Tsunami, maremoto ou onda de porto?

10-12-2012 23:17

    

    A palavra “tsunami” vem do japonês “tsu”, que significa porto, e “nami”, que significa onda. Apesar de “onda de porto” parecer um nome um pouco despropositado, a sua origem prende-se com o facto de, por vezes, no Japão, os pescadores saírem para um dia normal de pesca no mar e, no regresso ao porto, se depararem com a povoação destruída devido a uma onda gigante. Na realidade, os tsunamis ou maremotos nada têm a ver com portos, tirando o facto de causarem avultados estragos nos mesmos. Apesar de já em 426 A.C. terem sido relacionados pelo historiador grego Thucydides com sismos submarinos, o seu conhecimento permaneceu muito limitado até ao século XX e muito permanece ainda por saber.

    Um tsunami refere-se a uma série de ondas causadas pelo deslocamento de um grande volume de massa de água. Sismos, erupções vulcânicas (submarinas ou não), deslizamentos de terras, avalanches submarinas, impactos de meteoritos e erosão de glaciares estão entre as perturbações mais susceptíveis de causar um tsunami. Os sismos de origem submarina são, contudo, a sua causa mais comum. Quando o fundo oceânico se deforma de forma abrupta, como num sismo, devido ao deslocamento de uma placa tectónica ao longo de uma falha, há um deslocamento vertical da massa de água, que é afastada do seu ponto de equilíbrio. O tsunami de 2004 no oceano Índico, por exemplo, ocorreu devido a um deslocamento lateral de 10-15 m, aliado a uma subida de 4 a 5 m do fundo do mar, ao longo de uma secção de 1600 km. A onda gerada é então mantida por gravidade, deslocando-se como um anel a partir do ponto de origem. A figura 1 A-D exemplifica a formação de uma onda de tsunami, devido à ruptura de uma placa convergente.

 

Fig 1. Formação de um tsunami a partir de um limite de placas convergente. A – Zona de subducção com uma placa tectónica a “mergulhar” por debaixo de outra; B – Devido à fricção entre as duas placas uma acaba por se deformar; C – Com a continuação da compressão, a deformação deixa de ser sustentável e a placa tectónica acaba por “saltar”,  subsidindo e gerando um novo ponto de equilíbrio. O fundo do mar vai ser deformado, causando um deslocamento da massa de água que se encontra por cima; D – A energia associada a este deslocamento  vai-se propagar sob a forma de uma onda em todas as direcções em torno do seu ponto de origem.

 

    As ondas de tsunami são bastante diferentes das ondas comuns. Possuem um grande comprimento de onda (distância entre cristas) de 100-200 km, ao contrário das ondas “normais”, que têm comprimentos de onda de 30-40 m, e têm uma altura muito pequena (menos de 1 m) quando se encontram longe da costa, sendo praticamente imperceptíveis quando se encontram em águas profundas, em mar aberto. Geralmente consistem em séries de ondas com um período (intervalo entre ondas) que varia entre alguns minutos e poucas horas, contrariamente às ondas normais que têm períodos de cerca de 10 segundos, e viajam a velocidade muito elevadas de 600-800 km/h. Estas ondas “aparentemente inofensivas”, ao entrarem em águas pouco profundas ao pé da costa, vão reduzir a sua velocidade para menos de 80 km/h devido ao atrito com o fundo. Isto faz com que diminuam o seu comprimento de onda e cresçam em altura, inundando as zonas costeiras (Figura 2).  

Fig 2. Esquema mostrando comportamento de uma onda de tsunami ao atingir a costa

 

Ao contrário das ondas comuns que observamos na praia, as ondas de tsunami geralmente não rebentam, parecendo mais uma maré a subir rapidamente. Se a onda atingir a costa na cava e não na crista, ocorre um recuo da água ao longo da costa, com exposição de áreas normalmente submersas. Este recuo precede a onda por um intervalo de tempo semelhante a metade do seu período, o que pode corresponder a alguns minutos, fazendo com que as pessoas não se apercebam do perigo e permaneçam na zona costeira.

