Que mal tem a radiação?

30-06-2013 14:33

 

    Neste artigo vou falar sobre as consequências negativas da radiação no corpo humano (em particular aquelas com que “convivemos” no nosso dia-a-dia).

 

 

    Importa começar por referir o que é a radiação: ondas de energia com uma dada frequência (esta não é uma definição técnica). A frequência (que pode ser entendida como os ciclos por segundo dessas ondas) faz variar o tipo de radiação em causa – quanto maior a frequência, maior a energia associada à radiação. Do mais fraco para o mais forte (em termos de frequência, ou energia, se preferirem) temos:

 

  • Rádio – como o nome indica, as ondas de rádio, televisão, WiFi*, telemóveis*, etc., incluem-se nesta categoria;

Rádio Telescópio – capta radiações nesta gama, vindas de todo o universo.

 

  • Microondas – aquelas que conseguem aquecer os alimentos, num aparelho que tem o mesmo nome;

 

  • Infravermelho – radiação emitida pelos corpos humanos, por exemplo, daí que estes possam ser vistos com câmaras sensíveis a esta radiação (mesmo na ausência de luz “visível”);

Fotografia de um cão na gama do infravermelho.

 

  • Visível – luz que conseguimos ver (ou seja, os nossos olhos são apenas sensíveis a esta faixa de frequências), também é uma forma de radiação;

 

  • Ultra-violeta – aquela que devem evitar em certos dias de Verão, mas que também é chamada de “luz negra” e que é usada, por exemplo, em discotecas;

 

  • Raios-X – usados em exames médicos, um “contacto” frequente com este tipo de radiação pode ter graves consequências para a saúde;

Primeira radiografia da história, feita por Rontgen à mão da sua esposa.

 

  • Raios Gama – emitidos por estrelas, os quais felizmente não chegam até nós.

 

    * Estes também podem ser colocados na gama das microondas, depende da convenção de qual a gama de frequências que inclui…

 

    Poderiam pensar que faria sentido que só a radiação mais energética que a visível é que nos deveria fazer mal, visto que estamos expostos à luz todos os dias e não é por isso que ficamos mais debilitados. Na verdade não é bem assim, pois basta lembrarem-se que a própria luz do Sol, mesmo contando que não haja elevados níveis de radiação ultra-violeta, pode conduzir a graves doenças de pele, se se deixarem “queimar” por ela. E quando é que isso acontece? Quando têm uma exposição prolongada. Portanto, para pensar na questão das consequências que podem surgir do contacto da radiação com o corpo humano, é necessário não só pensar no nível energético da radiação em causa, mas também no tempo a que estão sujeitos a ela. Além disso, há ainda a questão da intensidade. Como já expliquei anteriormente, no artigo onde abordei o efeito fotoeléctrico, a intensidade está relacionada com o número de partículas que constituem a radiação, enquanto que o “nível energético” que referia antes, relacionado com a frequência, é uma característica de cada uma dessas partículas (não necessariamente iguais entre si). No uso de raios-X, por exemplo, a intensidade usada é desigual consoante o paciente seja adulto ou criança (sendo usadas intensidades inferiores para este último).

 

    Assim, também a radiação menos energética pode trazer problemas, contando que a intensidade e o tempo de exposição sejam suficientemente elevados. Um exemplo disso são os telemóveis: como passamos muito tempo com eles, isso acaba por “compensar” o facto de usarem uma radiação de baixa frequência. Além disso, a intensidade aumenta significativamente durante as chamadas, pelo que quanto mais usamos o telemóvel, maior é o risco de vir a ter problemas de saúde devido à sua utilização.

 

    No entanto, não existem ainda estudos conclusivos e definitivos sobre as consequências da prolongada exposição às ondas rádio, ainda que a comunidade científica concorde que existe o risco de contracção de cancro, bem como de outras doenças crónicas, principalmente para crianças. É, por isso, expressamente desaconselhável dar um telemóvel a uma criança! Sempre que possível, é preferível enviar uma mensagem (sms), do que telefonar. Se possível, também, não manter o telemóvel junto ao corpo; se o puderem deixar sempre a mais de meio metro de vós, melhor ainda! De modo semelhante, se puderem ter o computador ligado à internet por cabo, ao invés de usarem wireless, a vossa saúde poderá sair beneficiada.

 

    Outro assunto que talvez tenham interesse em saber é em relação à radiação que os cabos de elevada tensão transmitem para o meio em redor. Estes cabos criam campos eléctricos bastante poderosos, mas que decaem muito rapidamente com a distância, apresentando só algum perigo para quem estiver muito próximo deles (alguns centímetros). Outro tipo de campos que também são criados, são os magnéticos, sendo estes também praticamente inofensivos, visto que os valores não chegam a 10% do valor a partir do qual se considera perigoso. Ainda assim, a OMS (Organização Mundial de Saúde) é um pouco mais reticente quanto à prolongada exposição de crianças a estes campos magnéticos, devido ao risco de desenvolver-se uma forma de cancro: leucemia (ainda que não seja sempre e nem sequer esteja explicado como tal é possível, aliás, nem as estatísticas feitas são aceites, pois existe falta de dados: poucos casos de leucemia e pouca gente a viver junto de linhas de Muito Alta Tensão, ainda assim, é melhor prevenir). Quanto a outros animais, tanto quanto se sabe, não são afectados por estes campos electromagnéticos (de modo “significativo”, pelo menos).

