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      <title><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência - cienciapatodos.webnode.pt]]></title>
      <link>http://cienciapatodos.webnode.pt</link>
      <language>pt</language>
      <pubDate>Sat, 02 Aug 2014 15:38:00 +0200</pubDate>
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      <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
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         <title><![CDATA[Ciência versus Religião]]></title>
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         <description><![CDATA[&nbsp;

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&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Já aqui falei sobre ciência e religião (ver os Mal-entendidos sobre Ciência e Religião), mas ficou muito por dizer. Irei aqui continuar essa divagação. Assim, este artigo terá também um cunho bastante pessoal. Mais uma vez convido o leitor a comentar, principalmente se encontrar incoerências ou algo com que não possa concordar. (Neste texto, as religiões em foco serão principalmente o cristianismo, judaísmo e islamismo.)
&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A...]]></description>
         <pubDate>Sat, 02 Aug 2014 15:38:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="God-and-scientist" class="aligncenter size-full wp-image-952" height="225" src="http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2014/06/god-and-scientist.jpg?w=584" style="width: 438px; height: 255px" width="415"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Já aqui falei sobre ciência e religião (ver os <a href="http://cienciapatodos.webnode.pt/news/mal-entendidos-sobre-ci%c3%aancia-e-religi%c3%a3o/" sl-processed="1">Mal-entendidos sobre Ciência e Religião</a>), mas ficou muito por dizer. Irei aqui continuar essa divagação. Assim, este artigo terá também um cunho bastante pessoal. Mais uma vez convido o leitor a comentar, principalmente se encontrar incoerências ou algo com que não possa concordar. (Neste texto, as religiões em foco serão principalmente o cristianismo, judaísmo e islamismo.)</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A curiosidade é uma característica intrínseca ao ser humano que se manifesta nas questões em que pensamos. As questões são em geral sempre as mesmas, o que difere são as respostas. Uma questão sem resposta representa algo que desconhecemos, que não controlamos e que por isso tememos. Torna-se então necessário inventar uma resposta para que nos possamos iludir que temos controlo sobre aquilo que receávamos. Este é o papel da religião; ou melhor, das religiões, porque é sempre possível inventar várias respostas diferentes. Em contraste, se apenas aceitarmos como verdade aquilo que podemos provar e verificar com base na lógica e na natureza, descobrimos a ciência (que é necessariamente única).</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um teísta que tenha lido o que escrevi em cima pensará que sou um ateu que ainda não encontrou a “verdade”. Mas o que é a “verdade”? Quem é que o decide? Em quem acreditar?</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os representantes das religiões apontam para livros “sagrados” e para a fé. De facto, trata-se apenas de fé: a fé de que os livros sejam mesmo “sagrados”. Para mim é difícil conceber o porquê de se acreditar cegamente e sem espírito crítico num livro. No caso dos cristãos, como explicar que a história de Cristo é uma réplica de outras anteriores? (Em termos históricos é fácil de explicar: os romanos precisaram de unificar os vários povos pagãos do seu império e para isso acataram alguns dos seus cultos pagãos: o Natal é apenas um exemplo.) Como explicar que se tenha decidido que Maria subiu aos céus seis séculos depois da sua morte, sem que haja qualquer evidência disso? Como explicar que Deus é misericordioso, quando no velho testamento nos é desenhado como o Deus interventivo que manda violar, assassinar e até fazer genocídios? Como explicar que no novo testamento envie ao mundo o seu filho personificado, para que este seja torturado e morto?</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para quem olha de fora, este Deus parece mais um psicopata, do que um ser que nos ama. O subterfúgio normalmente usado é que Deus nos transcende e por isso não o podemos compreender. Curioso que tenhamos sido agraciados com um intelecto que nos faz pensar o pior do nosso criador. “Felizes daqueles que acreditam sem ver”? Porque havemos de rejeitar os nossos sentidos? Porque é que a fé tem que ser cega? Porque a natureza e a História nos contam algo diferente.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Regra geral, um teísta acredita no poder da ciência sempre que esta não põe em causa a história que a sua religião conta. O contrário é impraticável, porque é indubitável que os carros andam, os aviões voam, e que as lâmpadas iluminam. O problema surge quando as histórias se defrontam.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os criacionistas defendem que o universo foi criado há alguns milhares de anos atrás, uma visão que vem de uma interpretação literal do livro do Génesis. No entanto, a ciência afirma que a Terra tem cerca de 4,6 mil milhões de anos. Este é um facto que é suportado por inúmeras e independentes evidências experimentais! Rejeitar estas evidências é equivalente a rejeitar tecnologia que usamos todos os dias. A datação radiométrica é apenas um exemplo. O Carbono 14 permite a datação de materiais que o contenham até uma idade de cerca de 60 mil anos: e sim, já foram estudados muitos materiais com essa idade (outras substâncias radioactivas permitem medir noutras escalas de tempo; o Urânio, por exemplo, consegue medir numa escala de tempo equivalente à idade da própria Terra). Notem que em muitos casos é possível confirmar a datação radiométrica através de outras evidências! Alegar que este método está errado seria afirmar que não conhecemos o decaimento radioactivo, e consequentemente um reactor de fissão nuclear funcionava porque sim…</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Muitas vezes, quando os criacionistas querem parecer minimamente credíveis, convocam um cientista para os suportar. De facto, não se pode dizer que 100% dos cientistas rejeitam o criacionismo, apenas a esmagadora maioria. Por outras palavras, é sempre possível encontrar alguém que apoie uma idiotice, independentemente da idiotice e do grau académico do idiota em causa. Faço aqui esta nota para que o leitor nunca deixe de ser céptico apenas porque lhe foi apresentado um diploma. Em cima disse que a ciência é una, porém os cientistas não o são.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Enquanto algumas religiões mantiveram o criacionismo literal, outros salvaguardaram-no como sendo apenas uma alegoria. Admitindo que a ciência deveria estar certa na maioria do que afirma, colocaram Deus “apenas” como o criador do universo. Esta atitude, apesar de sensata, não deixa de ser algo cínica. Aquilo que era literal passa a ser uma parábola para impedir que a ciência coloque em causa os escritos sagrados. Quem decide o que é retórica e o que não é? Qual o critério? Se tudo pode ser reinterpretado, parece que nesse caso a religião apenas oferece uma resposta temporária, isto é, enquanto a ciência não se apodera da questão em causa. Este é o chamado Deus das lacunas, ou seja, uma assunção teológica que preenche a ignorância científica. Este é um Deus que perde dimensão à medida que a ciência se desenvolve. Sim, a ciência ainda não é capaz de responder a muitas questões, porém já responde a muitas que tinham sido inicialmente atribuídas ao domínio religioso.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma outra questão onde a ciência se tem debatido com a religião é sobre o papel do Homem na natureza. Seremos nós especiais? É agradável pensar que sim. Para quem rejeita a teoria da evolução, é certamente difícil explicar como é que o nosso ADN é 99% coincidente com o dos chimpanzés. Pode até parecer estranho ao leitor que a nossa informação genética seja tão semelhante à desses animais, ainda que o intelecto pareça tão diferente. Mas será que é assim tão diferente? Nós estamos simplesmente habituados a valorizar aquilo que nos diferencia dos outros animais e não aquilo que nos aproxima. A “grande” diferença é que temos um cérebro maior, o que nos permite um pensamento abstracto superior ao dos chimpanzés; tudo o resto é bastante parecido. Não querendo entrar em detalhes, a teoria da evolução é esmagadoramente confirmada por inúmeras evidências. Para os defensores do Deus das lacunas (que é fácil de reconhecer, por exemplo, no catolicismo), a dificuldade está, por exemplo, em definir quando apareceu o “primeiro” Homem, já que os hominídeos anteriores à nossa espécie não são considerados “especiais” como nós.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um leigo poderá argumentar que de um lado temos a ciência que nos oferece tecnologias e do outro temos a religião que nos agracia com milagres, sendo que as tecnologias não diferem muitos dos milagres, pois ambos lhe são incompreensíveis. Em relação aos supostos milagres, convém referir que muitos dos locais onde estes alegadamente já ocorreram são anualmente visitados por milhões de pessoas que também procuram um milagre para elas próprias (normalmente a cura de uma doença). Existem efectivamente relatos de pessoas que dizem terem tido curas milagrosas, porém são em número tão diminuto que, em termos estatísticos, é difícil dar-lhes qualquer valor. Normalmente trata-se de “milagres” que podem ser entendidos como efeito placebo, ou que se justificam de outra forma racional. Em suma, não existem evidências para que se possa afirmar que já tenham ocorrido milagres na história da humanidade. Note-se que se um milagre for entendido como um evento inexplicável aos olhos da razão e da ciência, então sim, já ocorreram muitos milagres no passado: a ciência teve que evoluir para os entender. Como determinar que um “milagre” não é apenas uma manifestação da natureza que a ciência ainda não explicou?</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O outro aspecto referido não tem uma resposta fácil. Quando um leigo acredita numa resposta científica está a ter uma atitude de fé, porque não tem nem a formação académica para compreender devidamente a teoria científica, nem tem acesso a um laboratório para que possa comprovar o resultado. Assim, quando um cientista diz que X é X ao leigo, este não tem realmente forma de contestar e de pensar de forma crítica sobre X. A resposta inconveniente é que em última instância o leigo só tem duas opções: ou acredita, ou terá que cultivar o seu conhecimento sobre o assunto, tentando compreender todas as evidências que levaram o cientista a concluir que X é X. A grande diferença entre a fé confiada na ciência e na fé depositada na religião está nesta segunda opção, que no caso da religião não existe. À medida que um teísta se instrui nos ensinamentos da sua religião, obtém cada vez mais respostas. Na ciência sucede o contrário: à medida que o indivíduo enxerga por entre as evidências, novas questões se tornam aparentes. Saber mais é sinónimo de uma melhor consciencialização da nossa ignorância.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A religião é muitas vezes defendida pela sua qualidade de definir a moral pela qual a sociedade se deve orientar. Se a existência de pecado for posta em causa, argumentam, o Homem deixará de pensar duas vezes antes de cometer uma qualquer atrocidade. Este é sem dúvida um grande disparate. Primeiro convenhamos que existem muitos países europeus onde a religião tem actualmente uma incidência muito baixa, no entanto, isso não implica que os índices de violência sejam maiores do que noutros países mais religiosos. Eu, como não crente, acho que é triste assumir que o ser humano só se consegue comportar em sociedade se tiver medo de um Deus, e de um tribunal divino que o irá ajuizar depois de morto. Eu acredito que somos capazes de ser altruístas sem termos interesses ulteriores focados no pós-morte. Independentemente daquilo em que acredito, é falso que a moralidade venha de Deus, pois a mesma pode ser encontrada nos animais dos quais evoluímos (obviamente, para diferentes espécies será possível encontrar diferentes “tipos” de “moral”, mas que têm sempre o objectivo de favorecer o bom funcionamento da “comunidade”). De facto, tendo em conta a <a href="http://cienciapatodos.webnode.pt/news/teoria-dos-jogos/" sl-processed="1">Teoria dos Jogos</a>, é fácil de perceber o porquê de as espécies terem criado códigos de conduta: estes são necessários para que possam coexistir em sociedade. A sociedade, por seu lado, é crucial para a sobrevivência das espécies, pois em muitos casos só uma organização conjunta permite uma protecção efectiva do grupo, bem como a captura de presas. Neste caso, pode-se afirmar que o todo (sociedade) é “mais” do que a soma das partes (indivíduos).</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aliás, até nem é difícil reconhecer que actualmente a generalidade das sociedades menos religiosas se guiam por uma moral superior àquelas mais religiosas, pelo menos no que diz respeito à concessão de igualdade às minorias e às mulheres (o exemplo da homossexualidade é eventualmente o de maior relevo). De facto, a moral parece evoluir de acordo com a educação que o país consegue providenciar à maioria dos seus cidadãos, o que está em claro contraste com a alegação de que a moral provém de Deus (a não ser que Deus condene a moral defendida pelas religiões que o exaltam; uma ironia que não tenho dificuldade em aceitar caso assuma que Deus de facto existe e é “bom”). Curiosamente, o que se tem verificado no caso do catolicismo é o contrário: uma reforma sucessiva que procura copiar os bons costumes das sociedades não religiosas.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma pessoa religiosa poderá admitir que até tenho alguma razão, mas de seguida poderá questionar-me: “Mas qual o mal de eu acreditar em Deus? Que te interessa o que os outros acreditam? Porque haveríamos todos de acreditar no mesmo?”</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Não tem mal nenhum, cada um acredita no que quer, porém convém ter cuidado com a “bagagem” que a religião trás consigo (algo que não se aplica aos deístas). Não só a religião tem os problemas morais indicados em cima, que influenciam negativamente a sociedade, como tem sido também um dos grandes motivos de guerra nos últimos milénios, sendo-o ainda no presente. Como disse o Steven Weinberg (prémio Nobel da Física em 1979): “With or without it [religion] you would have good people doing good things and evil people doing evil things. But for good people to do evil things, that takes religion.” (Tradução: “Com ou sem ela [religião], teríamos pessoas boas a fazer boas acções e pessoas más a cometer actos malévolos. Mas para ter pessoas boas a fazer coisas más, é necessária a religião.”) Mesmo em religiões que hoje em dia tentam evitar guerras, continua a ser possível encontrar seguidores que interpretam os textos “sagrados” de forma a justificar a violência que praticam contra outros indivíduos. Este não é um problema que deva ser desprezado atribuindo-o simplesmente a fanáticos. É necessário compreender que esses extremistas são um produto da religião.