as bonitas espigas que são uma marca característica dos bordados de palha de trigo sobre tule. Nas figuras 4 a 6, vemos alguns pormenores da elaboração de um vestido de comunhão. O vestido de batizado da figura 7 foi uma oferta da Dona Isaura Rodrigues para uma das suas netas. Este vestido acabou por ganhar um prémio a nível regional, tendo sido escolhido por um júri para representar os Açores na candidatura ao Prémio Nacional de Artesanato 2009. Por fim, na figura 9, vemos um pormenor de um quadro adquirido pela Junta de Freguesia de Castelo Branco, que se encontra presentemente no Alentejo.

 

    Numa próxima oportunidade abordaremos, com maior pormenor, algumas simetrias das peças executadas pela nossa artesã. Não perca!

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/9744-os-bordados-de-palha-de-trigo-sobre-tule-da-dona-isaura-rodrigues-parte-i

 

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