Os cavalos que encolheram ou Os equívocos sobre a evolução biológica

23-04-2012 00:26

 

Acham que “A Seleção Natural faz com que os indivíduos se modifiquem para se adaptarem ao seu meio”?

Numa primeira leitura, esta frase até pode parecer fazer sentido…Não é certo que nós vamos tentando adaptar-nos às circunstâncias cambiantes conforme necessário? Sim. Mas, por mais que esta visão algo antropocêntrica nos agrade, ela não é a evolução por seleção natural.

Esta é uma visão que vem ainda da teoria de evolução proposta pelo naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, que implicava a hereditariedade de características adquiridas. O que quer isto dizer? Bem, quer dizer que os seres vivos, ao tentarem adaptar-se ao seu meio ambiente, sofriam alterações anatómicas, por exemplo, e que essas alterações (ou novas características) eram passadas às sua descendência. Esta explicação há muito foi abandonada pelos biólogos evolutivos e só ocorre em casos muito raros (por exemplo, quando a radiação afeta as células das linhas germinais, os gâmetas, causando mutações).

Como funciona então a Seleção Natural, o mecanismo proposto pelo grande naturalista inglês Charles Darwin e que é hoje aceite como um dos processos responsáveis pela evolução biológica?
Sejamos um pouco antropocêntricos, só por um momento, e pensemos na nossa espécie, Homo sapiens. São todos os indivíduos da nossa espécie iguais? Não: há pessoas de diferente altura, com diferente cor de cabelo, de olhos, de pele, etc. Estas diferenças que nos parecem tão evidentes na nossa espécie existem em todos os seres vivos! Desde a mais diminuta bactéria até ao gigante elefante africano. E, pequenas diferenças na anatomia ou no comportamento levam a que diferentes indivíduos tenham diferente capacidade para sobreviver e se reproduzir. Num determinado momento e num determinado local, certos indivíduos têm uma pequena vantagem de sobrevivência, reproduzem-se mais facilmente e deixam mais descendentes. Os seus descendentes vão naturalmente herdar as características dos progenitores e, deste modo, aumentar a frequência dessas características na população. Ao longo do tempo, temos a “ilusão” de que a espécie se foi modificando. Na verdade, assim nascem novas espécies! Mas não é pela transformação individual, mas sim pela sobrevivência diferencial de indivíduos com certas características que lhes trazem vantagens.

 

Equus vs. Sifrhippus, de Danielle Byerley (Florida Museum of Natural History).

A foto pode ser algo enganadora porque dá a ideia de que os cavalos atuais se transformaram nessa espécie anã, o que não é certo.

 

E que tem isto a ver com os cavalos que “encolheram”?

Pois esse é um exemplo recente de como uma interessante notícia acerca da mudança observada numa espécie devida a alterações climáticas (semelhantes às que tudo indica estarem a ocorrer atualmente) foi algo erroneamente transmitida pela comunicação social e blogosfera em geral.
Há exceções, claro. E aqui - http://www.nsf.gov/news/news_summ.jsp?cntn_id=123252&WT.mc_id=USNSF_51&WT.mc_ev=click - podem ler, em inglês, uma boa descrição do que é que os cientistas descobriram.

Leu-se então nos últimos dias, no jornal Público, por exemplo, a notícia de que os cavalos teriam diminuído de tamanho devido às alterações nas condições ambientais de há 56 milhões de anos atrás, nomeadamente o aumento da temperatura que se verificou no período do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno.

Primeiro, há que perceber que esses cavalos nem sequer eram do mesmo género que existe atualmente, o género Equus, mas sim de um outro género primitivo chamado Sifrhippus (sim, a notícia do Público não tem o género bem escrito!). Os primeiros fósseis destes pequenos cavalos indicam que pesavam cerca de 6 kg. No entanto, verificou-se que, com o passar do tempo e o aumento da temperatura do planeta, os fósseis encontrados são de animais cada vez mais pequenos, até atingirem cerca de 4 kg (uma redução de 30%). Com a diminuição da temperatura, voltam depois a aumentar de tamanho para cerca de 7 kg (em média). Isto ocorreu ao longo de quase 200 mil anos.

Neste vídeo, podem ver um resumo dos resultados e como foram obtidos (link para o vídeo:http://www.nsf.gov/news/news_images.jsp?cntn_id=123252&org=NSF).

E como se explica isto corretamente, dentro da Teoria da Evolução?