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tem-se ainda que referir o papel da religião nas crianças. Do meu ponto de vista existem três problemas principais a considerar. Primeiro é preciso ter cuidado na forma como a religião é apresentada às crianças, visto que estas ainda não têm espírito crítico para a compreender devidamente. De preferência seria óptimo apresentar todas as religiões, contando a história e a moral defendida por cada uma, dando à criança a possibilidade de decidir a sua forma de pensar assim que tivesse uma compreensão razoável do que lhe tinha sido apresentado. Os religiosos poderão argumentar, e bem, que os pais e o meio em que a criança está cingida acabam sempre por ter uma grande influência sobre esta, independentemente do que lhe é apresentado. De facto, não espero que a “tradição” se dissolva de um dia para o outro, contudo tal só irá acontecer se houver um esforço nesse sentido. Por outro lado, também é verdade que os pais que oferecem o poder de escolha ao filho estão, na verdade, com essa atitude a influenciá-lo de forma quase similar à forma como, por exemplo, outros pais religiosos influenciam os seus filhos ao lhes propor que os acompanhem à igreja. Naturalmente, este é um problema extremamente complexo, porque os pais que acreditam na sua religião, crêem que o melhor para os seus filhos é que estes acreditem no mesmo que eles. Em suma, gostaria que cada criança fosse induzida a pensar por si, ao invés de lhe ser imputada uma crença.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O segundo aspecto que quero referir está relacionado com o acima exposto, e tem a ver com a distinção de ciência e religião na educação de uma criança. É absolutamente necessário que as crianças compreendam que a ciência estuda o mundo físico, isto é, o universo que percepcionamos. No nosso conhecimento científico não há espaço para a religião e nenhuma das concepções religiosas deve ser imiscuída nos livros e nas aulas de ciência. O criacionismo, por exemplo, não é uma “teoria” alternativa ao evolucionismo! Isso seria semelhante a assumir que a teoria geocêntrica deveria ainda ser considerada como uma teoria alternativa à heliocêntrica: não o é porque todas as evidências científicas apoiam apenas num só sentido! Quem achar que este não é um problema actual desengane-se, porque faz parte da actualidade do Reino Unido e Estados Unidos, por exemplo, onde existem fortes movimentos a tentar que o criacionismo volte às salas de aula (de ciências). Isto não só é um atentado contra a verdade científica, como também coloca em causa a evolução da ciência e da tecnologia. Note-se que isto nem é apenas uma questão idealista, pois uma pessoa pragmática certamente que reconhecerá que o futuro económico de qualquer nação depende de forma crucial na capacidade desta para acompanhar o desenvolvimento tecnológico mundial.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Finalmente, o terceiro aspecto refere-se ao castigo divino, normalmente representado por um inferno em chamas (como é óbvio, aludo apenas às religiões que o continuam a pregar). Este inferno é visto como uma necessidade nestas religiões para obrigar o Homem a não pecar (como discutido em cima). Enquanto um adulto consegue aceitar e lidar com esta ameaça, uma criança tem muito maior dificuldade. De facto, é reconhecido por psicólogos que não se deve expor uma criança a este prenúncio demoníaco, pois tal é considerado abusivo e pode resultar em traumas severos para a criança. Este é um problema real, ainda que só se verifique de forma significativa numa minoria. (Note-se que a “forma significativa” é algo subjectivo, pois o “normal” é somente aquilo que identificamos como mais comum…)</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para concluir, deixo a questão trivial: “Podes provar que Deus não existe?” Não, não posso, e por isso sou agnóstico. De forma semelhante, também não posso provar que os fantasmas, as fadas, e os unicórnios não existem, isso, porém, não me leva a concluir que eles existem.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como é evidente, esta reflexão não esgota o tema. Espero não ter ofendido ninguém, porque não era esse o objectivo. Por outro lado, espero que o leitor compreenda que não era minha intenção fazer generalizações injustas, nem usar de forma desadequada as excepções. A realidade é bastante diversa consoante a região e a religião em consideração, portanto nem todas as “carapuças” se adequam a todas as cabeças, obviamente. Deixei também muitas questões importantes por discutir (como o não uso de métodos contraceptivos por motivos religiosos, por exemplo), para não tornar o texto demasiado extenso. Se o leitor assim o desejar, poderemos discuti-las nos comentários.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><a href="http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/06/24/ciencia-versus-religiao/science-v-religion/" rel="attachment wp-att-951" sl-processed="1"><img alt="science-v-religion" class="aligncenter size-full wp-image-951" height="312" src="http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2014/06/science-v-religion.jpg?w=584" width="442"></a></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px"><em>O método científico: “Aqui estão os factos. Quais as conclusões que podemos retirar deles?”</em></span></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px"><em>O método criacionista: “Aqui está a conclusão. Quais os factos que podemos encontrar para a suportar?”</em></span></p>
<p style="text-align: center">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center">&nbsp;</p>
<div style="border-bottom: medium none; text-align: left; border-left: medium none; background-color: transparent; color: #000000; border-top: medium none; border-right: medium none; text-decoration: none">
	<p _extended="true" style="text-align: justify"><font _extended="true" size="2"><strong _extended="true">Marinho Lopes </strong>(colaborador do Ciência com Todos e doutorando em Física na U. de Aveiro) - texto primeiramente publicado no Blog do autor: <strong _extended="true">Sophia of Nature.</strong></font></p>
	<p _extended="true">&nbsp;</p>
	<p _extended="true"><span _extended="true" style="font-size: 12px">Ver original em: </span><a href="http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/06/24/ciencia-versus-religiao/">http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/06/24/ciencia-versus-religiao/</a></p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Mal-entendidos sobre Ciência e Religião]]></title>
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         <description><![CDATA[&nbsp;

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&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nunca aqui publiquei artigos de crítica directa a outros artigos, contudo desta vez vou fazer uma excepção. Assim, este texto vai refletir um pouco da minha opinião pessoal, a qual é evidentemente parcial e discutível. Se o leitor se sentir incomodado com alguma das minhas observações, proponho-lhe que exponha os seus pontos de vista nos comentários.
&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Irei focar-me no recente artigo “Misconceptions of science and religion...]]></description>
         <pubDate>Sat, 12 Jul 2014 15:06:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="Difference between Science and Religion" class="aligncenter size-large wp-image-881" height="323" src="http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2014/03/difference-between-science-and-religion.jpg?w=584&amp;h=415" style="width: 457px; height: 279px" width="508"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nunca aqui publiquei artigos de crítica directa a outros artigos, contudo desta vez vou fazer uma excepção. Assim, este texto vai refletir um pouco da minha opinião pessoal, a qual é evidentemente parcial e discutível. Se o leitor se sentir incomodado com alguma das minhas observações, proponho-lhe que exponha os seus pontos de vista nos comentários.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Irei focar-me no recente artigo “<a href="http://phys.org/news/2014-02-misconceptions-science-religion.html" sl-processed="1">Misconceptions of science and religion found in new study</a>” (Mal-entendidos encontrados num novo estudo sobre ciência e religião). Se o leitor não tiver vontade de ler o artigo original em inglês, não se preocupe, porque em seguida traduzo as partes que quero comentar (sem remover um possível contexto que invalidasse a minha crítica). O estudo foi realizado pela socióloga Elaine Howard Ecklund e foi apresentado o mês passado na conferência anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (American Association for the Advancement of Science – AAAS).</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O supracitado artigo começa assim: <i>“A visão do público de que a ciência e a religião não podem trabalhar em colaboração é um equívoco que impede o progresso, de acordo com um questionário feito a mais de 10 mil norte-americanos, cientistas e protestantes evangélicos.”</i></p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Seria muito bom que o público tivesse efectivamente essa visão, porque é uma visão correcta. Infelizmente, embora talvez a generalidade compreenda que existe uma certa incompatibilidade entre a ciência e a religião, muitos não compreendem porque razão não pode haver maior complementaridade entre as duas. Primeiro convém constatar que a colaboração é impossível, porque a religião não tem nada para oferecer. Existe alguma tecnologia desenvolvida por alguma religião? Não. A única forma de obter novo conhecimento é através da ciência e do seu método. A religião tem um objectivo completamente diferente e não pode ajudar de forma nenhuma a ciência. Tudo o que a religião faz é criar um dado número de alegações que não pode provar, mas que não servem basicamente para explicar nada. Mesmo que “Deus” exista e tenha criado tudo isto, a questão do “como tudo isto funciona” mantém-se. Quando não se sabe algo, pode-se assumir o desconhecimento e tentar procurar uma forma de compreender, ou pode-se simplesmente assumir uma dada resposta. Qual será o caminho com maior probabilidade de sucesso?</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify"><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“ – Nós descobrimos que quase 50% dos evangélicos acreditam que a ciência e a religião podem trabalhar juntos e suportarem-se mutuamente, – disse Ecklund. – Isto está em contraste com os apenas 38% dos americanos que sentem que a ciência e a religião podem colaborar.”</i></p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como é evidente, os evangélicos podem pensar o que quiserem – é irrelevante para a questão. Se quisermos saber se é prejudicial à saúde de uma criança oferecer-lhe um rebuçado por dia, iremos fazer essa questão à criança? Poderemos tirar conclusões da resposta delas? No máximo ficaremos a saber que as crianças gostam de rebuçados…</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify"><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“O estudo também mostrou que 18% dos cientistas frequentam semanalmente serviços religiosos, comparados com os 20% da população dos EUA…” [Segue-se uma exposição detalhada de percentagens, mostrando que os cientistas são em geral quase tão religiosos quanto a população em geral.]</i></p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;De que modo é que isto é uma evidência seja para o que for? A religião faz parte da nossa herança cultural e social, e por isso não é de estranhar que tenha uma prevalência semelhante em indivíduos com diferentes percursos académicos. De qualquer forma, se se quer concluir algo, note-se então que todas as percentagens indicadas (que aqui omiti) são inferiores no caso dos cientistas. A diferença seria provavelmente superior se tivessem restringido o grupo dos cientistas ao das ciências exactas…</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify"><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“Como exemplo, ela descobriu que é duas vezes mais provável um protestante evangélico consultar um livro ou líder religioso sobre questões sobre ciência, do que uma pessoa do público em geral (11%).”</i></p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A questão necessária que se faz é o que terá essa pessoa aprendido.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify"><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“Quase 60% dos protestantes evangélicos e 38% de todos os questionados acreditam que os cientistas deveriam estar mais abertos a considerar milagres nas suas teorias e explicações.”</i></p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Qual a diferença entre acreditar num milagre ou afirmar-se que não se sabe a origem do fenómeno? É que o primeiro impede a procura de uma explicação lógica. Eu não sou dono da verdade, por isso não posso afirmar categoricamente que os milagres não existem. Partamos do princípio de que existem: como é que poderemos diferenciar um milagre de um fenómeno desconhecido? A <a href="http://cienciapatodos.webnode.pt/news/supercondutividade/" sl-processed="1">supercondutividade</a>, por exemplo, poderia parecer um milagre e isso poderia impedir-nos de a analisar convenientemente, de a compreender e de a usar. Se por outro lado um dia destes eu sem querer transformar água em vinho, isso poderá ser um milagre. No entanto, eu não irei acreditar que se trata de um milagre e irei estudar o fenómeno. Na pior das hipóteses perco tempo, porque se tratou mesmo de um milagre. Mas que maior conhecimento teria eu se assumisse de que se tratava de um milagre?</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify"><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“Quase 36% dos cientistas questionados não têm dúvidas da existência de Deus.”</i></p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Cada pessoa é livre de acreditar no que quiser. Nem está em questão se podem demonstrá-lo ou não. O que interessa para o presente estudo é se isso faz deles melhores cientistas, ou se de algum modo essa crença lhes trouxe novo conhecimento. Para ambas as hipóteses a resposta é não.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><a href="http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/03/02/mal-entendidos-sobre-ciencia-e-religiao/060-psychosomatic-church/" rel="attachment wp-att-882" sl-processed="1"><img alt="060-psychosomatic-church" class="aligncenter size-large wp-image-882" height="282" src="http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2014/03/060-psychosomatic-church.jpg?w=584&amp;h=314" style="width: 456px; height: 221px" width="546"></a></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px">“A intersecção da ciência com a religião.”</span></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px">Lê-se na inscrição: “Igreja da cura psicosomática.” O sacerdote diz: “Recebam este placebo. Pelo esquecimento da razão.”</span></p>
<p style="text-align: center">&nbsp;&nbsp;</p>
<div style="border-bottom: medium none; text-align: left; border-left: medium none; background-color: transparent; color: #000000; border-top: medium none; border-right: medium none; text-decoration: none">
	<div _extended="true" class="articleDetail">
		<div _extended="true" style="border-bottom: medium none; text-align: left; border-left: medium none; background-color: transparent; color: #000000; border-top: medium none; border-right: medium none; text-decoration: none">
			<p _extended="true" style="text-align: justify">&nbsp;</p>
			<p _extended="true" style="text-align: justify"><font _extended="true" size="2"><strong _extended="true">Marinho Lopes </strong>(colaborador do Ciência com Todos e doutorando em Física na U. de Aveiro) - texto primeiramente publicado no Blog do autor: <strong _extended="true">Sophia of Nature.</strong></font></p>
			<p _extended="true">&nbsp;</p>
			<p _extended="true"><span _extended="true" style="font-size: 12px">Ver original em: </span><a href="http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/03/02/mal-entendidos-sobre-ciencia-e-religiao/">http://sophiaofnature.wordpress.com/2014/03/02/mal-entendidos-sobre-ciencia-e-religiao/</a></p>
		</div>
	</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Criar Ciência]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/criar-ci%c3%aancia/</link>
         <description><![CDATA[&nbsp;

&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste artigo de tom opinativo vou divagar um pouco sobre o processo de criação de novo conhecimento científico. Trata-se de uma reflexão pessoal e por isso parcial, que muitas vezes fará mais sentido no âmbito da Física e menos noutras áreas da Ciência. Será dirigido ao leigo comum que muitas vezes tem uma ideia errada sobre a Ciência e sobre os cientistas.
