Re:Memória parte III

Data: 05-05-2014 | De: Marinho Lopes

Acho muito bem que faça perguntas, portanto não tenho nada a perdoar-lhe. :)

Não só se considera que os animais têm inteligência, como até se discute a ideia controversa de que as plantas também podem ser inteligentes, visto que algumas têm a capacidade de se adaptar ao meio ambiente em tempo real. Mas bom, no caso das plantas diria que se está a falar de mecanismos "fixos", porque existem sempre limitações claras à sua adaptabilidade, além que não têm nenhum orgão dinâmico que faça decisões. Por outras palavras, o conceito de "inteligência" quando atribuído às plantas está mais relacionado com a "inteligência" da evolução, do que com a da planta, que eu diria que simplesmente não tem inteligência.

Quanto aos animais não há dúvidas de que têm inteligência. Existem estudos comparativos de inteligência entre espécies distintas e também dentro de uma só espécie, comparando diferentes "indivíduos". Um animal será tão mais inteligente quão mais depressa for capaz de reagir, aprender e se adaptar a algo novo. (Para os humanos, poder-se-á juntar a capacidade de compreender conceitos abstractos e de raciocinar de várias formas diferentes.) Ser mais inteligente significa em geral ser capaz de resolver da melhor forma e em menos tempo um dado problema. Embora os animais não tenham capacidade de raciocínio abstracto (salvo raras excepções encontradas em primatas, se bem me lembro), têm na mesma que tomar decisões, e da análise dessas decisões poderemos tirar conclusões sobre aquilo que se passa nos seus cérebros.

É possível que no caso dos animais também haja conexões entre memórias diferentes, ainda assim, o "grau de diferença" não pode ser grande, dada a limitação de pensamento abstracto. Será o animal mais inteligente se tiver mais conexões? Eu diria que sim, no entanto, neste caso, parece-me que será mais importante qual a "força" dos caminhos neuronais associados a respostas do animal. Quero com isto dizer que dois animais podem ter circuitos neuronais semelhantes envolvidos na conexão entre memórias e operações motoras semelhantes, mas que diferem na forma como os impulsos nervosos "viajam" nestes circuitos: um com maior "força" permitirá uma transmissão de impulsos nervosos mais efectiva entre a memória e a operação. Esta "força" aumenta com o treino. Isto tanto é verdade para memórias implícitas, como para memórias explícitas.
Poder-se-ia então concluir que o que estou a dizer é que nos animais a inteligência se desenvolve através do treino, ao invés de ser uma característica inata. Mas não, à falta de evidências que apontem em contrário (que eu conheça pelo menos), a inteligência tem uma parcela que se pode atribuir a treino e outra à genética, sendo que a percentagem de cada parcela pode ser diferente entre diferentes espécies, mas de que modo não faço ideia. O que queria dizer em cima é que no caso do animal mais inteligente, o tal reforço nos circuitos neuronais pode ocorrer mais depressa, através de menos treinos.

(Tenho noção que a minha resposta ficou algo confusa, em grande parte porque é um tema que não é do meu domínio, de qualquer forma, sinta-se à vontade para perguntar mais.)

Abraço,
Marinho

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