 

O tsunami de 1755

 

    A 1 de Novembro de 1755, um violento terramoto foi sentido em Portugal seguido de um tsunami, que atingiu Lisboa cerca de 30 minutos depois (Figura 3). Apesar de vulgarmente conhecido como o terramoto de Lisboa, os estragos foram numerosos ao longo da costa, principalmente no Algarve. Ondas de 6 m atingiram a baixa de Lisboa, enquanto que no cabo de São Vicente há registo de ondas com alturas superiores a 26 m. Nalguns sítios, há registos do mar ter recuado mais de 36 m e de ter deixado a descoberto parte do fundo do rio Tejo, avançando por terra ao longo de mais de 5 km. Em locais como Lisboa e Albufeira, os relatos indicam que o agravado número de vítimas se deveu em grande parte ao desconhecimento da população que fugiu para a costa, julgando que aí estaria a salvo. Os estragos não se fizeram apenas sentir em Portugal, mas também no sul de Espanha, em Cádiz e Huelva, chegando mesmo até Sevilha pelo rio Guadalquivir e em Gibraltar e costa oeste de Marrocos. Há registos de que atingiu com menor intensidade as costas francesa, britânica, irlandesa, belga e holandesa, tendo ocorrido danos avultados nas ilhas dos Açores e Madeira. Cerca de 6 horas mais tarde o tsunami chegou às Antilhas, após atravessar o oceano Alântico.

 

Fig 3. Ilustração do terramoto e tsunami de 1755 em Lisboa

 

Quais os maiores tsunamis registados?

    A maior onda de tsunami de que se tem conhecimento ocorreu no Alasca na baía de Lituya, onde um massivo deslizamento de terras de um dos lados da baía provocou uma onda de 524 m no lado oposto. Os maiores tsunamis de origem sísmica registados ocorreram no oceano Pacífico na Indonésia, Japão e Chile.

 

Alertas de tsunami

    Actualmente, apenas os oceanos Pacífico e Índico possuem um sistema de alerta de tsunami. O primeiro a ser montado foi o do Pacífico, em 1965, sediado no Hawai, existindo outro, mais recente, sediado no Alasca. No seguimento do sismo e tsunami de 2004 na Indonésia foi montado um sistema de alerta também para o Índico, com o apoio das Nações Unidas. Estes sistemas de alerta utilizam sensores de pressão no fundo do mar que medem constantemente a altura da coluna de água. Esta informação é enviada para bóias (Figura 4) que se encontram na superfície e transmitem os dados em tempo real, através de satélites, para estações de monitorização localizadas na costa. Com estas medições e usando modelos matemáticos de previsão que têm em conta a batimetria (forma do fundo do mar) e a topografia da linha de costa é possivel estimar a altura e tempo de chegada de um tsunami e alertar a população atempadamente. Nalguns países mais susceptíveis de sofrerem um tsunami, como o Japão, a população está bem preparada e existem numerosos avisos de zonas de risco e de evacuação em caso de tsunami (Figura 5), bem como um sistema de sirenes nas zonas costeiras, para alertar a população.

 

Fig 4. Bóia de transmissão de dados             Fig 5. Exemplos de avisos de tsunami

 

O conhecimento pode salvar vidas. O que fazer?

    É importante ter em conta que um tsunami consiste numa série de ondas, que podem ter horas de distância entre si, e que a mais intensa não é necessáriamente a primeira. O perigo mantém-se assim por várias horas após a chegada da primeira onda.

    Se te encontrares na zona costeira, ao pé da praia ou de um rio e sentires um sismo, desloca-te imediatamente para terrenos mais elevados. A primeira onda pode chegar em apenas alguns minutos por isso a rapidez é essencial. Se te encontrares em terrenos muito baixos e não tenhas possibilidade de te deslocar rapidamente para terrenos elevados, os últimos andares de edifícios altos e de construção sólida podem ser uma alternativa. Se observares um recuo anormal do mar (ou rio), mesmo que não tenhas sentido nenhum sismo, deves proceder do mesmo modo. Se te encontrares num barco no mar, não deves regressar para terra enquanto existir risco de um tsunami atingir a costa. Se houver tempo e condições, abandonar a costa de barco para águas mais profundas pode ser uma boa alternativa para evitar o tsunami. No recente tsunami de Março de 2011, no Japão, esta estratégia foi utilizada por vários donos de barcos, que evitaram assim que os mesmos fossem destruídos, como teria acontecido caso tivessem ficado no porto.

 

Catarina Leote (texto inédito elaborado para publicação no Ciência com Todos)

 

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Data: 14-11-2014 | De: Vasco baiao

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