Na população inicial de cavalos Sifrhippus, havia indivíduos de diferentes tamanhos, mas com uma média de 6Kg. Com o aumento gradual da temperatura, os cavalos que eram ligeiramente mais pequenos tinham algumas vantagens de sobrevivência (se calhar, por exemplo, porque comiam menos vegetação ou eram menos propensos a doenças – especulação minha!). Sobreviviam portanto durante mais tempo, reproduziam-se melhor e tinham mais descendentes. Esses descendentes herdavam as características dos progenitores e eram, portanto, também pequenos. Ao longo de milhares de anos, o resultado que hoje observamos é que o tamanho médio da espécie diminuiu. Não porque os indivíduos diminuíram de tamanho, mas porque a proporção de indivíduos de tamanho mais pequeno na população foi aumentando significativamente, mudando o tamanho médio observado. Com as mudanças ambientais posteriores em sentido contrário, o tamanho voltou a aumentar.

Mas não foram os indivíduos acalorados que encolheram!

 

NOTA: Para melhor perceber a evolução biológica, podem recorrer a este site de referência: http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/home.php

 

Diana Barbosa (texto publicado no blog AstroPt, a 26 de Fevereiro de 2012)

Versão original em: http://astropt.org/blog/2012/02/26/os-cavalos-que-encolheram-ou-os-equivocos-sobre-a-evolucao-biologica/

 

Tópico: Comentários

Ridiculo

Data: 21-05-2012 | De: Ana Assunção

É no mínimo ridículo, como alguém pode afirmar tal baboseira. Em primeiro lugar, posso vos considerar pseudos, uma vez que o vosso trabalho é sustentado em suposições, porque no final vocês não têm provas de nada. Baseiam-se num maluco que se deu pelo nome de Darwin que a única coisa que fez foi escrever um livro onde também não apresenta provas de nada. É caso para vos perguntar, e os dinossauros? Evoluíram de quê? Porque o nosso ADN nada tem haver com o dos chimpanzés, uma vez que segundo vocês evoluímos deles. LOL É ridícula esta ciência infundada. É caso para perguntar, os macaquinhos aqui têm estudado muito. LOL

Re:Ridiculo

Data: 22-05-2012 | De: Diana Barbosa

Ridículo é o seu comentário.
Caso tenha dúvidas ou evidências científicas em contrário ao que é dito, peço que as expresse devidamente.
Assim, só está a dizer mentiras científicas, não contribuindo para nenhum debate de ideias.
E a Teoria da Evolução não está aqui em debate.

O que é apresentado neste artigo de divulgação é, por um lado, um esclarecimento da Teoria da Evolução (um facto científico) e, por outro lado, um exemplo de porque é que esse esclarecimento é necessário.

Abstenho-me de comentar argumentos anti-científicos.
A Ana obviamente não tem noções básicas de biologia nem está interessada em adquiri-las.

Re:Re:Ridiculo

Data: 22-05-2012 | De: Ana Assunção

Bem, já expos as minhas duvidas a Diana é que não respondeu a elas.

Onde entram os dinossauros nesta história da evolução?

Porque o nosso ADN não tem qualquer similaridade com o dos chimpanzés, se segundo vocês nos evoluímos a partir dessa espécie?

Não foi colocada a hipótese de os tais cavalos de 6 Kg não se tratarem de uma nova espécie já extinta?

Depois, pelo que pude ler sobre a teoria da evolução, é que não passa de suposições infundadas, e que no fundo não existem quais queres provas da dita seleção natural. Vocês acharam uns fosseis, e por terem algumas similaridades com os cavalos actuais, logo supuseram tratar-se de uma suposta evolução.

Continuo a achar ridículo.

Re:Re:Re:Ridiculo

Data: 22-05-2012 | De: Diana Barbosa

O que expôs não foram dúvidas, foram afirmações infundadas.
Alguém que diz que a selecção natural é só uma suposição, é porque nunca procurou aprender.
Se quer realmente aprender, vá a este site (http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/evo_01) e aprenda!

Os dinossauros e os chimpanzés entram na evolução junto com todos os outros seres vivos do planeta... e nós partilhamos cerca de 98% do nosso ADN com os chimpanzés.
Aqui também pode aprender:
http://www.youtube.com/watch?v=H6IrUUDboZo

O que acha ou deixa de achar é indiferente.
A ciência não funciona com crenças ou opiniões, mas sim com evidências fundamentadas.

Re:Ridiculo

Data: 17-10-2017 | De: Marllow

Meu camarada! Antes de comentar ou criticar qualquer coisa estude primeiro o assunto e entenda do que está falando. Pelo que você escreveu acima, acho que até um analfabeto se sairia melhor. Aprenda primeiro os rudimentos da ciência e depois estude e entenda a teoria que tanto abomina. Não é difícil, qualquer pessoa com um mínimo de instrução e inteligência é capaz de aprender pelo menos o básico. Assim você não se expõe ao ridículo dando atestados de ignorância gratuitos como esse.

