The New Secret

21-09-2013 15:29

 

 

    Nota prévia: o artigo que se segue foi já escrito há uns anos, quando o livro em causa andava mais na moda, contudo mantenho a opinião, a qual acaba por se aplicar a outros livros que se vão publicando agora e, infelizmente, certamente também serão publicados no futuro.

    

    The New Secret (o novo segredo) é: o primeiro é falso. Ou para ser mais justo: não temos nenhuma razão para acreditar que é verdadeiro.

 

    Para quem não está familiarizado: The Secret é um livro de Rhonda Byrne. Como se pode ler «pelas internets»: “O Segredo é neste momento – e de longe – o livro de não ficção mais vendido em todo o mundo.” (De facto, é mesmo ficção, portanto não se pode colocar a competir com os livros de não ficção.) No livro a autora expõe a sua teoria da “«lei da atracção»: nós atraímos aquilo que queremos atrair e, se queremos atrair o sucesso, conseguimos atrair o sucesso.”

    Eu não tenho nada contra livros de “auto-ajuda”, aliás, se eles realmente conseguem ajudar alguém, até sou a favor da sua existência, contudo, uma vez que sou ideologicamente um defensor da “verdade”, oponho-me a tudo o que leve a que o público em geral acredite que algo é verdade, quando na verdade não o é, ou pelo menos, não há razões válidas para acreditar que o seja. Pior ainda será juntar na mesma “discussão” factos verificados pela ciência, para apoiar a nova pseudo-ciência que se está a expor, conduzindo o leitor a um estado de confusão superior.

    Neste livro, ou no próprio documentário sobre o livro, ou até noutros documentários, como o What Bleep do We Know Down the Rabbit Hole, pode ver-se gente a defender “teorias” de tal modo que parece que estão a dizer algo irrefutável. Apresento aqui duas pessoas que já vi em mais que um documentário:

 

À esquerda: Dean Radin (investigador em parapsicologia). À direita: J.Z. Knight (professora mística).

 

    A teoria científica que os pseudo-iluminados gostam mais de usar para justificar as suas pseudo-teorias é a Mecânica Quântica. A razão é simples: primeiro porque esta teoria prevê acontecimentos que são impossíveis segundo a nossa perspectiva empírica, e segundo, que é consequência do primeiro, a teoria em si não é completamente compreendida – basicamente sabe-se que funciona, mas não se sabe bem “porquê” (se bem que qualquer teoria sofre desse problema, simplesmente neste caso a questão torna-se mais pertinente, tendo em conta o primeiro factor apontado). Sendo assim, quem quiser “filosofar” sobre a teoria poderá seguir vários caminhos frutuosos em termos de falácias, isto porque, uma vez que parece que ninguém compreende bem a teoria, então isso dá-lhes o direito de eles próprios tentarem-na compreender à sua maneira (não deveriam era ter o direito de partilhar as suas “compreensões” com outras pessoas, sem sublinharem bem que não sabem o que estão a dizer).

