Sociedades Científicas

06-06-2012 19:17

    

 

    Trânsito natural dos mestres e discípulos, ou do ambiente dos sábios das cortes, experimentado durante a Renascença, transitando para todos os cidadãos, logo a partir do século XVII. Grupos com dois ou três profissionais, maioritariamente professores universitários, e números entusiásticos de amadores. A tendência agudiza-se na sequência da Revolução Americana, com a noção de que faz parte do bom exercício da cidadania conhecer bem as riquezas e recursos naturais do país – juntamente com a sua divulgação junto dos que não conhecem tais maravilhas. A mesma tendência, pelas mesmas razões, cresce na Europa do século XIX depois da Revolução Francesa, com o ênfase adicional posto no louvor aos benefícios da ciência.

 

    Muitos dos amadores que integravam estas sociedades pertenciam ao clero, como o Reverendo William Gregor, que descobriu o novo elemento Titânio numa areia preta que existia na sua própria paróquia; ou Gilbert White, cujo Natural History of Selbourne inspirou gerações e gerações de naturalistas – tal como, no século XVII, o l’homme de René Descartes já tinha inspirado o padre Malebranche para estudar durante cinco anos até redigir o seu colossal À la Recherche de la Vérité,; ou o Spectacle de la Nature, do Abbé Pluche, tinha inspirado Charles Bonnet para dedicar toda a sua vida ao estudo da natureza.

 

    O que é que, em traços largos, podemos dizer que caracteriza os membros destas sociedades? Há um poder especial para observar e recordar detalhes, uma memória particular para os lugares, aliados a um amor, um sentimento lírico da natureza, que são característicos do tipo de mente destes naturalistas. Por volta de 1830 dizia-se de William Smith, alcunhado carinhosamente de  “pai da geologia”, que, mesmo já numa idade avançada, a sua “memória para locais era tão exacta que foi muitas vezes, ao fim de vários anos, directamente de volta a um qualquer recanto natural para recuperar os seus fósseis”. Acontece o mesmo com Tom Morgan – um membro de American Fern Society ainda vivo, nos seus setenta e muitos anos, que é descrito pelos colegas estupefactos como recordando-se  de cada feto significativo que alguma vez viu -- e lembra-se não só da planta, mas também da sua localização.

 

    Note-se, ainda, em benefício deste tipo de sociedades que sobreviveram até hoje e estão de óptima saúde, que tanto os cometas como as supernovas são frequentemente vistos pela primeira vez por astrónomos amadores (um deles, um pastor protestante australiano, que usava apenas um pequeno telescópio mas tinha a tal qualidade de naturalista: era capaz de recordar a localização exacta de cada supernova -- fez um estudo único da incidência de supernovas em mil galáxias). Os amadores são vitais em mineralogia – independentes de bolsas ou de apoio profissional, chegam a lugares que os profissionais podem não atingir e descrevem todos os anos novas espécies de minerais. Acontece o mesmo na caça aos fósseis e na observação de aves. Em todas estas áreas, o crucial não é necessariamente o treino académico mas antes o olho do naturalista, que vem de uma qualquer combinação de disposição endógena, biofilia, experiência e paixão. Os amadores, no melhor dos sentidos, têm exactamente isto – uma paixão, um amor pelo seu objecto de estudo, e a experiência acumulada, frequentemente de uma vida inteira, de observações intensas no campo.

 

Texto de Clara Pinto Correia.

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