&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vou então começar por uma questão essencial: o que faz um cientista?...]]></description>
         <pubDate>Sun, 30 Mar 2014 13:36:00 +0200</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://cienciapatodos.webnode.pt/news/criar-ci%c3%aancia/</guid>
         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="doodle0022-scientists" class="aligncenter size-medium wp-image-627" height="316" src="http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2013/08/doodle0022-scientists.jpg?w=211&amp;h=300" style="width: 230px; height: 320px" width="233"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Neste artigo de tom opinativo vou divagar um pouco sobre o processo de criação de novo conhecimento científico. Trata-se de uma reflexão pessoal e por isso parcial, que muitas vezes fará mais sentido no âmbito da Física e menos noutras áreas da Ciência. Será dirigido ao leigo comum que muitas vezes tem uma ideia errada sobre a Ciência e sobre os cientistas.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vou então começar por uma questão essencial: o que faz um cientista? A imagem frequente é a de um indivíduo de bata branca num laboratório a misturar diferentes substâncias com o intuito de descobrir um novo composto cujas propriedades possam ter interesse numa dada aplicação. Esta ideia está obviamente mais conotada com a Química. Por outro lado, a própria imagem conduz à suposição de que a Ciência pode ser criada através de um processo de tentativa e erro. Esse é de facto um processo válido, mas não único. Contudo, é bom constatar que é um método incompleto, porque não fornece uma explicação lógica para o resultado obtido. Na tentativa e erro normalmente existe um conjunto de premissas/ elementos que são basicamente combinados de forma aleatória com o intuito de chegar a um resultado desejado. Por exemplo, se não soubermos como cozinhar arroz, os elementos a determinar são: a razão óptima de água a usar para uma dada quantidade de arroz; pressão a usar (colocar testo ou não); tipo de fonte de calor a usar; tempo de cozedura; quantidade de sal; etc.. Assim, mesmo que depois de muitas tentativas cheguemos a uma receita cujo resultado é satisfatório, ficámos sem saber porquê que essa receita é melhor que uma outra que use, por exemplo, metade da quantidade de água. Em culinária o processo até pode ser muitas vezes semelhante a este, mas há alguns detalhes que são obviamente diferentes: o processo não é aleatório, pois o cozinheiro terá uma intuição que o ajudará a encontrar a solução desejada mais rapidamente. A intuição é consequência do conhecimento prévio que o cozinheiro tinha sobre os ingredientes que estava a usar. Por outro lado, como também é evidente, um resultado negativo não nos diz apenas que aquela combinação está errada – poderá eliminar muitas outras. Se o arroz ficar demasiado seco, isso significa que precisa de mais água, logo uma só experiência permite determinar um limite mínimo para a água (na verdade, também se pode dever à fonte de calor, pelo que aqui estava a assumir que esta já era controlada devidamente). Com sucessivas experiências vão-se limitando os intervalos de valores das variáveis. Em Ciência isto também acontece e é a forma de trabalhar de muitos dos investigadores na área de materiais, cujo objectivo é normalmente encontrar a “receita” ideal para criar um dado material para uma dada aplicação.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Porém, em muitos casos, o número de variáveis é demasiado grande para que essa seja uma forma viável e lógica de “atacar” o problema. Além disso, como referi em cima, o investigador fica sem saber o “porquê” de a receita encontrada ser a melhor, e não outra qualquer que tentou antes. Daqui surge então uma abordagem mais fundamental. Pegando no exemplo do arroz, poder-se-á estudar o que efectivamente acontece quando o arroz está em contacto com a água a diferentes temperaturas – não só se obtêm os dados, como também se tenta explicá-los, criando eventualmente uma “lei” que descreva como o arroz se comporta em determinadas condições. Esta é uma abordagem fenomenológica. Ainda não responde ao porquê, mas tem maior potencial de gerar novo conhecimento que a tentativa e erro, pois conduz à suposição de novas hipóteses. Se se observar, por exemplo, que o arroz expande através da absorção da água a uma taxa constante no primeiro minuto, poderá supor-se que o mesmo ocorrerá no segundo minuto e seguintes (não sei se assim é, serve apenas como exemplo). Obviamente que a suposição pode ser falsa, mas do seu teste chega-se a novo conhecimento. A lei fenomenológica encontrada poderá ser apenas válida durante alguns minutos, mas isso pode ser o suficiente para se determinar quanto tempo leva o arroz a cozer, e qual a quantidade de água a usar. Este tipo de abordagem é muito útil em Ciência, pois permite-nos sistematizar conhecimento na forma de leis simples (estas leis normalmente expressam-se através de equações matemáticas, onde são introduzidas constantes multiplicativas para que as unidades e valores combinem correctamente; o valor das constantes tem que ser determinada através de experiências de “calibração”).</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;De qualquer forma, continuam a faltar os porquês. O porquê é-nos dado em última instância pela teoria. Digo “em última instância”, porque à primeira vista um dado processo pode parecer ser explicado por um facto experimental, no entanto, se transpusermos o porquê para esse novo facto experimental, a resposta irá acabar por ser determinada pela nossa compreensão teórica inerente ao facto mais fundamental. (Por outro lado, se continuarmos a perguntar “porquê” à teoria, esta acabará por se reduzir às suas definições e dogmas, que assentam na observação. A teoria científica actual tenta explicar o “como” e não propriamente o “porquê” fundamental, que se situa mais no domínio da Filosofia.) Deixando o arroz na cozinha e passando ao exemplo mais paradigmático na História da Ciência que culminou na Lei da Gravitação Universal de Newton: primeiro Tycho Brahe registou de forma intensiva o movimento dos astros (observação do fenómeno); segundo Kepler encontrou os padrões subjacentes, as três leis de Kepler (observação de coerência, que é o equivalente à lei fenomenológica); e finalmente Newton obteve a sua teoria da gravitação, que era capaz em simultâneo de explicar porque é que a alegada maçã lhe caiu na cabeça, porque é que a Lua não caía, as leis de Kepler e muito mais. Usando a teoria de Newton, o Homem foi à Lua! Não foi por tentativa e erro: não se lançaram 20 missões Apollo tripuladas em direcção à Lua, com a esperança que uma lá chegasse – a primeira que foi enviada, chegou lá! Espero que isto deixe bem claro qual o poder da teoria: permite prever aquilo que nunca foi feito. (Os desastres que ocorreram na exploração espacial nunca tiveram a ver com problemas teóricos, mas antes de execução em detalhes de engenharia, como foi o caso da queda do vaivém espacial Challenger. Richard Feynman explicou porquê que ele caiu, mostrando a experiência simples de que materiais elásticos perdem as propriedades elásticas com o frio, que foi o que aconteceu a um simples o-ring do vaivém, o que veio a culminar no desastre.)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="" class="aligncenter" height="280" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/4/42/Richard_Feynman_Nobel.jpg" style="width: 259px; height: 342px" width="200"></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px"><em>Richard Feynman (1918-1988). Recebeu o Prémio Nobel da Física em 1965 pelas suas contribuições em electrodinâmica quântica. Foi o pioneiro que avançou com a ideia da computação quântica, bem como de toda a nanotecnologia em geral. É também conhecido como tendo sido o Professor de excelência, pelas suas brilhantes aulas e livros. Recomendo a leitura do seu livro semi-autobiográfico “Está a brincar, Sr. Feynman!”, onde poderão ficar a conhecer o rapaz que arranjava rádios pensando!</em></span></p>
<p style="text-align: center">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;É claro que na História da Ciência nem todas as teorias foram tão bem sucedidas quanto esta. Karl Popper defendeu que nenhuma teoria pode ser atestada verdadeira, pois é impossível de demonstrar que não existe uma experiência que possa mostrar que a teoria falha em determinadas condições. Por outro lado, qualquer teoria pode ser considerada falsa se se encontrar um só contra-exemplo. Assim, o núcleo da Ciência (em particular da Física) assenta em teorias cujas verificações experimentais sempre as demonstraram como correctas. (É claro que a afirmação de cima é demasiado peremptória – são “aceites” teorias que são na sua génese incompletas e que admitem não explicar “tudo”, claro. Este é um dos argumentos fundamentais de Thomas Kuhn contra a filosofia de Popper.) Acrescente-se ainda que Popper considerava que para uma teoria poder ser considerada científica, esta tinha que ser passível de ser verificada falsa (a chamada falseabilidade). Este é um elemento importante na Ciência: ela é assente na verificação experimental. Se a teoria não o permitir, é assim natural não poder ser considerada científica (esta é uma das críticas apontada à Teoria das Cordas, pois não é para já possível de a testar experimentalmente).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="" class="aligncenter" height="320" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/43/Karl_Popper.jpg/250px-Karl_Popper.jpg" width="250"></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px"><em>Karl Popper (1902-1994). É considerado um dos maiores filósofos de Ciência do século XX. “No rational argument will have a rational effect on a man who does not want to adopt a rational attitude.” (Nenhum argumento racional terá um efeito racional num homem que não adopte uma atitude racional.) “Science may be described as the art of systematic over-simplification.” (A Ciência pode ser descrita como a arte de excessiva simplificação sistemática.)</em></span></p>
<p style="text-align: center">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Voltando à questão inicial: o que muitos cientistas fazem é estudar os “limites” da teoria existente, bem como procurar novas consequências dessa mesma teoria. Este trabalho é tanto experimental, como teórico. O experimentalista (que faz o trabalho “prático”) pensa em novos meios de colocar a teoria à prova, em novas condições. O teórico estuda novas soluções matemáticas dessa teoria. O facto de se ter uma equação sobre um dado fenómeno físico não implica que se compreenda toda a teoria inerente. Aliás, muitas equações não são possíveis de analisar na sua íntegra, tendo os teóricos que as analisar apenas em determinadas condições. Por exemplo, a anedota de que os físicos (ou matemáticos) vêem uma vaca como sendo uma esfera é um bom exemplo disto: muitas vezes é necessário estipular aproximações para se conseguir chegar a um resultado. De qualquer modo, o cientista não esqueceu a aproximação efectuada, pelo que poderá tentar numa segunda abordagem uma consideração mais próxima da realidade.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Hoje em dia, com a ajuda dos computadores, os cientistas são muitas vezes levados a começar com uma abordagem já bastante realista do problema, pois o poder de cálculo dos computadores permite-lhes considerar muitas variáveis em simultâneo. Esta é porém uma abordagem que acaba por se assemelhar à da tentativa e erro, pois o investigador acaba por não desenvolver uma sensibilidade em relação ao que está de facto a acontecer. Em contraste, um tratamento simplificado do problema, permite a introdução de novos elementos de modo faseado e controlado, conseguindo-se perceber em cada etapa qual o papel de cada elemento. Há um caso paradigmático disto, em que o governo do Reino Unido financiou uma investigação para determinar se o “beef on the bone” deveria ser ou não banido do mercado devido à epidemia das vacas loucas. O bife foi banido, porém o estudo padece de graves problemas lógicos na sua génese, pois não foram analisados cuidadamente os parâmetros em causa. Um outro exemplo ocorreu no estudo da “propagação” da HIV, onde um modelo aparentemente realista e (mas) cheio de parâmetros deu um resultado muito menos fiável que um modelo muito mais simples (e aparentemente demasiado simplista, em comparação com o outro), onde todos os parâmetros eram devidamente compreendidos. (Há muitos outros exemplos.)</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A criação de teoria nova é algo bem menos comum e que normalmente surge da sua necessidade, quando algo não funciona na teoria vigente. Como é evidente, a nova teoria não só tem que explicar o novo fenómeno até aí inexplicável, como simultaneamente terá que incorporar todos os sucessos da teoria antiga. Um exemplo disto é a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, através da qual se podem deduzir os resultados da teoria de Newton. Embora não queira aqui incluir uma discussão sobre se a Ciência é sempre incremental, como algumas correntes filosóficas defendem (Popper, por exemplo), ou se o seu avanço se dá através de revoluções científicas (Thomas Kuhn), deixo apenas a nota de que a discussão existe. Por exemplo, Kuhn considera que o contributo supracitado de Einstein foi uma revolução científica, pois embora os resultados clássicos possam ser de certo modo obtidos através da Relatividade, a verdade é que os conceitos foram na sua génese alterados (o conceito de massa, por exemplo), não sendo por isso um contributo incremental, mas antes disruptivo.<em style="text-align: center"> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="" class="aligncenter" height="376" src="http://culturadigital.br/unos/files/2010/06/Kuhn.jpg" style="width: 296px; height: 358px" width="300"></p>
