Podemos salvar o albatroz viajeiro?

13-05-2012 20:05

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José, um albatroz acabou de chegar! - disse Dafydd, um colega biólogo marinho, a entrar em pânico à medida que o rádio receptor captava o  sinal. Já tínhamos feito esta rotina muitas vezes, mas os nossos corações sempre aceleravam com a adrenalina quando um albatroz regressava a Bird Island, após uma longa viagem. Em segundos, pusemos as cinco camadas de roupa, emergimos da nossa base para um ar cortante a -10 °C, colocámos os skis e    dirigimo-nos para a colónia, monte acima, onde albatrozes se têm reproduzido durante séculos. Apesar de ter feito este trajecto muitas vezes, sempre o vi como mais um passo para a realização do meu sonho, fazer ciência numa ilha remota e, mais importante ainda, contribuir para a conservação destas aves marinhas fascinantes. Os albatrozes são as maiores aves marinhas do mundo, podendo chegar aos três metros de asa a asa, reproduzindo-se cada dois anos na Geórgia do Sul. Depois de criarem o seu filhote, os albatrozes fazem uma viagem única no reino animal em torno da Antárctida, pela Austrália, pelo Oceano Índico e regressando à Geórgia do Sul pelo Oceano Pacífico. Neste momento, eles estão aqui e eu rodeado por eles.  Dafydd e eu chegámos ao topo do monte e identificámos imediatamente  o albatroz com que estávamos a trabalhar, com mais do dobro da minha idade. Estava mesmo junto ao ninho, onde o seu filhote o chamava. A maioria destas aves marinhas nunca viu um ser humano antes. Olham para os humanos com curiosidade e, se nos aproximarmos, não fogem. Depois de capturar esta ave de 12 kg, identificada como BL07 pelo anel que se encontrava na sua perna, e posto confortavelmente no colo do Dafydd, eu recuperei o aparelho de rastreio via satélite que se encontrava nas suas costas. Enquanto o albatroz se encontrava no mar, o aparelho enviou sinais para um satélite, que nos informava onde o albatroz se encontrava geograficamente. Todos os dias, recebi um e-mail a dizer onde o albatroz tinha estado, algumas vezes tão distante como o Brasil, uns milhares de quilómetros a norte. Uma das suas viagens pode demorar 50 dias. Daí ter exclamado numerosas vezes, com um sorriso estampado na cara, para os meus colegas na base “o albatroz está a caminho de casa, deve chegar amanhã!” Com esta informação, poderei responder a questões a que a comunidade científica debate há muito tempo, tais como onde os albatrozes se alimentam, de que se alimentam e como podem ser afectados pela pesca comercial. Neste momento, os albatrozes estão em vias de extinção. As fêmeas são apanhadas frequentemente pelos anzóis da pesca do    palangre, atraídas pelo isco, que opera nas águas da América do Sul, enquanto os machos são ameaçados pela pesca costeira na Geórgia do Sul, ao pé da sua colónia. Para ajudar na conservação destes animais magníficos, o meu trabalho faz parte de vários programas internacionais científicos para as regiões polares. Eu estou a fazer ciência que directa ou indirectamente vão ser usados para compreender melhor os comportamentos dos albatrozes, e sugerir maneiras de minimizar a sua mortalidade. Por exemplo, estudos já desenvolvidos mostraram que, ao usar-se linhas de anzol mais pesadas, estas afundam mais rapidamente impossibilitando os albatrozes de apanharem o isco. Outro exemplo, é o colocar os anzois só à noite, de modo aos albatrozes terem mais dificuldade em verem os iscos. Estas são duas medias simples, mas extremamente benéficas, que poderão ajudar os albatrozes.

 

Espero que, daqui a 500 anos, quando os meus descendentes vierem à Geórgia do Sul, também eles tenham a oportunidade de ver albatrozes    e que sintam o privilégio e a felicidade de estar aqui ... tal como eu.

 

Texto do cientista José Xavier.

 

(Traduzido de José Xavier. "Can I have a wanderer around?". Awarded prize for the New Scientist/Wellcome Trust essay Competition 2001).

Ver original em português em: http://cientistapolarjxavier.blogspot.pt/2009/08/pode-salvar-o-albatroz-viajeiro-can-we.html

 

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