Evolução

Data: 03-05-2012 | De: Rui Marques

Não sei se a diferença dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera,através das eras,era suficiente para modificar o tamanho dos animais,mas uma coisa eu sei:os animais de corpo mais pequeno,perdem calor mais facilmente,que os que têm um corpo maior,devido a uma relação mais favorável,entre a massa corporal e a área exposta ao ar.
Agora quanto á teoria da evolução,deve dizer-se que ela é uma base de trabalho,ainda muito recente na história humana para se começar já a sedimentar ideias e conceitos.
Ao observar o mundo natural ,cada vez me parece mais que dentro do "mecanismo" da teoria,existem outros "mecanismos",que em menor ou maior grau se manifestam e engrenam num sistema complexo e movediço,que se esgueira furtivo,através de sombras e penumbras,sempre que tentamos aproximar o nosso olhar.
Vejamos então a parte onde se diz que não é o individuo ,mas sim uma população que se modifica e evolui,mas isso não é exactamente assim,ou pelo menos sempre assim,pois conhecemos casos,e logo nos primatas,que não obedecem a este critério.
Vejamos estes dois casos já estudados : um de uma espécie de macacos que utilizam pequenas varas que introduzem nos buracos das árvores,para assim apanharem térmitas que se lhe agarram,e de que se alimentam,e outros que utilizam "martelos" e "bigornas" para partirem nozes para comer.
Tanto num caso como no outro,não é totalidade da população que se sabe servir das ferramentas,embora no primeiro exemplo,seja quase toda,sendo muito poucos os indivíduos (aparentemente)que não sabem servir-se delas,e dando-se até o caso dos mais exímios conseguirem avaliar as melhores varas para os seus propósitos.
Digo aparentemente,pois não é possível controlar todo o tempo,todo grupo,em todos lugares,especialmente sendo animais omnívoros.
Já no segundo grupo se sabe que são poucos os animais que sabem usar as ferramentas,sendo normalmente as fémeas que passam (esforçadamente) o conhecimento aos filhos.A esta situação não será alheio o facto de se terem de usar conjugadas duas ferramentas em vez de só uma.
E porque falo eu nestes casos?
Porque tendo nós começado a observar os factos,só a partir de uma certa altura,e não sabendo quando,nem como começaram,facilmente salta á vista que estes fenómenos evolutivos começaram num determinado "ponto" duma população,se é que não podemos dizer que começou num determinado individuo,e depois através da observação e imitação duma acção com resultados muito vantajosos,se foi a pouco e pouco propagando pelo grupo,até abarcar toda uma população.
Assim sendo já teríamos aqui um possível "maquinismo".
Outro "maquinismo" é citado pela Diana Barbosa e que é a diversidade genética dentro duma mesma população.
A troca de material genético entre bactérias da mesma espécie espécie e entre espécies diferentes,também já citada,será outro"maquinismo".
As grandes catástrofes planetárias fariam também parte da maquinaria posta em andamento pela natureza,e que teriam um papel a desempenhar neste grande teatro.
Até o espaço cósmico tem aqui uma palavra a dizer,com as quedas de meteoritos que já sabemos terem acontecido ao longo da história,com os resultados que conhecemos,e até a possibilidade das chuvas de radiação devido á explosão de supernovas próximo da Terra de que parece haver provas num passado muito afastado.
Isto é apenas uma pequena ponta do iceberg dos factores que mantêm a evolução em movimento,porque muitos mais haverá,por isso é bom que mantenhamos uma saudável humildade,e um espírito aberto e vigilante.

Re:Evolução

Data: 22-05-2012 | De: Diana Barbosa

Rui, quero só fazer-lhe notar que o texto não é sobre a teoria da evolução (toda), mas sobre um aspecto particular da mesma: um dos equívocos a ela associada.

Existem vários mecanismos de evolução.
A descoberta de novos mecanismos não põe em causa a Teoria, simplesmente a melhoram.

Os exemplos que dá, são de evolução cultural em Primatas.
Não contradizem em nada o que já sabemos sobre a evolução, só enriquecem o nosso conhecimento do mundo animal e fazem-nos perceber, uma vez mais, que não somos "únicos" nem "especiais" no Universo.

Algumas considerações

Data: 24-04-2012 | De: Rui Costa


Este artigo levanta várias questões.
Ocorreu-me uma ideia de um possível mecanismo para esta substancial redução seguida de um também substancial aumento de peso dos cavalos.