<p style="text-align: center"><span style="font-size: 11px"><em>Thomas Kuhn (1922-1996). Físico, historiador e filósofo de Ciência. É principalmente conhecido pelo seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”, que foi muito influente quer no mundo académico, quer no mundo social, curiosamente (ainda que muitas vezes mal interpretado em ambos).</em></span></p>
<p style="text-align: center">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Alguns de vós já se poderão ter deparado com um talvez surpreendente cepticismo por parte de cientistas, quando estes foram defrontados com ideias novas. Pode parecer paradoxal como é que uma pessoa cujo trabalho é “inventar novas ideias”, tem uma certa resistência a elas. Se pensarem bem, não é paradoxal, é apenas uma consequência lógica: o cientista precisa de espírito crítico e de ser capaz de crivar as ideias novas que à partida pareçam não ter potencial. Por outro lado, é também ele que tem um maior domínio do conhecimento actual, pelo que consegue compreender melhor porquê que algo funciona e porquê que certas novas ideias não têm “cabimento”. Se assim é, o leitor poderá pensar que o cientista também deveria de ser capaz de explicar melhor as suas posições, devendo ser capaz de convencer o leigo, ao invés de dar a ideia de que é simplesmente fechado a novas ideias. O problema está obviamente na comunicação, pois o “dicionário” do cientista é diferente, e é-lhe muitas vezes difícil de traduzir… Falta evidentemente um jornalismo científico de qualidade que consiga fazer a ponte entre as duas linguagens.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Já conheci muitos amadores de Ciência que gostam de pensar nas suas próprias “teorias” (o leitor provavelmente também conhecerá algum), mas que depois ficam algo desapontados quando as expõe à crítica mais especializada na matéria, levando-os também a pensar que estes é que têm a mente fechada. A minha mensagem para todos eles é que a Ciência é de facto de certo modo fechada: não é possível desenvolverem uma teoria científica se desprezarem todo o conhecimento científico até agora acumulado. Fazer Ciência sem a conhecer é basicamente impossível. Imaginemos que esse amador vivia no final do século XIX e propunha a um físico que o tempo deveria ser relativo. O físico dir-lhe-ia com toda a certeza que se dedicasse à pesca. Einstein até viria a mostrar que a ideia era correcta, mas para isso alicerçou a ideia numa teoria bem formulada, onde a mecânica clássica não era refutada dentro dos limites onde já tinha sido verificada. Assim, o amador tem que compreender que propor uma nova ideia não serve de nada se a mesma não for suportada por uma teoria matemática que confirme o que já é sabido pela experiência. Para isto, é necessário saber bastante matemática, bem como, claro, ter a noção daquilo que efectivamente a Ciência já “sabe”. Além disso, de preferência, convém que a nova teoria responda efectivamente a uma questão que até aí não tinha resposta.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma outra ideia errada com que me já deparei várias vezes é a de que “em teoria tudo é possível”, como se “teorias” e “imaginação” fossem basicamente o mesmo. Obviamente que não é assim. Quando se fala numa previsão teórica ainda não verificada experimentalmente, está-se a falar normalmente de uma previsão que advém de uma teoria que já foi confirmada com muitas e diferentes experiências! Como disse em cima, uma só equação pode ter muitas soluções, em particular algumas poderão ser de difícil verificação experimental: estas serão previsões da teoria até que a experiência seja efectuada. Portanto não se está simplesmente a imaginar coisas, está-se antes a usar conhecimento para prever novo conhecimento! E não, nem “tudo é possível”, pois se por um lado uma teoria prevê dados comportamentos e fenómenos, em simultâneo também rejeita outros. No caso de um fenómeno impossível na teoria ser verificado experimentalmente, então a teoria terá que ser rejeitada (pelo menos num dado domínio) e já não será usada para prever novos fenómenos.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Homem tem naturalmente o dom de reconhecer padrões na natureza, o que foi sem dúvida uma característica de extrema importância para a sua sobrevivência. Este dom, porém, às vezes engana-nos e leva-nos a tirar conclusões precipitadas. O emergir da Ciência terá vindo provavelmente da necessidade de filtrar convenientemente as conclusões, de criar uma metodologia que nos permitisse constatar a existência ou não desses padrões. Ainda hoje em dia, mesmo com o domínio científico sobre a nossa cultura, constata-se em conversas informais que muitos de nós têm o “vício” de inventar generalizações que na verdade não existem. Essas generalizações advêm de uma experiência parcial, pessoal, incompleta e muitas vezes filtrada dos próprios contra-exemplos, que são convenientemente postos de parte. Esta menção é apenas uma pequena chamada de atenção, pois é algo que não me incomoda muito, visto que normalmente é algo inconsequente. Mais cuidado dever-se-ia ter quando este tipo de raciocínio é aplicado a questões de saúde e o mesmo é depois reproduzido por outros, por vezes com consequências desastrosas. Pior ainda é quando se reveste este pseudo-conhecimento sob o nome da Ciência, citando algum estudo inexistente, ou uma fonte falsa (muito comuns na web).</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No extremo negativo surge a própria Ciência que por vezes padece deste problema. O leitor crítico certamente que já se terá deparado com notícias sobre estudos (normalmente estatísticos) efectuados por universidades de renome internacional onde obtiveram conclusões muito questionáveis. Por vezes é a notícia que está mal escrita, outras vezes é mesmo o estudo que não faz sentido. É portanto preciso cuidado, pois nem tudo o que os cientistas dizem que é, de facto é (a Ciência não se constrói só de resultados correctos, nem de resultados positivos – os incorrectos e negativos acabam também por dar informação!). Muitos destes estudos a que me refiro estudam correlações entre dois eventos aparentemente desconexos. Embora a correlação possa existir, isso não implica causalidade! Por outro lado, a razão da correlação pode só existir em determinadas condições não indicadas no estudo. Além disso, a interpretação do leitor pode também não ser a mais correcta. Um erro comum é pensar que uma implicação funciona nos dois sentidos, quando pode não funcionar: se A implica B, isso não significa que B implique A. Outro problema que se vê em muitos estudos é o da reprodutibilidade: segundo Popper, uma experiência só pode ser considerada científica se puder ser reproduzida quantas vezes se desejar, por indivíduos diferentes, em laboratórios distintos; porém, muitos estudos parecem não obedecer a este princípio! A sua credibilidade é evidentemente muito questionável.</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;(Não trago para esta discussão a pseudociência e a astrologia, que aliás já as discuti nos artigos <a href="http://cienciapatodos.webnode.pt/news/the-new-secret/" sl-processed="1">The New Secret</a> e <a href="http://cienciapatodos.webnode.pt/news/astronomia-versus-astrologia/" sl-processed="1">Astronomia versus Astrologia</a>, respectivamente, pois nem merecem menção junto da Ciência – são meramente fantasias criadas para ludibriar e/ ou roubar gente menos informada ou mais ingénua.)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center"><img alt="" class="aligncenter" height="408" src="http://www.atomicarchive.com/Images/bio/H01.jpg" style="width: 317px; height: 342px" width="360"></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: 11px"><em>Ernest Rutherford (1871-1937). Segundo ele: “All science is either physics or stamp collecting.” (Toda a Ciência ou é Física ou é colecção de selos.) Curiosamente, venceu o Prémio Nobel da Química em 1908 pelas suas contribuições na desintegração de elementos e estudos de radioactividade (que na verdade tanto pode ser considerado um domínio da Química, como da Física, aliás, Rutherford é considerado o pai da Física Nuclear). A afirmação em causa vai de encontro à necessidade de usar a Matemática para fazer Ciência, pois só desse modo é possível sistematizar o conhecimento de forma coerente, lógica e concisa. Nos tempos de Rutherford, a Matemática só era usada na Física, pelo que as outras Ciências acabavam por se assemelhar a um conjunto de conceitos e ideias um pouco desconexos – uma colecção de selos. Ao longo do século XX a Matemática foi entrando noutras Ciências, muitas das vezes pela mão de físicos que começaram a aplicar a sua bagagem teórica à Química e Biologia, principalmente. É claro que hoje em dia a Matemática já faz parte até das Ciências não exactas, sendo neste caso a estatística a ferramenta de estudo.</em></span></p>
<p style="text-align: center">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Espero que este texto possa ter servido para o leitor reflectir um pouco sobre a forma de encarar a Ciência e o conhecimento em geral. Alguns pontos que abordei são evidentemente discutíveis, pelo que desafio o leitor a comentar e a criticar, se assim o desejar.</p>
<p style="text-align: left">&nbsp;</p>
<p style="text-align: left">&nbsp;</p>
<div style="border-bottom: medium none; text-align: left; border-left: medium none; background-color: transparent; color: #000000; border-top: medium none; border-right: medium none; text-decoration: none">
	<p _extended="true" style="text-align: justify"><font _extended="true" size="2"><strong _extended="true">Marinho Lopes </strong>(colaborador do Ciência com Todos e doutorando em Física na U. de Aveiro) - texto primeiramente publicado no Blog do autor: <strong _extended="true">Sophia of Nature.</strong></font></p>
	<p _extended="true" style="text-align: justify">&nbsp;</p>
	<p _extended="true"><span _extended="true" style="font-size: 12px">Ver original em: </span><a href="http://sophiaofnature.wordpress.com/2013/08/20/criar-ciencia/">http://sophiaofnature.wordpress.com/2013/08/20/criar-ciencia/</a></p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Deus e a Bioética: algumas considerações sobre a quadratura do círculo]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/deus-e-a-bioetica%3a-algumas-considera%c3%a7%c3%b5es-sobre-a-quadratura-do-circulo/</link>
         <description><![CDATA[&nbsp;

&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Talvez todos respirássemos mais facilmente se começássemos por estabelecer, não como mera hipótese de trabalho mas como realidade incontornável, que a expressão “bioética” é o exemplo acabado de uma verdadeira contradição nos termos. Se entendermos por “bio” a raiz grega para “vida”; e se entendermos por “ética” o conceito ocidental de “conjunto de regras básicas de comportamento moral que as sociedades aceitam observar para que as pessoas, ao menos, não...]]></description>
         <pubDate>Fri, 13 Sep 2013 01:31:00 +0200</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://cienciapatodos.webnode.pt/news/deus-e-a-bioetica%3a-algumas-considera%c3%a7%c3%b5es-sobre-a-quadratura-do-circulo/</guid>