 

    Para concluir, pergunto-vos se já viram o famoso vídeo em que se vê telemóveis a fazer pipocas?

 

    Se não, podem ver aqui (clicar na imagem):

 

 

    Isto é uma montagem!  As ondas de telemóvel não conseguem gerar calor suficiente para tal, nem que fossem dezenas de telemóveis. Podem comprovar o desmentir dessa teoria pela própria pessoa que a inventou (clicar na imagem):

 

 

    Em suma, a mensagem que quero deixar é que existe realmente um risco, mas em muitos casos este é exagerado por quem não sabe do que está a falar, pois na maioria dos casos não está provado que seja assim tão grave. É claro que quanto mais energética for a radiação, menor é o tempo de exposição necessário para que hajam problemas para a saúde. Fazer raios-X, por exemplo, comporta riscos. Embora o número “redondo” de raios-X máximo aconselhável que uma pessoa pode fazer por ano seja de 5, isso não implica que não se possam fazer excepções. Digamos que é um compromisso, como muitos outros que fazemos na vida, onde aceitamos que um dado risco é aceitável tendo em consideração as benesses.  

 

 

Marinho Lopes (colaborador do Ciência com Todos e doutorando em Física) - texto primeiramente publicado no Blog do autor: Sophia of Nature.

 

Ver original em: http://sophiaofnature.wordpress.com/2011/05/19/que-mal-tem-a-radiacao/

 

Tópico: Comentários

ciencias radiacão

Data: 27-12-2013 | De: paloma

saber sobre radiacão de ciencias

Campo magnético/Medicina

Data: 01-07-2013 | De: João Pedro Calafate

Obrigado Marinho pela tua rápida e astuta resposta!

Cara amiga Graciete: coloque a sua dúvida na parte das questões do CcT, ou posso com sua ordem fazê-lo, pois pode ser que algum especialista na área da Saúde (o CcT tem vários) lhe saiba responder. Contudo, e como o Marinho refere, esse tipo de tratamento parece-me pseudociência, infelizmente tão propalada hoje em dia em todos os meios.

Há um livro muito bom sobre a Pseudociência na Saúde que se chama "Ciência da Treta", escrito por um médico inglês.

Um abraço ao dois.

Re:Campo magnético/Medicina

Data: 01-07-2013 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Obrigada pelo conselho. Não me importo nada que seja o meu amigo a pôr a pergunta no local certo.
A mim também me pareceu pseudociência , mas foi-me receitado por um médico ortopedista. E a verdade é que eu não senti qualquer melhora. Perguntei ao fisioterapeuta qual a ação desse campo magnético no tratamento, mas ele não me soube explicar.
Um abraço.

Re:Re:Campo magnético/Medicina

Data: 01-07-2013 | De: João Pedro Calafate

De nada cara amiga e vou então fazer isso! Quando tiver uma resposta, ou várias, digo-lhe algo.

Muitas vezes os médicos deixam-se levar por terapias e ideias pseudocientíficas, infelizmente, sendo que esta corrente de pensamento já se instalou em certos meios académicos. É como se de uma praga se trata-se. O livro "Pipocas com Telemóvel" desmascara muitos casos de pseudociência. Imagine que a médica pediatra da minha cunhada a aconselhou firmemente a comprar à Crioestaminal os serviços de preservação das células estaminais do cordão umbilical do filho, coisa que de barato nada tem, e isso, como aqui é bem referido/desmascarado pelo David Marçal - http://dererummundi.blogspot.pt/2012/05/tretas-estaminais.html -, é muito enganador, sendo que existe um banco público, a Lusocord, que é gratuito e providencia um serviço, ainda para mais, com maiores potencialidades.

Um abraço!

Campo magnético

Data: 01-07-2013 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Tenho uma dúvida sobre a ação do campo magnético no organismo. Há tempos um médico ortopedista receitou-me um tratamento de magnetoterapia, devido aos meus problemas de ossos. Eu fi-lo, mas não senti qualquer efeito, nem para melhor, nem para pior. Gostava de saber quais as transformações que o campo magnético provoca no organismo, nomeadamente nos ossos.
Desculpe esta pergunta, mas ando com esta dúvida há muito tempo.

Gostei bastante do seu artigo, que é muito útil principalmente nestes dias de praia e de uso exagerado de telemóveis!

Um abraço.

Re:Campo magnético

Data: 01-07-2013 | De: Marinho Lopes

Confesso que não sabia nada sobre terapia magnética e imediatamente pensei que seria treta.
Efectivamente, parece ser em geral isso mesmo:
http://www.cancer.org/treatment/treatmentsandsideeffects/complementaryandalternativemedicine/herbsvitaminsandminerals/magnetic-therapy

Também encontrei um estudo em como pode melhorar o fluxo sanguíneo, mas também não me pareceu muito conclusivo.

Em suma, tendo em conta aquilo que sei, seria para mim uma surpresa que os campos magnéticos pudessem ter qualquer uso para tratamento de ossos. De qualquer forma, não disponho de conhecimentos técnicos aplicados a este caso em particular para poder dar uma resposta definitiva.

Um abraço.

Itens: 1 - 6 de 6

Novo comentário