    Para que este artigo de opinião não seja completamente vago, irei dar alguns exemplos de “pontas” da Mecânica Quântica onde essas mentes fantasiosas gostam de pegar. Um dos principais fenómenos que a teoria descreve é o chamado “colapso da função de onda”. Antes de mais, é bom situarmo-nos: a teoria é aplicável a partículas “pequenas”, sendo o exemplo típico o electrão. Em Física, desde Galileu e Newton, um dos objectivos básicos desta Ciência é descrever o movimento de corpos, e para isso uma das entidades básicas é a posição do corpo. Em Mecânica Quântica, a posição de uma partícula não pode ser dada por um conjunto de coordenadas que identifiquem uma localização no espaço. É aqui que aparece uma “função de onda”, que caracteriza uma “onda de probabilidade” – na verdade um electrão não está num determinado local, mas “espalhado” por um volume (onde a probabilidade é considerável – aliás, o volume pode ser do tamanho do universo, mas convém ter em conta que só junto de uma certa localização específica é que a probabilidade é maior e por isso a maior parte do volume é quase desprezável). Contudo, se formos ver onde é que o electrão está, ou seja, se fizermos uma certa experiência para determinar a localização dele, nesse caso iremos descobri-lo num sítio específico, e não em vários em simultâneo – daí a palavra “colapso”, pois é como se a tal “onda de probabilidade colapsasse” numa posição específica (dentro das possíveis). Sendo assim, é justo perguntar: como é que sabemos que existe mesmo essa função de probabilidade de localização, tendo em conta que sempre que tentamos “observar” o electrão, ele se encontra num dado sítio? Na verdade não sabemos, simplesmente é o que se ajusta ao que se consegue observar – se se partir do pressuposto que o electrão está sempre numa dada posição, as previsões teóricas não acertam com aquilo que realmente se vê depois. Até aqui falei em Ciência – conseguem adivinhar como é que isto é posteriormente analisado em pseudo-ciência? Começa-se por valorizar o efeito da observação – se a observação é o que faz com que as partículas fiquem num dado local, então é como se o universo se materializasse perante a nossa consciencialização dele! Qual o problema desta conjuntura? Dois principais: primeiro é bom reforçar a premissa que já tinha indicado antes: a Mecânica Quântica aplica-se ao mundo do muito pequeno (fazendo “médias” para muitas partículas, os efeitos quânticos “perdem-se”, ou anulam-se, de tal modo que o mundo passa a ser descrito pelas chamadas “Leis Clássicas”, que não contrariam a nossa “visão” do dia-a-dia), sendo assim não faz sentido pensar em termos macroscópicos na teoria; segundo, o acto de observar não significa “consciencializar” – tanto quanto sabemos, basta colocar os detectores a funcionar, que tudo deverá estar bem (ainda que, neste caso, alguém possa argumentar que enquanto não virmos o que os nossos detectores fizeram, não sabemos se realmente a experiência funcionou como esperávamos – ou seja, neste caso temos um impasse, é impossível provar uma coisa, ou o seu contrário, pois não temos artes adivinhatórias; ainda assim, o melhor será não retirar conclusões, visto que em termos lógicos não temos esse direito).

    Outro fenómeno quântico que é muito apreciado na pseudo-ciência é o chamado entanglement – entrelaçamento quântico. Este fenómeno vai contra um conceito básico do nosso conhecimento empírico – a localidade dos fenómenos físicos. Isto é, segundo a nossa experiência diária, esperamos sempre que uma coisa que aconteça num ponto X, irá afectar os seus vizinhos próximos, podendo vir a afectar vizinhos mais distantes, mas demorando algum tempo para isso (consideremos, por exemplo, um trovão, que é ouvido primeiro “debaixo” de onde ocorreu, e só depois mais longe, porque a vibração do som demora tempo a percorrer o espaço). No mundo quântico as coisas já não são bem assim. É perfeitamente possível ter duas partículas de certo modo “unidas” (normalmente por uma “história” em comum – tenham sido, por exemplo, criadas em simultâneo, num mesmo local), ou seja, “entrelaçadas”, mesmo estando a quilómetros de distância, ou até mesmo com distâncias astronómicas entre elas, de tal modo que se uma for afectada por um dado acontecimento (por exemplo, por uma tal “observação” de um detector), então “automaticamente” a outra sofre uma alteração correlacionada com a desta! Para os místicos este fenómeno serve para explicar, por exemplo, telecinesia, telepatia, entre outras coisas que, aparentemente, no mundo deles, devem de facto ocorrer, já que eles explicam como é que isso acontece. Mais uma vez, deve-se sublinhar que o fenómeno quântico é possível de ser observado em “sistemas quânticos”, não em situações do nosso dia-a-dia – isto está provado experimentalmente, bem como compreendido teoricamente (pena que essa parte os místicos não leiam).

 

Legenda (tradução): “Ohhhh… Olha para isso, Schuster… Os cães são tão «fofinhos» quando tentam compreender mecânica quântica.”