         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><img src="http://static.portaleducacao.com.br/arquivos/imagens_cenas/627_00.jpg"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Talvez todos respirássemos mais facilmente se começássemos por estabelecer, não como mera hipótese de trabalho mas como realidade incontornável, que a expressão “<strong>bioética</strong>” é o exemplo acabado de uma verdadeira contradição nos termos. Se entendermos por “<strong>bio</strong>” a raiz grega para “<strong>vida</strong>”; e se entendermos por “<strong>ética</strong>” o conceito ocidental de “<strong>conjunto de regras básicas de comportamento moral que as sociedades aceitam observar para que as pessoas, ao menos, não se prejudiquem constantemente umas às outras</strong>”— então, meus amigos, não há mesmo nada a fazer. A bioética é a quadratura do círculo.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Porque estamos a tentar aplicar a ética às leis da vida, e o mundo vivo é tudo menos ético.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O mundo vivo, sabemos nós já desde o século XIX e não sem bastante pesar, não observa qualquer espécie de moralidade nos seus comportamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quando o leão descobre que a girafa se desequilibra completamente no asfalto mas ele não, o seu instinto primordial não é exactamente “<strong>deixa lá a desgraçada acabar de atravessar a estrada, que é nova para ela, e eu a seguir, <em>mas só a seguir</em>, vou caçá-la na savana, onde sempre a cacei</strong>”.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em casos de excesso de densidade populacional, são inúmeras as espécies em que as próprias mães se encarregam de comer as ninhadas recém-nascidas, mesmo quando estamos a falar de animais que não são necessariamente carnívoros, como por exemplo o nosso bem conhecido coelho. Mas&nbsp;convém insistir aqui que o coelho não está minimamente sozinho na manifestação ocasional de canibalismo, ainda por cima aplicado às crias.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E sim, é verdade que existiram populações como as dos lemingues que, nos casos de sobrepopulação, se entregavam à prática do suicídio colectivo, entrando todos juntos pelo mar dentro e deixando-se afogar. Se este fenómeno hoje já raramente se regista, é apenas porque, com o crescimento das zonas urbanas, o número de lemingues sobreviventes nas regiões árticas desceu exponencialmente. Não é propriamente que os lemingues tenham convocado um concílio para eliminar das suas práticas tribais o suicídio colectico, devido à sua total falta de ética.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nunca ninguém viu um urso polar caçar um pinguim. Isto, claro, acontece porque os ursos polares vivem no Pólo Norte e os pinguins vivem no Pólo Sul. Como não conheceram predadores em milhões de anos de evolução na Antárctida, os pinguins não possuem minimamente o instinto da fuga. Se pusessem um pinguim à frente de um urso polar, o primeiro ficaria parado, tranquilo, à espera que o segundo lhe saísse da frente, para ele poder continuar o seu caminho. E está-se mesmo a ver que, nestas circunstâncias, o urso polar pensa logo “<strong>ah, vou desviar-me deste simpático rapaz cheio de carne saborosa, porque ele não pertence a este habitat, não conhece predadores, não tem medo de mim, pelo que não é decente eu aproveitar-me disso e comê-lo</strong>”.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Se temos este conhecimento de amoralidade a nível das espécies animais desde o século XIX, o que aprendemos no século XX a nível das células apenas confirma e reforça a noção de que a vida não se pauta por convenções morais, e muito menos moralistas. A Igreja Católica, e em grande medida a sociedade ocidental como um todo, consideram o suicídio eticamente incorrecto, ou até mesmo um grave pecado, passível de arrastar os seus praticantes para o Inferno quando o Inferno ainda existia? Pois bem, desde que apareceram os organismos multicelulares complexos que o suicídio celular se transformou numa rotina diária, e estamos a falar de milhares de células por dia num ser humano. Esta rotina chama-se <em>apoptose</em>, e é apenas uma das várias estratégias que os seres vivos desenvolverem para ganharem forma, sobreviverem, e possuírem órgãos funcionais, com um máximo de economia na exigência energética envolvida em todos estes processos. E parece que, para a Natureza, sai frequentemente mais barato produzir em excesso e a seguir eliminar o defeito. Durante o desenvolvimento embrionário formam-se milhões de neurónios – e, depois, os que, dentro de um mesmo complexo, são inúteis para a locomoção de um membro ou para estimular a reacção à dor, suicidam-se. Da mesma forma, geram-se no timo milhares de linfócitos desatinados, que atacam o próprio organismo em vez de atacarem entidades invasoras – e depois, quando são identificados como prejudiciais, suicidam-se. Os nossos dedos formam-se inicialmente com uma membrana interdigital igual à dos patos ou dos ornitorrincos – e depois, quando já não são necessárias para assegurar a protecção mecânica dos ossos, as células dessas membranas suicidam-se. Tal como se suicidam milhares e milhares de espermatozoides em cada ejaculação, da mesma forma que, na mulher, uma vez por mês, da puberdade à menopausa, há um ovo maduro que se suicida se não for fertilizado. Mesmo que essa mesma mulher tenha dezasseis filhos, nunca conseguirá salvar a vida a todos os cerca de quinhentos ovos com que nasceu.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ainda por cima, temos cada vez mais a noção de que todo o programa da vida é antes, na realidade, um programa de morte. Começamos a morrer assim que começamos a nascer, porque todo o nosso crescimento se faz por divisão celular (é de um único ovo fertilizado que resultam as cerca de 10<sup>14</sup> células do humano adulto), e, em cada divisão celular, a pontinha dos braços de cada cromossoma, o chamado <em>telómero</em>, encolhe um bocadinho de nada. É assim que as células envelhecem, para mais tarde poderem morrer. Com todos os dados que já temos a este respeito até hoje, a disciplina até agora conhecida como <em>Biologia do Desenvolvimento</em> já deveria chamar-se <em>Tanatologia do Desenvolvimento</em>. Independentemente do que a bioética ocidental tenha a dizer sobre a morte, e mais ainda sobre a morte programada. E em total indiferença à reacção extremamente negativa que se fez sentir na comunidade científica das décadas de 50 e 60 do século passado, quando foi preciso reconhecer que o fenómeno eufemisticamente encapotado como <em>apoptose</em> queria mesmo dizer <em>suicídio </em>– com todas as letras. O mundo vivo não se compadece minimamente com a coloração benévola e idílica que tentámos dar-lhe enquanto pudemos – e isto foi até ao século XVIII, quando a ciência e a religião faziam parte da mesma procura da verdade e do conhecimento do mundo, numa lógica que se manteve inalterada de Santo Agostinho a Isaac Newton: quanto melhor estudássemos e compreendêssemos a Natureza, maior admiração sentiríamos pela magnificência da obra de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aliás, nunca é demais recordar que, nos tempos de Charles Darwin, a questão da evolução, só por si, foi bastante pacífica. O aspecto da origem das espécies através da selecção natural que mais consternou os seus contemporâneos cultos foi exactamente a total amoralidade pressuposta pelo sistema: as espécies extinguiam-se ou sobreviviam não devido às suas virtudes, mas antes devido às variações absolutamente aleatórias da sua sorte. Uma colisão de meteorito, e lá se vai o dinossauro – mas o mamífero com ar de ratinho escapa porquê? Um grande degelo, e lá se vai o mamute peludo – mas os hominídeos que o caçavam, e esses sim, estavam a ser maus porque podiam perfeitamente sobreviver só de frutos e raízes, merecem ficar cá por que acto de grandeza ou generosidade? Por que é que as trilobites resistiram a tantas extinções em massa antes de, também elas, se extinguirem? Não sabemos. Mas de certeza que não foi por serem umas meninas lindas que de repente começaram a portar-se mal. Que dotes morais extraordinários possuem as formigas para que as que estão vivas hoje sejam iguaizinhas às que se encontram fossilizadas dentro do âmbar?&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ou seja, o que os contemporâneos de Darwin tiveram que engolir com bastante repulsa (a começar pelo próprio Darwin, que detestava a sua teoria tão sentidamente como Kepler detestou ter que modificar as órbitas dos planetas de esféricas para elípticas<sup><strong>1</strong></sup>) foi que, afinal, não existia qualquer Benevolência Divina, como até aí sempre se acreditara que existisse, presidindo ao desenrolar dos acontecimentos por forma a premiar os bons e a castigar os maus.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por esta altura, já muita gente dissera, com John Locke, que fazia mais sentido procurar a Palavra de Deus na Natureza e não “<em>nos anais de uma tribo semítica semi-letrada</em>”<em><strong><sup>2</sup></strong></em>, já que, “<strong>os trabalhos da Natureza, por toda a parte, evidenciam suficientemente a existência da Divindade</strong>”.&nbsp; Mas, agora, o caso mudava de figura. Em última análise, mesmo numa Terra cujo tempo de vida fora brutalmente expandido pelos geólogos de uns meros seis mil anos para biliões e biliões deles, ao ponto de nem poderem ser contados, talvez ainda pudéssemos continuar a tomar as Escrituras apenas como uma sequência de metáforas descritivas dos principais acontecimentos terrenos. Mas já não podíamos sustentar, de todo em todo, que Deus criara um mundo feliz para deleite do Homem. Para já, o Homem, afinal, não consistira um objectivo preciso de Deus para materializar a Sua imagem perfeita neste mundo, mas resultara tão-somente de um acidente evolutivo feito às cegas, igual a tantos outros. E, ainda por cima, o mundo não era feliz nem deixava de ser: era, apenas, sobrevivente.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um dos professores de Geologia mais admirado por Darwin, e um dos homens a quem ele mais temeu enviar a primeira edição da <em>Origem</em>, chamava-se Adam Sedgwick.&nbsp; A sua reacção às primeiras ideias de evolução das espécies aplicada ao homem como a qualquer outro animal (que ainda nem sequer eram as do seu aluno) não podiam ter sido mais explícitas: admitindo-se a amoralidade da Natureza, abria-se a porta para o colapso moral e social do Ocidente:</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“<strong>O mundo não pode tolerar ser virado do avesso; e estamos prontos a reentrar numa guerra sem quartel contra qualquer violação dos nossos princípios modestos e das nossas maneiras sociais. É a nossa máxima que as coisas devem manter-se nos locais apropriados se se destinam a trabalhar em conjunto para qualquer finalidade positiva. Se as nossas gloriosas donzelas e matronas não podem sujar os dedos com a faca do anatomista, também não podem envenenar as nascentes do pensamento feliz e do pensamento modesto escutando as seduções deste autor; que se lhes apresenta com</strong> [...] <strong>os aneis da serpente de uma falsa filosofia, e uma vez mais lhes pede que estendam o braço e colham o fruto proibido</strong> [...] <strong>que lhes diz que a sua Bíblia é falsa quando lhes ensina que foram feitas à imagem de Deus, que são filhas de macacos e engendradoras de monstros</strong> [...] <strong>e que todos os fenómenos do Universo, vivos e mortos, devem ser postos perante a mente numa nova gíria, e como o desenvolvimento e o progresso de um materialismo degradante e sem tréguas”.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na carta que Sedgwick escreveu a Darwin depois de ler a primeira edição da <em>Origem</em>, esta preocupação é expressa em tons talvez menos coloridos, mas inegavelmente ainda mais clarividentes:</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“<strong>A coroa de glória da ciência orgânica é conseguir, através da causa final, ligar o material ao moral </strong>[...]. <strong>Você ignorou esta ligação; e, se percebi bem a sua intenção, fez o melhor em um ou dois casos para quebrá-la. Se fosse possível (o que, graças a Deus, não é possível) quebrá-la, a humanidade, na minha opinião, sofreria um dano que poderia brutalizá-la, e afundar a raça humana num grau de degradação mais baixo do que qualquer um em que já tenha caído desde o início da sua história registada”.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E ninguém pode argumentar que Sedckwig não tinha razão. Vá lá que a Revolução Americana ainda foi obra de teístas convictos, que cunharam “<strong>In God we trust</strong>” na sua moeda, defenderam o direito ao lucro e à procura de riqueza como parte integrante do nosso dever de sermos felizes e assim fazermos Deus feliz, e justificaram noções tão contrárias à criação do Paraíso na Terra como a propriedade privada e a acumulação de capitais com a necessidade de continuarmos a expiar o pecado original. Mas, logo a seguir, a Revolução Francesa já deixou as fundamentações de carácter teístico bastante mais para trás, tanto no seu tríptico “<strong>Liberté, Équalité, Fraternité</strong>” como no seu recurso sem precedentes à decapitação, tão intensivo que exigiu a invenção da guilhotina.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E, não falando sequer da forma como Freud nos afastou ainda mais do nosso antigo pedestal de criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus reduzindo-nos a meros prisioneiros do nosso subconsciente, basta recordarmos que o século XIX de Charles Darwin é também, logo a seguir, o século XIX de Karl Marx. Ou seja, é o século de <em>O Capital</em>, da invenção da sociedade sem classes, dos primórdios de uma forma de pensar na vida humana sem desígnios ou deveres predestinados por Deus que haveria de levar ao clímax da Revolução Russa em 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Temos aqui, portanto, um ponto assente – uma verdade histórica indiscutível, gostemos ou não dela. Para tanto a ciência como a religião poderem continuar a evoluir frutiferamente, foi necessário o separar das águas imposto pelos conhecimentos do século XIX. E esta separação não é reversível. Não esqueçamos que, nos séculos XVII e XVIII, ainda homens como Isaac Newton e Robert Boyle escreviam mais sobre as Escrituras e os Profetas do que sobre Física e Matemática. A partir da separação das águas, para assegurar a tranquilidade e o progresso colectivos, os cientistas passaram a fazer apenas ciência. E os teólogos passaram simplesmente a estudar teologia. Não é por acaso que o chamado “Criacionismo Científico” moderno é obra exclusiva das convicções religiosas fundamentalistas de um punhado de homens da ciência, para grande embaraço dos teólogos, que se distanciam da questão o mais que podem e se recusam a entrar no debate.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Perante este cenário, torna-se apenas sensato deduzir que não é certamente voltando atrás e misturando outra vez conceitos com cada vez menos traços de ligação entre si que vamos conseguir chegar a alguma forma de entendimento minimamente consensual sobre o que é que, do ponto de vista moral e social, devemos ou não devemos fazer nas nossas intervenções científicas sobre a vida humana.