A matemática dos antigos V

16-03-2014 20:26

 

    Retomo o tema do último artigo dedicado ao trabalho desenvolvido por Miguel Gouveia, formador em calcetaria portuguesa e artística.

 

    Muitas pessoas têm curiosidade quanto ao tipo de pedra utilizado na construção das calçadas. A resposta a esta questão depende da região geográfica em que a obra é realizada. Nos Açores, predomina o branco do calcário e o preto do basalto, embora também se encontre pontualmente calcário negro. Já em Portugal Continental raramente se utiliza basalto. Recorre-se sim ao granito cinza (e algum amarelo), que vem do Norte do País, ou então ao calcário negro, que vem do centro, em particular de um filão das Serras de Aire e Candeeiros, perto de Alqueidão da Serra, onde também é possível encontrar calcário branco, castanho e azul-cinza. Já o calcário rosa vem do Algarve. De destacar que as calçadas em Portugal revestem-se sobretudo de calcário branco e negro.

 

    Apresento, de seguida, alguns trabalhos desenvolvidos pelo Miguel na ilha de São Jorge. O contraste de cores e de formas traduz-se em momentos de considerável beleza e originalidade.

 

 

    Quem não se lembra do Mickey e da Minnie, personagens da Disney do nosso imaginário infantil? Se o leitor visitar a Vila da Calheta, encontrará estas divertidas personagens (figuras 1 e 2) em frente à escola local. Segundo Miguel Gouveia, “a autarquia mostrou interesse em contemplar de alguma forma a igualdade de géneros e foi daí que surgiu a ideia”.

 

    Na Fajã dos Vimes, podemos apreciar outros pormenores interessantes em calçada, desde logo um bule de café, com cinco grãos 3D (figura 3). Miguel colocou em prática a sua veia criativa: “Este é o único sítio da Europa onde se produz café, divinal por sinal, muito melhor do que o normal. Por isso, o local merecia como homenagem um desenho único e original!” Encontra-mos na Ribeira Seca outro pormenor interessante: um magnífico São Tiago em calçada (figura 4).

 

    Na Fajã dos Vimes, Ribeira Seca e Topo, é possível apreciar diversos motivos religiosos e evocativos de algumas profissões (figuras 5 a 11): “Os responsáveis camarários eram pessoas com bom gosto e tinham a preocupação em fazer o melhor pela sua terra, algo que me marcou. Os tempos que trabalhei em São Jorge constituíram momentos de alegria e concretização profissional e pessoal.” Acrescenta: “O projeto de pavimentação das calçadas era flexível. Alguns motivos estavam já predefinidos, outros foram acordados no decorrer da obra. As ideias surgiram naturalmente na sequência de várias conversas mantidas com os responsáveis camarários e com as gentes locais.”

 

    Sobre os motivos religiosos implementados em calçada, Miguel revela: “Sou um apaixonado por História! Sempre que possível investigo sobre os mais variados assuntos, particularmente aqueles que me intrigam, e isso permite enriquecer o meu conhecimento sobre certos aspetos históricos que considero relevantes.” Miguel defende que “existem na cultura açoriana influências do cristianismo ariano, a corrente que em tempos teve presente na Península Ibérica. Vemos isso sobretudo nas fachadas de alguns edifícios e em várias igrejas. Por exemplo, um dos vestígios desta presença traduz-se na abundância de motivos em forma de S: se cruzarmos dois S’s, obtemos uma suástica, símbolo solar característico do cristianismo ariano, fundado por Ário de Alexandria”. Miguel é de opinião que “o cristianismo primitivo também se encontra representado nas festas açorianas em honra ao Divino Espírito Santo. Estas festividades estão relacionadas com o culto da rainha Santa Isabel e com o conhecido milagre das rosas, num apelo ao renascimento de uma época em que a vontade popular era determinante sobre a vontade da nobreza governante. Na Idade Média, a nobreza era representada pela coroa, o clero pela cruz e o povo pelo Espírito Santo; quando se coloca a pomba do Espírito Santo no topo da coroa significa precisamente que se reconhece a soberania da vontade popular relativamente à tomada de decisões sobre os destinos do território governado (figura 6)”. Entusiasmado, Miguel continua: “Quando o clero romano autoritário, liderado por Afonso Henriques e pelos cruzados, conquista o território nacional, outrora tolerante e multicultural, houve quem se adaptasse e houve quem se mantivesse inconformado em defesa da sua liberdade perdida. Por isso, a oportunidade de povoar os novos territórios descobertos, como os Açores, foi particularmente apelativa para quem recebeu esta herança cultural mais liberal, tendo trazido para as ilhas ideais de maior igualdade, entreajuda e sã convivência entre os cidadãos. É este o significado implícito bem presente no imaginário coletivo do povo açoriano, simbolizado pelo Espírito Santo em todo o esplendor do seu culto.” Na figura 8, em baixo, encontra-se representado um cesto de bolos de véspera, distribuídos gratuitamente à população por altura das festividades em honra ao Divino Espírito Santo: “Simboliza o pão do povo!”

 

    Ao lado do chafariz da Ribeira Seca, que em tempos contribuiu para melhorar a qualidade de vida da população, foi construída uma abóbora (figura 10, em cima): “Em várias culturas, a abóbora é sinal de abundância.” Junto ao mesmo chafariz, é possível apreciar um cesto de roupa e uma barra de sabão (figura 10, em baixo), em homenagem a uma lavandaria pública que já não é utilizada na atualidade.

 

    Mesmo em frente à Igreja de São Sebastião, na Fajã dos Vimes, o viajante atento encontra um compasso e um esquadro em calçada (figura 12). Miguel recorda-se de como tudo se passou: “Estava sozinho no local da obra, tive a ideia e executei-a na hora!” O formador acrescenta: “Foi uma maneira de homenagear, não só os açorianos Teófilo Braga e Manuel de Arriaga, fundadores da República com ligações à maçonaria, como também as elites militares maçónicas que partiram dos Açores em prol de um ideal de liberdade ao serviço do povo, contra o absolutismo. Essas elites liberais saíram do enclave açoriano, onde tiveram combates ferozes em defesa do liberalismo. Uma das batalhas decorreu na Ladeira do Gato, não muito longe do local onde foram construídos o compasso e o esquadro.”

    

    Continuarei a explorar o trabalho de Miguel Gouveia numa próxima oportunidade.

 

 

Ricardo Cunha Teixeira (colaborador do Ciência com Todos e docente/investigador no Departamento de Matemática da U. dos Açores)

 

Página pessoal do autor: www.rteixeira.uac.pt

 

Ver artigo original em: https://www.tribunadasilhas.pt/index.php/opiniao/item/7715-a-matemática-dos-antigos-v

 

Tópico: Comentários

A matemática dos antigos

Data: 17-03-2014 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

Mas este trabalho é não só uma lição de Historia, mas também nos apresenta o gosto, os costumes e a arte do povo açoriano. E ainda toca na Geologia, pois nos esclarece sobre as rochas dominantes nas regiões.
Um abraço.

Re:A matemática dos antigos

Data: 17-03-2014 | De: Ricardo Cunha Teixeira

Obrigado cara Graciete. O próximo artigo será sobre a análise das simetrias dos trabalhos em calçada desenvolvidos pelo Miguel Gouveia. Um abraço dos Açores.

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