 

    Bom, dou a minha exposição por concluída. Obviamente, haveria outros disparates que poderiam ser apontados, mas o presente texto serve apenas para alertar o leitor a ter cuidado com o que é afirmado nestes livros e documentários – muitas vezes usam conhecimentos científicos conhecidos para justificar as suas “teorias” mirabolantes, não deixando bem claro em que parte é que acaba a ciência e começa a sua interpretação pessoal, é por isso importante ter espírito crítico. (Espero não ter ferido susceptibilidades com a minha irascibilidade.)

 

 

Marinho Lopes (colaborador do Ciência com Todos e doutorando em Física na U. de Aveiro) - texto primeiramente publicado no Blog do autor: Sophia of Nature.

 

Ver original em: https://sophiaofnature.wordpress.com/2011/06/01/the-new-secret/

 

Tópico: Comentários

Cada um tem necessidades diversas

Data: 22-09-2013 | De: António Cristovão

Julgo que a necessidade de explicações místicas é transversal a muitas pessoas, mesmo com formação/educação cuidada.
Assim, já em todas as formações humanas passadas encontramos as a mais mirabolantes explicações.
O que já me parece defeito/renuncia dos místicos, é que hábitos/práticas explicaveis nos contextos em que foram criados sejam "leis/sharias" aceites hoje e pior que tudo respeitados. O que ajuda a esse disparate é a renuncia a explicações científicas/históricas para desmontar a falácia que ajuda a manter no poder corruptos horríveis.
Porque é que os cientistas não desmontam as crenças que ajudam a roubar o petróleo/riquezas de países "governados" por leis abjectas elevadas à categoria de "civilizações"? Só posso lamentar esta renúncia e esperar que a ciência seja encarada com mais militância.
Pactuar com aparições aos pastorinhos não é civilização, é cobardia!

Re:Cada um tem necessidades diversas

Data: 24-09-2013 | De: Marinho Lopes

Isso vai para além daquilo que eu queria expressar neste artigo, embora lhe dê razão. Quando existem interesses económicos e quando quem quer vender a mentira já tem um grande poder sobre a sociedade, é claro que a verdade fica cada vez mais escurecida e aparentemente distorcida. Para vencer isso não chega que uns quantos cientistas tentem mostrar a "verdade"... Facilmente os afectados por essa versão da História irão comprar outros cientistas para os desmentir. É necessário muito mais que isso, é necessário que todos queiram ver a verdade e a procurem activamente. É necessário que o próprio sistema político e social seja criado com essa intenção clara, pois caso contrário estaremos apenas a atirar areia à cara de quem já nem quer ver. É tal sistema possível? Sim, embora para já seja uma óbvia utopia. O mais que se pode fazer é lutar pela educação de toda a sociedade, para que todos aprendam a pensar por si próprios e a procurar a verdade, pois mais inconveniente que esta possa ser.

Pseudociência

Data: 22-09-2013 | De: Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes

De facto já tenho reparado que os pseudocientistas usam muito a teoria quântica para tentar justificar as suas "pseudoverdades" O grande problema é que as pessoas pouco familiarizadas com a Física e muito menos com a Física Quântica acreditam que a Ciência explica as falsas verdades e daí instalar-se, numa grande maioria, o culto do mistério e a crença no absurdo.

Um abraço.

Re:Pseudociência

Data: 24-09-2013 | De: Marinho Lopes

É necessário educar-se a população a ter espírito crítico. Provavelmente, a maioria das pessoas pensa que os documentários são sempre científicos, ou se, por outro lado, existe uma base científica para uma dada alegação ou especulação, isso significa que esse raciocínio é legítimo. Aliás, creio que o leigo comum nem sabe definir bem o que é a ciência, nem os seus limites. Assim é natural não conseguir distinguir quem pode estar a dizer a "verdade". Infelizmente, numa sociedade de informação, não é só apenas o acesso à própria informação que é facilitado, o mesmo acontece para o acesso à contra-informação, sem que seja fácil para a maioria determinar "quem é quem". Cabe a quem está mais informado que chame a atenção dos outros, como eu pretendia fazer com este artigo.

Abraço.

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