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vamos a um exemplo por redução ao absurdo.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Reparem que nem a legislação sobre o aborto deveria passar por este tipo de crivo, pura e simplesmente porque o crivo está tão desadequado ao problema que permite contradições das mais flagrantes. Pensem nos Estados Unidos. É certamente o país do mundo onde existem os grupos de pressão contra o aborto mais fanáticos e radicais, e ainda por cima mais agressivamente activos. Mas é também o país democrático em que se verifica mais vezes a aplicação da pena de morte suportada por legislação e jurisprudência. Temos, portanto, uma sociedade com sectores bem visíveis que se opõem militantemente ao aborto enquanto atentado contra a vida humana – e aqui, ao falar em “vida humana”, estamos apenas a falar de um <em>blastocisto</em>, ou seja, de um embrião de poucas células, ainda em estádios muito preliminares de desenvolvimento. Mas depois esses mesmos sectores são, por regra, os que defendem com mais fervor o direito de roubar essa mesma vida aos membros da sociedade que forem considerados perniciosos. Ao contrário do aborto, que é por norma apresentado como um atentado à vontade divina, a pena de morte decorre exclusivamente de critérios meramente humanos. E, neste caso, já estamos mesmo a falar de matar adultos completamente formados. Perguntem ao George W. Bush qual é a lógica subjacente a este raciocínio, já que ele se gabou tantas vezes, quando era governador do Texas, de mandar fritar mais criminosos do que todos os seus pares. Visto de fora, parece apenas que o senhor, e todos os senhores como ele, está a incorrer numa tamanho desrespeito pela aferição de pesos e medidas que não pode, sequer, começar a ser discutido.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas passemos à frente destas considerações estritamente do foro das fraquezas e misérias humanas. Sobretudo, a história já nos mostrou repetidas vezes que é do mais ridículo e inútil que possamos imaginar tentarmos justificar ou basear as nossas ideias religiosas em dados científicos. Esta tendência é tão velha como o Cristianismo, e sempre produziu resultados absurdos, que centenas de anos mais tarde não qualificam como mais que umas boas anedotas.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No tempo de Santo Agostinho, a primeira legislação canónica relativa ao aborto regulava a admissibilidade do procedimento num feto masculino até aos 44 dias de gestação contra 81 dias de gestação num feto feminino... porque, segundo o raciocínio herdado dos Clássicos, as mulheres se desenvolvem a metade da velocidade do desenvolvimento do homem, por serem de natureza mais fria e passiva.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No século XVII, quando Charles Bonnet descobriu a partenogénese nas pulgas de água, houve imediatamente um jesuíta anónimo que escreveu um tratado sobre ser esta a explicação científica para o parto virgem de Jesus.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No século XVIII, quando Abraham Trembley descobriu a regeneração na hidra de água doce, um outro jesuíta, desta vez o conhecido naturalista John Tubberville Nedaham, escreveu prontamente que fora exactamente por um mecanismo semelhante que Eva se desenvolvera a partir da costela de Adão.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Durante todo este período, parte da grande aceitação da preformação como teoria da reprodução residia na sua explicação científica das palavras de Jesus ao afirmar que todos os homens são irmãos – já que, de facto, segundo os preformacionistas, todos tinham estado inicialmente encaixados dentro dos órgãos sexuais do progenitor primordial – Adão ou Eva, conforme as preferências.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A lista é bastante mais extensa que esta amostragem. E, como todos sabemos, nunca foi assim que evoluiu nem o nosso conhecimento de Deus, nem o nosso conhecimento da Natureza.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp; Outro debate velho como o mundo, que continua tão carente de resposta como se encontrava cinco mil anos antes de Cristo, é o do momento em que alma entra no embrião – e, consequentemente, este deve passar a ser considerado um verdadeiro ser vivo. Cinco mil anos antes de Cristo os egípcios debateram exaustivamente a matéria, chegando a concluir que o “<em>ruh</em>”, ou “<em>espírito</em>”, entrava no embrião do pinto ao décimo primeiro dia de gestação. Aristóteles dedicou ao assunto uma atenção considerável em <em>Sobre a Geração dos Animais</em>, propondo que todos os embriões deviam ter uma sucessão de almas cada vez mais especializadas, já que todos começavam por ser extremamente parecidos no início da sua génese e depois iam, progressivamente, evidenciando características cada vez mais distintivas. Nos séculos XII-XIII, ao proceder ao chamado <em>Baptismo de Aristóteles</em> promovendo a combinação do pensamento clássico com os dogmas religiosos de que resultaria o escolasticismo, São Tomás Aquino acabou por criar sérios problemas para si próprio ao propor que o embrião humano começa por ter uma <em>alma vegetativa</em>, que quando a formação dos órgãos externos do corpo está concluída é substituída por uma <em>alma animal</em>, capaz de concluir a formação dos órgãos internos, e que finamente é substituída por uma <em>alma racional,</em> que o distingue de todos as outros animais e é enviada directamente por Deus. Tudo muito bonito – mas como explicar, então, e transmissão hereditária do pecado original, se as almas são mandadas do Céu novinhas em folha? Na <em>Divina Comédia</em>, o próprio Dante propõe a sua resolução pessoal (e extremamente arrevesada) para este dilema, que, simultaneamente, é discutido em profundidade tanto no Talmude como na Cabala – sendo que, em ambos os casos, o processo fica simplificado com o retomar ideia pré-socrática de que o embrião só está vivo, e consequentemente dotado de alma, a partir do momento em que nasce.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Estas perguntas perturbam legitimamente a nossa sociedade, e é apenas humano querermos responder-lhes, por muito que a missão apareça à partida como perdidamente impossível. O que já não é legítimo, à face de tudo o que acabámos de expor, é que tanto os media como os legisladores procurem estas respostas, de foro francamente teológico, junto dos cientistas.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um cientista pode dizer quando é que começa a formar-se o tubo neural, que constitui o primeiro primórdio do cérebro, e portanto, supostamente, da consciência.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pode dizer quando é que se dá a t<em>ransição materno-zigótica</em>, ou seja, qual é o momento em que os primeiros genes embrionários dão instruções ao citoplasma para a sintetização da primeira proteína que já não é determinada pelas mensagens que estavam arquivadas no citoplasma do ovo mas sim por mensagens vindas do próprio embrião (o que, em grande medida, corresponde ao primeiro sinal de individualidade).&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pode dizer quando começa a organizar-se o primeiro esboço de intestino<sup><strong>3</strong></sup>, garantia da autonomia em relação à nutrição, e sistematicamente a primeira estrutura que os embriões organizam por forma a assegurarem a sua sobrevivência.&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pode dizer em que dia se dá a implantação no útero, correspondente à fixação do embrião no seu local próprio de crescimento.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Até pode dizer quando é que começa a bater o coração, ou quando se dão os primeiros movimentos autónomos.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas <em>não pode</em>, de maneira nenhuma, dizer qual destes vários estádios é que corresponde, exactamente, cientificamente, fisicamente, ao<em> início da vida</em> ou ao <em>aparecimento da alma</em>. Nem sequer pode discutir, armado de todo o conhecimento que possui, se estes dois fenómenos são ou não um só.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na sua esmagadora maioria, as tentativas modernas de estipular “cientificamente” alguns destes espaços em branco cognitivos, considerados como vitais para tomadas de decisão sobre gâmetas e embriões humanos, resultam em patetices de cortar o fôlego que só servem para baralhar ainda mais os cidadãos. Querem um bom exemplo, mesmo de cá de casa?</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Então, aqui há tempos, a revista <em>Sábado</em> anunciava na capa que “<strong>os cientistas</strong>” tinham descoberto que a alma entra no embrião humano à oitava semana de gestação. Claro que fui logo ler o artigo em questão. O título, lá dentro, já era bastante menos triunfalista do que capa: rezava, apenas, <em>Ciência: discussão sobre o início da vida continua: MISTÉRIOS DA ALMA.&nbsp; </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O conteúdo? Bem. Depois de sermos informados de que “<strong>a doutrina católica dominante faz coincidir o início da vida humana com o momento da gestação</strong>” (coisa que eu, como católica desde que nasci em 1960, e como historiadora das teorias da reprodução deste 1994, desconhecia por completo), éramos avisados de que isto “<strong>pode estar a afastar-se de uma certa sensatez científica</strong>”. Porquê? Porque “<strong>de acordo com cientistas ingleses e norte-americanos</strong>” (não há nada mais perigoso para a informação do público do que não nos dizerem quem são estes “<strong>cientistas</strong>”, que experiências fizeram, que controlos usaram, e onde publicaram os seus resultados) <strong>às oito semanas de vida intra-uterina do embrião nasce a alma, depois de o embrião se fixar nas paredes do útero</strong> (...) <strong>Na fase das oito semanas, o embrião emite os primeiros sinais de actividade cerebral</strong>”.&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;É verdade que o embriologista Manuel Barbosa, da Faculdade de Medicina do Porto, ainda consegue explicar que “<strong>nesta altura, o sistema nervoso já tem uma formação próxima da adulta</strong>”. Mas depois não lhe dão grande espaço para apresentar a contraposição fundamental: é que, mesmo com alguns sinais cerebrais presentes, “<strong>é errado falar deste período como o do aparecimento de qualquer tipo de consciência ou cognição</strong>”.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Onde o cientista consultado é modesto nas suas extrapolações teológicas, o teólogo consultado pronuncia-se como um doutorado em embriologia: trata-se do franciscano Hermínio Araújo, que parece não dar grande importância à prática do aborto enquanto a individualidade do embrião não estiver definida. E essa individualização ocorre quando? Segundo o entrevistado, exactamente durante a fase da implantação no útero, ou seja, cerca de catorze dias depois da fertilização. Porquê? Porque “<strong>é precisamente a partir daí que ocorre a diversificação celular, que tanto pode dar origem a um indivíduo como a dois ou três</strong>”. O que não é verdade, mas é que não é verdade, <em>mesmo</em>. Se foi galegada do franciscano ou transliteração do jornalista não sei, mas sei o que dá tentar misturar água com azeite. Para fechar em beleza, a peça contava ainda com um destacado intitulado <em>A Igreja Sempre Condenou o Aborto</em>, onde o texto não diz exactamente o mesmo que o título.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Alguém ficou esclarecido com este chorrilho de lugares-comuns atamancados? Na melhor das hipóteses, os leitores ficaram confusos – sobre o que pensar, sem dúvida, mas sobretudo sobre quem tem, de facto, a legitimidade necessária para dar respostas definitivas a estas perguntas ancestrais.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como parece por demais evidente que a bioética, com a sua total falta de sentido nos dois termos que formam a palavra e o conceito, nunca nos permitirá chegarmos por via directa a conclusão nenhuma nestes domínios inconciliáveis, talvez fosse melhor alterar completamente a fórmula da equação. É mais inteligente, para a criação de uma orientação bioética universal e eficaz, estabelecermos limites arbitrários que não passam nem pelo religioso nem pelo científico mas que garantem uma abordagem decente aos métodos experimentais possíveis. Precisamos muitíssimo destas regras no momento de viragem civilizacional em que nos encontramos. Vivemos a alvorada de uma mudança de paradigma tão marcante que, mais do que mais uma Revolução Científica, terá que ser celebrada como uma grande Revolução Humana. E viver este momento da melhor forma possível requer trabalho, tal como requer parâmetros para balizar os pontos de chegada tornados possíveis por esse mesmo trabalho. É importante começarmos a trabalhar a sério na investigação em embriões e células embrionárias humanas. Alguns dos resultados destas experiências poderão elevar a medicina a um grau de bem-estar e dignidade para os pacientes nunca antes visto. E isto, certamente, é uma coisa que interessa tanto aos teólogos como aos cientistas – exactamente porque, se formos boas pessoas, supostamente tendemos a querer o bem dos outros.&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Desde que estejamos devidamente informados, todos poderemos participar na definição desta nova bioética, que poderá muito bem vir a transformar-se na mão direita de Deus – mas já não será concebida como tendo sido ditada por Deus, assim como usará a ciência como base de dados mas não como imposição. Desta vez, poderemos tomar decisões em democracia. A quadratura do círculo parece uma forma muito estimulante de começar.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Texto amavelmente&nbsp;enviado por<strong> Clara Pinto Correia </strong>(docente e investigadora universitária, escritora,&nbsp;e colaboradora do Ciência com Todos).</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<hr align="left" size="1" width="33%">
