Re:Fisiologia/Soluços

Data: 21-10-2012 | De: João Sérgio Neves e Adelino Leite-Moreira da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

"Um soluço consiste numa contração súbita dos músculos responsáveis pela inspiração (sendo o diafragma o mais importante destes músculos) imediatamente seguida pelo encerramento das cordas vocais na laringe, o que provoca o peculiar som dos soluços.

Os episódios de soluços, que habitualmente duram de segundos a alguns minutos, surgem devido à ativação de um arco reflexo. Este é composto por um ramo aferente (nervos que levam as informações ao sistema nervoso central e que vão despoletar o reflexo), um integrador central (região do sistema nervoso central que vai ativar os nervos eferentes) e um ramo eferente (nervos que vão estimular os músculos inspiratórios).

Estão descritas mais de 100 causas que podem ativar este reflexo, sendo que as mais frequentes são a distensão do estômago (após uma refeição abundante, ou ingestão demasiado rápida de alimentos), a irritação esofágica (como no refluxo gastroesofágico, em que os alimentos que estão no estômago voltam ao esófago) e fatores emocionais (como a ansiedade ou o medo).

Nos seres humanos, não é reconhecido qualquer papel fisiológico relevante aos soluços. Uma teoria é que este reflexo é apenas um remanescente evolutivo dos circuitos neuronais responsáveis pela ventilação em espécies ancestrais, semelhantes aos pequenos vertebrados anfíbios.

Existem várias manobras que interferem com o arco reflexo dos soluços e que podem terminar um episódio de soluços como: gargarejar água, fazer tração da língua, beber água fria, tossir, dobrar-se sobre o abdómen ou o medo súbito (“apanhar um susto”). Uma das formas mais eficazes é induzir uma elevação da concentração sanguínea de dióxido de carbono, sustendo a respiração por vários segundos ou respirando para dentro de um saco de plástico (levando a que o dióxido de carbono expirado seja novamente inspirado).

Normalmente os soluços são transitórios, no entanto, existem raras situações (como lesão cerebrais, infeções ou neoplasias) que podem desencadear soluços persistentes (podem durar várias décadas), necessitando de tratamento farmacológico ou até mesmo cirúrgico.

Referências:

1. Launois S, Bizec JL, Whitelaw WA, Cabane J, Derenne JP. Hiccup in adults - an overview. European Respiratory Journal. 1993;6:563-575
2. Becker DE. Nausea, vomiting, and hiccups: A review of mechanisms and treatment. Anesthesia progress. 2010;57:150-157
3. Rousseau P. Hiccups. Southern Medical Journal. 1995;88:175-181
4. Lewis JH. Hiccups - causes and cures. Journal of Clinical Gastroenterology. 1985;7:539-552
5. Straus C, Vasilakos K, Wilson RJA, Oshima T, Zelter M, Derenne JP, Similowski T, Whitelaw WA. A phylogenetic hypothesis for the origin of hiccough. Bioessays. 2003;25:182-188
6. Talley NJ, et al (2010). Chapter 27: Hiccups. Practical Gastroenterology and Hepatology: Esophagus and Stomach, New York: John Wiley & Sons",

resposta publicada no projeto Ciência 2.0.

Ver original em: https://www.ciencia20.up.pt/index.php?option=com_content&view=article&Itemid=&id=182

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