A matemática dos antigos II

01-12-2013 14:01

 

    Na edição do Tribuna das Ilhas de 31 de maio, deu-se destaque à arte de recortar papel da Dona Maria de Lourdes Pereira, uma artesã natural da Ilha do Faial. Aproveitou-se a oportunidade para apreciar as simetrias presentes nos seus trabalhos. Neste artigo, analisa-se a arte de recortar madeira desenvolvida com sucesso há cerca de 10 anos por Sérgio e Marta Scarlati, artistas locais promotores do Artesanato Scarlati.

 

    Tudo começou em 2003 quando o casal foi passar férias ao Canadá. Ao visitar a casa de uns familiares, Sérgio e Marta viram alguns trabalhos em madeira desenvolvidos pelo primo Joe Silveira e sentiram curiosidade em aprender essa arte. Respondendo com entusiasmo ao pedido, Joe instalou-se com a sua máquina (serra de rodear – scroll saw) na garagem da casa dos seus pais e foi ensinando o casal a operar com a máquina e a realizar os primeiros trabalhos, inicialmente muito básicos. É interessante verificar que muitas formas de arte passam de geração em geração e entre familiares e amigos. Também foi o caso de Joe, que tinha aprendido esta arte com um amigo.

 

    Ao regressar ao Faial, Sérgio e Marta encontraram pouco tempo depois uma serra de rodear à venda, compraram-na e, desde então, nunca mais pararam! A curiosidade e o gosto por trabalhos manuais, em particular por bricolage em madeira, constituíram uma poderosa força motivadora. O casal tem vindo a aperfeiçoar a arte de recortar madeira, recorrendo a literatura diversa proveniente, na sua maioria, dos Estados Unidos da América e do Canadá. Encontraram também alguns sítios com interesse na Web e chegaram mesmo a descobrir livros em russo sobre a arte de recortar madeira. Sérgio e Marta têm trocado ideias com vários especialistas mundiais, provenientes na sua maioria da América do Norte. Já a nível regional ou mesmo nacional, desconhecem outros artesãos que trabalhem esta arte.

 

    O recorte em madeira exige particular atenção de forma a respeitar os contornos do desenho escolhido, sendo necessária uma dose acrescida de paciência. A técnica é igual para qualquer peça que seja executada, quer em madeira maciça como em contraplacado marítimo. Já o grau de dificuldade de execução da peça depende muito do seu desenho base, que pode ser mais ou menos elaborado. A escolha dos motivos tem sido inspirada nas muitas referências consultadas, sofrendo em geral adaptações ao sabor da imaginação.

    

    Depois de selecionado um desenho, este é impresso em papel. Forra-se a madeira com fita-cola larga, na frente e no verso, e cola-se o desenho num dos lados, por cima da fita-cola. A existência de fita-cola no verso ajuda a que a lâmina não lasque muito a madeira durante o corte. Para cada buraco da peça que tenha que ser recortado é necessário fazer previamente um furo com um berbequim, antes de utilizar a máquina de recorte. Para produzir objetos com simetria, há que ter algum cuidado adicional, de forma a garantir que o recorte final fica exatamente igual ao desenho de que se partiu. Depois de a peça estar recortada, é necessário limpar os restos de fita-cola que ficaram colados à madeira e lixar na zona dos cortes, para que a peça fique macia e sem falhas de corte da lâmina. Em seguida, há que envernizar ou, se for o caso, pintar cada parte da peça, no interior dos recortes e na superfície. Depois de o verniz secar, lixa-se mais uma vez e volta-se a envernizar.

 

    Terminamos com uma pequena amostra dos trabalhos do casal Scarlati, que agradecemos pela disponibilidade e simpatia. Todos eles são exemplos de rosáceas e os seus grupos de simetria são grupos diedrais Dn, isto porque contêm rotações e reflexões em reta. O valor atribuído a n depende de cada figura, mais precisamente, é o número de eixos de simetria dessa figura. Em [A], [B] e [C], os três isoladores têm grupo de simetria, respetivamente, D4, D5 e D8. Em [D], temos uma figura com grupo de simetria D2. Esta rosácea faz parte de um biombo composto por várias cópias iguais. Em [E] e [F], o guarda-joias e a moldura têm ambos grupo de simetria D4. Por falta de espaço não é possível apresentar mais exemplos, dos quais destacamos vários enfeites para a árvore de natal com diferentes grupos de simetria.

 

    O trabalho desenvolvido pelo casal Scarlati tem recebido ao longo dos anos muitos elogios e excelente feedback, no contexto das diversas exposições em que tem sido apresentado. Presentemente, as suas peças integram coleções particulares não só em Portugal como em várias partes do mundo. Aos dois artesãos, desejamos a continuação de grandes sucessos na sua arte!

 

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: https://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/6662-a-matemática-dos-antigos-ii

 

Tópico: Comentários

A matemática dos antigos

Data: 03-12-2013 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Lindíssimos trabalhos que exigem criatividade, conhecimentos e também muita força de vontade.
Obrigada por nos proporcionar a apreciação destes belos trabalhos artesanais.

Um abraço.

Re:A matemática dos antigos

Data: 03-01-2014 | De: Ricardo Teixeira

Obrigado pelas suas palavras simpáticas!
Nas próximas semanas, deverá ser possível lançar mais alguns artigos da coleção "A Matemática dos Antigos", sobre outras formas de artesanato...

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