<div>
	<div id="ftn1">
		<p style="text-align: justify;"><strong><sup>1</sup></strong> A esfera é o símbolo da perfeição absoluta, enquanto que a elipse é o símbolo do caos. Kepler é muito franco sobre estes seu desgosto nas páginas introdutórias do <em>Harmonia Mundi</em>.</p>
	</div>
	<div id="ftn2">
		<p style="text-align: justify;"><strong><sup>2</sup></strong> Expressão anglo-saxónica de precaução relativamente à Bíblia que se tornou muito popular durante o triunfalismo da revolução científica do século XVII.</p>
		<p style="text-align: justify;"><strong><sup>3</sup></strong> Uma estrutura primitiva designada tecnicamente por <em>arquêntero</em>.</p>
	</div>
</div>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Cérebro de Einstein: a origem de um génio]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/cerebro-de-einstein-a-origem-de-um-genio/</link>
         <description><![CDATA[&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Levará a evolução do Homem a um aumento do volume do cérebro? Ou talvez de apenas algumas partes? Será que quanto maior o número de circuitos elétricos, mais eficiente é o cérebro? Ou tornará o encurtamento das redes neuronais o pensamento mais rápido? Estas e outras questões tentam ser resolvidas por neurocientistas em todo o...]]></description>
         <pubDate>Thu, 25 Jul 2013 01:17:00 +0200</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://cienciapatodos.webnode.pt/news/cerebro-de-einstein-a-origem-de-um-genio/</guid>
         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<img alt="" height="281" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000169-b7e71b8e0e/Einstein.jpg" style="width: 238px; height: 297px;" width="220"></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Levará a evolução do Homem a um aumento do volume do cérebro? Ou talvez de apenas algumas partes? Será que quanto maior o número de circuitos elétricos, mais eficiente é o cérebro? Ou tornará o encurtamento das redes neuronais o pensamento mais rápido? Estas e outras questões tentam ser resolvidas por neurocientistas em todo o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Assim começou esta busca entre a relação da inteligência com a anatomia do cérebro. Surgiu um grande interesse no estudo neuroanatómico dos grandes génios como o matemático alemão Carl Friedrich Gauss (1777-1855) e o psicólogo russo Ivan Pavlov (1849-1936), comparando a anatomia entre pessoas dotadas e pessoas comuns, e mesmo entre si, na busca do “padrão da inteligência”.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para muitos, Albert Einstein é o físico mais célebre e dos que mais contribuiu para o desenvolvimento da física como hoje a conhecemos. De facto, as suas teorias foram tão revolucionárias, que ainda hoje são utilizadas e postas à prova nas mais variadas áreas, desde a física e cosmologia, à biologia e medicina.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Einstein nasceu às 11h:30min no dia 14 de Março de 1879 e faleceu às 13h:00min no dia 18 de Abril de 1955, com 76 anos (<strong>figura 1</strong>), vítima de um aneurisma da aorta abdominal. O relatório da autópsia esteve desaparecido por mais de 18 anos…</p>
<p align="center">&nbsp;</p>
<p align="center"><img alt="" height="182" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000170-ec78eee6cf/Falecimento de Albert Einstein.jpg" style="width: 319px; height: 218px;" width="237"></p>
<p align="center"><span style="font-size: 11px;"><strong>Figura 1</strong> – Falecimento de Albert Einstein como notícia</span></p>
<p align="center"><span style="font-size: 11px;">de primeira página do Jornal New York World – Telegram.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Algumas horas após o seu falecimento, o seu filho Hans Albert permitiu a remoção do cérebro, cerebelo, tronco cerebral e artérias cerebrais para serem preservados e estudados.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Antes do seccionamento em peças histológicas (<strong>figura 2</strong>), o cérebro de Einstein foi pesado (1230 g), fotografado e dividido anatomicamente em 240 blocos, 180 dos quais se encontram no Centro Médico Universitário de Princeton, mas o maior agregado de lâminas microscópicas estão no Museu Nacional de Saúde e Medicina, Estados Unidos. Existem ainda alguns blocos de tecido em Ontário, Califórnia, Alabama, Argentina, Japão, Havai e Filadélfia, estando as restantes porções do cérebro de Einstein em paradeiro desconhecido. O corpo foi cremado, com exceção do cérebro e dos olhos. O tecido cerebral e fotografias foram analisadas por mais de 18 investigadores resultando na publicação de 6 artigos científicos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><img alt="" height="129" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000171-7605176ff3/Córtex cerebral_Einstein.jpg" style="width: 294px; height: 167px;" width="251"></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 11px;"><strong>Figura 2</strong> - Fatia histológica 42 do córtex cerebral de Albert Einstein.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O cérebro humano é dos órgãos mais complexos e a sua total compreensão ainda está longe de ser alcançada. É constituído por 2 hemisférios, o direito e o esquerdo, ambos com 4 lóbos: frontal, parietal, occipital e temporal (<strong>figura 3</strong>). Vários estudos descrevem as superfícies externas dos lobos e as possíveis relações que possam existir com o comportamento e a inteligência do ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><img alt="" height="204" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000172-d92c2da25f/Nomenclatura dos lóbos cerebrais.jpg" width="271"></p>
<p align="center"><span style="font-size: 11px;"><strong>Figura 3</strong> - Nomenclatura dos lóbos cerebrais (hemisfério direito):</span></p>
<p align="center"><span style="font-size: 11px;">lóbo frontal (amarelo), lóbo parietal (rosa), lóbo occipital (azul) e lóbo temporal (verde).</span></p>
<p align="center"><span style="font-size: 11px;">Na imagem também é possível distinguir o cerebelo e o tronco cerebral.</span></p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O cérebro de Einstein possuía características raras, e talvez únicas, que podem estar relacionadas com a inteligência.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Começando pelo lóbo frontal: o hemisfério direito, responsável pela atividade motora esquerda, está bastante pronunciado. Esta característica incomum foi vista em violinistas destros, tal como Einstein (<strong>figura 4</strong>). O córtex pré-frontal, incrivelmente bem desenvolvido, pode estar na origem das extraordinárias capacidades cognitivas, inclusive a sua produtividade em teorias, o que explica a grande imaginação de Einstein, como colocar-se a si próprio a viajar lado a lado com um fotão, ou estar fechado num elevador a acelerar em direção ao espaço. Esta imaginação pode também estar associada ao córtex parietal e occipital. Einstein escreveu uma vez que o pensamento implica uma associação de imagens e “sensações”, e por isso, na sua visão, os elementos do pensamento, eram não só visuais mas também “musculares”. Esta associação pode estar relacionada com a considerável expansão do córtex motor primário esquerdo e somatosensorial primário esquerdo. Por outro lado, a visão espacial e o pensamento matemático de Einstein podem estar relacionados com os seus lóbos parietais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><img alt="" height="270" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000173-ba81ebb7b6/Cérebro de Albert Einstein fotografado por Thomas Harvey.jpg" style="width: 361px; height: 309px;" width="324"></p>
<p align="center"><span style="font-size: 11px;"><span style="font-size: 11px;"><strong>Figura 4</strong> – À esquerda o cérebro de Albert Einstein fotografado por Thomas Harvey em 1955, </span><span style="font-size: 11px;">com a nomenclatura dos sulcos, com visão lateral esquerda (em cima) e visão occipital (em baixo). </span><span style="font-size: 11px;">À direita os esquemáticos do cérebro de Einstein com destaques coloridos: a amarelo os córtices </span><span style="font-size: 11px;">motor primário e somatosensorial primário, a roxo o lóbulo parietal superior, a azul o lóbulo parietal </span><span style="font-size: 11px;">inferior, a rosa os lóbulos occipitais.</span></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;É interessante notar que, apesar da aparência macroscópica, o cérebro não apresenta simetria nos dois hemisférios (<strong>figura 4</strong>), podendo mesmo ter funções diferentes em diferentes áreas, responsáveis pelo controlo de diferentes partes do corpo. Por exemplo, o lóbo parietal inferior do hemisfério esquerdo está relacionado com a linguagem, imagem corporal e matemática, enquanto que o lóbo parietal do hemisfério direito ocupa-se com o processamento espaço-visual não-verbal. O lóbo parietal superior esquerdo está envolvido na atenção e orientação espacial, estando o lóbo parietal superior direito associado a imagens espaço-visuais. Uma característica do cérebro do Einstein é que o lóbo parietal superior direito é mais largo que o esquerdo. De facto, os lóbos parietais superiores, especialmente os posteriores, estão funcionais durante a aritmética mental.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nestes estudos deve ter-se em consideração que Einstein já tinha 76 anos quando faleceu, e o seu cérebro já manifestava sinais de envelhecimento, levando à diminuição do tamanho. De facto, o peso do cérebro de um idoso em comparação com um adolescente tem uma diferença cerca de 9%, pelo que o peso estimado para a sua juventude seria 1350g.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Numa última nota, propõem-se uma reflexão sobre a doação do corpo à ciência, por este e muitos outros seres humanos, fundamental para o estudo da evolução e do desenvolvimento do cérebro humano. Mais estudos far-se-ão deste e de outros génios que marcaram a história, na tentativa de conhecer e compreender este tema tão complexo: a origem de um génio...</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-size: 12px;"><span style="font-family: verdana,geneva,sans-serif;">----------------------------------------------------------------------------------------</span></span></p>
<p><span style="font-size: 12px;"><span style="font-family: verdana,geneva,sans-serif;"><strong>Ricardo Santos</strong> – Aluno do 3º Ano do Mestrado Integrado em Engª. Biomédica e Biofísica, FCUL.</span></span></p>
<p><span style="font-size: 12px;"><span style="font-family: verdana,geneva,sans-serif;"><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><font color="#000000"><font lang="JA"><font lang="JA"><strong>Horizon Magazine </strong>- Nova revista do Departamento de Fisica da Faculdade de Ciencias da Universidade de Lisboa, <em><strong>Edição 0</strong></em>.</font></font></font></span></span></span></span></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><span style="font-size: 12px;"><span style="font-family: verdana,geneva,sans-serif;"><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><font color="#000000"><font lang="JA"><font lang="JA">Ver original e respetiva revista em: <a href="http://horizon.fc.ul.pt/?q=content%2Fcerebro_einstein">http://horizon.fc.ul.pt/?q=content%2Fcerebro_einstein</a></font></font></font></span></span></span></span></p>
<p><span style="font-size: 12px;"><span style="font-family: verdana,geneva,sans-serif;"><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><font color="#000000"><font lang="JA"><font lang="JA">e </font></font></font></span></span></span></span></p>
<p><span style="font-size: 12px;"><span style="font-family: verdana,geneva,sans-serif;"><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><span new="" style="line-height: 115%;" times=""><font color="#000000"><font lang="JA"><font lang="JA"><a href="http://horizon.fc.ul.pt/?q=content/edicao_0"><font color="#0066cc">http://horizon.fc.ul.pt/?q=content/edicao_0</font></a></font></font></font></span></span></span></span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[A hipótese da boneca russa: a Revolução Científica e o primeiro conceito de genética]]></title>
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         <description><![CDATA[
	

	Matrioshka ou Boneca Russa 

	&nbsp;

	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No domínio das Ciências Naturais, a Revolução Científica do século XVII foi profundamente marcada pela entrada em cena do microscópio como instrumento de análise do mundo vivo. Depois de uns primeiros cinquenta anos de estudos pouco gratificantes, marcados por muito poucas publicações referentes a observações extremamente limitadas, as lentes e o entendimento do seu uso evoluíram o suficiente para permitirem uma subsequente...]]></description>