Uma redução do peso médio dos indivíduos de 6 para 4kg (-50%) seguida de um aumento de 4 para 7kg (+75%) em apenas 200.000 anos pode dever-se a um outro mecanismo.
Esta mudança ocorreu há cerca de 50 milhões de anos e ter-se-á desenrolado ao longo de um período de tempo relativamente curto (200.000 anos num período de 50.000.000 de anos representa apenas 0,4% do período).
Para se estabelecer que ocorreu a tal variação de peso médio, seria necessário estudar uma quantidade significativa de exemplares, ter a certeza de que se trata de fósseis de indivíduos adultos e de datá-los com uma precisão enorme pois esse período foi subdividido numa primeira fase em que o peso médio diminuiu, seguido de um outro período em que esse peso médio aumentou para um valor superior ao inicial. Além de que muito provavelmente todos os fósseis se encontrariam no mesmo estrato.
Mas, para o que pretendo expor, vamos assumir que efetivamente se conseguiu um número de fósseis de indivíduos adultos suficiente significativo para se estabelecerem pesos médios e que foi possível uma datação com a precisão requerida.
É um facto comprovado que na nossa espécie, os bebés, filhos de mães fumadoras, têm um peso médio significativamente inferior aos restantes. Aqui não pode haver dúvidas porque é fácil sinalizar quais as mães que fumam durante a gravidez e é também fácil conseguir grupos de controlo (as restantes mães). (exemplos: www.foa.org.br/cadernos/edicao/04/97.pdf ou http://www.newbornbabyneeds.org/baby-development/cigarettes-and-pregnancy/). Uma das razões mais prováveis para esta redução de peso dos recém-nascidos terá que ver com uma deficiente oxigenação do sangue da mãe pois os pulmões tornam-se menos eficientes. Também naquele período a atmosfera se tornou mais rica em dióxido de carbono, diminuindo, naturalmente, a concentração de oxigénio.
Muito provavelmente foi o aumento substancial de dióxido de carbono (o mesmo que provocou, através do consequente efeito de estufa, o aumento da temperatura média do planeta) que provocou a diminuição do peso médio dos cavalos.

Re:Algumas considerações

Data: 24-04-2012 | De: Diana Barbosa

Caro Rui, faz algumas considerações interessantes.
Eu não me alonguei no porquê da mudança de peso da espécie porque o objectivo do texto era outro: dar a entender que os animais "em si", não mudam, mas sim as características médias da população.
Isto porque esse é um dos equívocos associados à Evolução por Selecção Natural.
Outro objectivo, mais relacionado com o exemplo usado, era esclarecer que os cavalos (tal como os conhecemos) não se "transformaram" em anões e depois em cavalos outra vez. Trata-se de uma outra espécie que já está extinta.
Mas, como comecei por dizer, as ideias que propõe são interessantes.

Re:Re:Algumas considerações

Data: 24-04-2012 | De: Rui Costa

Custa-me imaginar que alguém minimamente esclarecido e de boa-fé ponha em causa a Teoria da Evolução. Basta imaginar como é que uma população de bactérias se torna resistente aos antibióticos…
As minhas reservas não se referem ao seu texto, mas sim ao estudo que lhe serviu de base.
No entanto, já retirei as reservas… Há de facto uma grande quantidade de esqueletos bem conservados, porque se tratava de um animal que se agrupava em manadas. ( “From the large numbers of well-preserved skeletons, this was a herding animal. The large numbers of fossils have also made it a candidate for testing a hypothesis that individuals of a mammal and bird species become smaller as climate warms: Bergmann’s Rule”) e também foi possivel estabelecer com precisão a temperatura (“These size changes are negatively correlated with temperature inferred from oxygen isotopes in mammal teeth and were probably driven by shifts in temperature and possibly high atmospheric CO2 concentrations”).

Re:Re:Re:Algumas considerações

Data: 24-04-2012 | De: Diana Barbosa

Não é tanto para quem questiona a evolução (esses nem vão querer ler isto), mas para quem não a percebe bem e quer saber mais.
Ainda existe alguns mal-entendidos associados à Teoria, mesmo dentro do meio da divulgação científica. A noção de que um animal (ou outro ser vivo), durante o seu tempo de vida, se adapta e transforma noutra coisa (uma ideia algo lamarquiana) ainda está enraizada nalgumas pessoas.
Hoje sabe-se que a evolução é ramificada e não um processo linear. E sabemos também (desde Darwin) que é a composição da população que muda e não os indivíduos "per se".
A famosa imagem do macaco a progressivamente se transformar num homem é um dos contributos para esses equívocos. Visualmente é muito apelativa, como imagem comparativa, mas não representa, de todo, o processo, o mecanismo.

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