         <pubDate>Thu, 12 Jul 2012 14:39:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
	<img alt="" height="569" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000054-6327564214/Mamushka_Boneca Russa.jpg" style="width: 420px; height: 281px;" width="800" /></p>
<p style="text-align: center;">
	<strong>Matrioshka ou Boneca Russa </strong></p>
<p style="text-align: center;">
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No domínio das Ciências Naturais, a Revolução Científica do século XVII foi profundamente marcada pela entrada em cena do microscópio como instrumento de análise do mundo vivo. Depois de uns primeiros cinquenta anos de estudos pouco gratificantes, marcados por muito poucas publicações referentes a observações extremamente limitadas, as lentes e o entendimento do seu uso evoluíram o suficiente para permitirem uma subsequente explosão de publicações com observações francamente reveladoras, executadas por naturalistas como o inglês Robert Hooke, o italiano Marcello Malpighi, ou os holandeses Jan Swammerdam e Antoni van Leeuwenhoek, entre outros. Este conjunto de observações, além de ter surtido um efeito de grande impacto religioso junto da comunidade letrada do período, deixou claro e inquestionável o que de início não passava de uma hipótese de trabalho sedutora: abaixo do limite de resolução do olho humano, existia, de facto, todo um mundo diminuto que estava tão vivo como o nosso, e como o nosso tão perfeitamente organizado, senão mais organizado ainda.&nbsp;Esta certeza, radicalmente nova, foi a alavanca que permitiu aos naturalistas contemporâneos de Descartes libertarem a reprodução do seu venerando espartilho aristotélico.&nbsp;&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;De facto, até este período, a explicação preferida para o fenómeno da reprodução não evoluíra muito desde as propostas de Aristóteles no século III a.C.: dentro do útero feminino, existiria um coágulo de sangue inerte e amorfo, sem qualquer capacidade de organização ou animação internas, mas destinado a fornecer a matéria-prima para a escultura da progenia quando fosse acordado, exactamente como no beijo que o príncipe dá à Bela Adormecida, pela chegada do sémen ao útero depois da cópula. Aristóteles chegara ao ponto de equiparar o sémen à alma, uma vez que nem havia necessidade de contacto físico entre o coágulo materno e a contribuição paterna para desencadear a reprodução embrionária: seria antes um espírito emanado do sémen, a essência que desde então passou a ser descrita como a aura seminal, que animava o coágulo de vida, começava a modelá-lo para vir a formar um feto, e lhe conferia as características da espécie a que pertencia.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A este modelo vitalista e baseado nas forças invisíveis que o espírito da Revolução Científica combatia com a contraposição de modelos físicos e matemáticos compreensíveis e bem estabelecidos, em meados do século XVII o padre cartesiano francês Nicolas Malebranche contrapropõe, logo no início do seu tratado em seis volumes <em>A la Recherche de la Vérité</em>, na secção dedicada à visão e tomando como base de argumentação as recentes descobertas microscópicas, a teoria da Preformação: durante os primeiros seis dias da Criação, Deus, de cada vez que criou o primeiro organismo de cada espécie animal ou vegetal, encaixou dentro dos seus órgãos genitais, todos encaixados uns dentro dos outros e em tamanhos mais e mais diminutos, exactamente como numa boneca russa, todos os organismos das gerações subsequentes que haviam de vir a nascer e viver até à chamada conflagração final, que assinalaria o fim do mundo. Desta forma, toda a vida destinada a existir à superfície da Terra tinha sido criada toda de uma vez, num acto único, já com as suas características perfeitamente definidas, e limitava-se a aguardar pacientemente o sinal de um qualquer despertador também ele pré-programado por Deus para se desenroscar, começar a crescer, ganhar as proporções de um feto típico daquela espécie, e por fim nascer. Ao nascer, esse animal ou planta tinha os seus órgãos sexuais próprios, e dentro deles estavam guardados os organismos da geração seguinte, já com os que se lhes seguiriam enroscados lá dentro, e assim por diante.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Este modelo é extremamente sedutor para o espírito da Revolução Científica devido ao seu carácter estritamente mecânico, sem intervenções de espíritos invisíveis nem fenómenos inexplicáveis; pela possibilidade permitida de explicar a progressão da vida em termos de sequências numéricas e fracções, absolutamente na linha do furor mathematicus ou quantumphenia que varria a Europa; e mais ainda pela sua conformidade com o Deus-relojoeiro de Descartes, que cria o mundo como um mecanismo de relógio perfeito e sem falhas, dá corda ao relógio, desencadeia todos os acontecimentos terrestres, e, a partir daí, nunca mais volta a interferir com a Sua criação. Além disto, a preformação fornecia explicações científicas para mistérios religiosos, e podia até funcionar como um argumento de legitimidade social. Se todos os seres humanos tinham estado encaixados dentro de um ovo primordial, e portanto provinham todos da mesma mãe, tornava-se por fim cientificamente incontornável que todos os homens eram mesmo irmãos, conforme Jesus afirmara. Por outro lado, se todas as gerações tinham sido pre-programadas por Deus, não havia razão para ninguém tentar alterar o seu destino: por vontade divina, os reis descendiam de linhagens de reis, tal como os servos descendiam de linhagens de servos.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um outro factor explicativo que, no seu tempo, torna a preformação tão sedutora, é a resposta ao problema da continuidade específica, até então sistematicamente sem resposta: como é que cada novo embrião de cada espécie sabe, desde o início, a que espécie é que pertence? Por que é que os coelhos geram sempre coelhos e as avestruzes geram sempre avestruzes? Por que é que nunca nascem crocodilos dos ovos dos pintos, nem rinocerontes da barriga das éguas? Se fora Deus a organizar todo o encaixe, devidamente organizado por espécie, a questão deixava logicamente de se pôr.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Temos ainda que ter em conta um outro factor que, na época, tornou a pré-formação perfeitamente aceitável como modelo explicativo para a reprodução: a duração da vida na Terra, na altura consensualmente considerado como de não mais de seis mil anos. Num período tão curto, e sem a noção (ainda a dois séculos de distância, quando se chegasse ao postulado da teoria celular) de que existe um limite inferior de tamanho para a organização dos seres vivos, é concebível imaginar Deus a encaixar uns dentro dos outros organismos cada vez mais pequenos. Se os naturalistas da época tivessem que lidar com o tempo geológico profundo que conhecemos hoje (e que, uma vez mais, só viria a tornar-se consensual em finais do século XIX), certamente teriam mais dificuldade em acomodar o conceito de um encaixe ilimitado. Por outro lado, se a microscopia já tivesse evoluído na época ao ponto de permitir a compreensão de que todos os seres vivos são constituídos por unidades básicas chamadas células, e que cada célula, para poder funcionar, precisa de grandes quantidades de água, de uma qualquer forma de empacotamento da macromolécula do DNA, e de vários organitos, já nunca poderiam dizer, como tão bem sintetizou Charles Bonnet, “A Natureza pode trabalhar em tamanhos tão pequenos quanto lhe aprouver”, e a hipótese do organismo completamente constituído incluído numa escala deslizante para dimensões infinitamente pequenas teria que ser excluída.&nbsp; Foi uma conjugação extremamente interessante de conhecimentos e falta dos mesmos, combinada com as idiossincrasias do período, que tornou a preformação possível.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quando Malebranche postulou este conceito, o único veículo conhecido que poderia permitir este encaixe era o ovo. Há milénios que se observava a eclosão de seres vivos de dentro de ovos, fossem de peixes, de répteis, de anfíbios ou de aves. Nos microscópios de Redi, de Swammerdam, ou de Hooke, o ovo do insecto de onde eclodem as larvas também já se tornara conhecido. Já no fim da vida, no seu livro pioneiro Exercícios de Geração Animal, o médico inglês William Harvey, tornado famoso pela descoberta do mecanismo da circulação do sangue aos 44 anos, depois de vários anos passados a observar microscopicamente o desenvolvimento de embriões de pinto e o útero de gazelas grávidas da tapada do Rei Carlos V, postula pela primeira vez com todas as letras Ex Ovo Omnia, “do ovo, tudo”, ou seja, “tudo quanto é vivo provém do ovo. O frontispício da primeira edição, imortalizado em inúmeras reproduções, mostra-nos Zeus a abrir um ovo em cuja parte superior se lê o hoje lendário Ex Ovo Omnia, e de onde estão a sair todas as criaturas que existem no planeta. Foi a primeira afirmação taxativa de que também os mamíferos deviam provir de um ovo, se bem que interno, microscópico, e consequentemente difícil de detectar.</p>
<p style="text-align: center;">
	<img alt="" height="487" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000057-08c4a09be6/William Harvey.jpg" style="width: 478px; height: 313px;" width="650" /></p>
<p style="text-align: center;">
	<strong><span style="font-size: 78%;"><font size="2">William Harvey</font></span></strong><br />
	<em><span style="font-size: 78%;"><font size="2">Ex ovo omnia </font></span></em><span style="font-size: 78%;"><font size="2">(pormenor)</font></span><br />
	<strong><span style="font-size: 78%;"><font size="2">1651</font></span></strong><br />
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As dificultardes inerentes a esta pesquisa, no entanto, não atrasaram a descoberta por muitos mais anos: em breve o microscopista holandês Reignier de Graaf estava a publicar o seu tratado sobre as partes reprodutivas das mulheres, com observações feitas em cadáveres femininos e em ovelhas, onde o “ovo do mamífero” aparece claramente desenhado nos ovários de ambas as espécies, em vários tamanhos, que de Graaf explica corresponderem a diferentes fases de maturação. Claro que estes “ovos” não eram ainda os ovos propriamente ditos, mas antes as estruturas a que agora chamamos, precisamente, os “folículos Graafianos”: a estrutura de células protectoras, no córtex 0ovariano, que se sobrepõem em torno do ovo em várias camadas concêntricas – e são, consequentemente, muito mais fáceis de detectar e observar com um microscópio ainda muito simples. Encontrar o verdadeiro ovo do mamífero, micrométrico e completamente transparente, revelou-se uma tarefa tão espinhosa que só chegou à sua conclusão definitiva com a vivissecção das cadelas de Ernst van Baer, já na segunda metade do século XIX.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No século XVII, estando agora consensualmente estabelecido que todos os mamíferos provinham de ovos, os primeiros grandes preformacionistas assumiram-se todos, muito logicamente, como ovistas: na sua explicação do modelo reprodutivo, Deus encaixara dentro do primeiro ovo de cada fêmea todas as gerações de todos os organismos que haviam de vir. Alguns eram do século masculino e não participavam na perpetuação das linhagens: o seu papel era antes, através da aura seminal libertada pelo sémen depois da cópula, acordar a miniatura no ovo para que ela se desenroscasse e crescesse. Mas os do sexo feminino tinham ovários, dentro desses ovários estavam ovos, e dentro desses ovos estava preformada a geração seguinte, com a outra geração já preformada dentro dos seus ovos, nos seus ovários.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O problema é que, estando-se em plena fase de euforia no respeitante á utilização do microscópio, era apenas uma questão de tempo até que alguém observasse uma gota de sémen debaixo das lentes. Isto aconteceu cerca de vinte anos depois do estabelecimento da preformação na sua versão ovista, muito provavelmente no âmbito das observações do microscopista holandês Antoni van Leeuwenhoek. Num desenho enviado para as Transactions of the Royal Academy of Science, Leeuwenhoek apresenta desenhos de vários “Vermes espermáticos” observados em diferentes gotas de sémen, incluindo sémen de galo, de lagarto, de boi, e de humano (que o autor explica ser o seu próprio, obtido “por vias absolutamente naturais”). Estes “animálculos”, aparentemente, estão presentes no sémen de todos os animais, podendo variar a configuração das cabeças mas mantendo sempre o mesmo aspecto vermiforme e as longas caudas, sempre em movimento.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A descoberta do espermatozóide levantou aos preformacionistas uma possibilidade aliciante: por que não mudar o género do portador das linhagens? Por que não considerar que Deus, ao criar o homem, encaixara toda a sua descendência no testículo de Adão, e não no ovário de Eva? Sendo à época a mulher ainda um ser humano considerado de papel secundário e subserviente, esta escolha de Deus parecia ainda mais correcta, e certamente melhor ponderada. Foi assim que apareceram os hoje chamados “espermistas”, que na época se referiam a si próprios como animalculistas: os que defendiam que era dentro da cabeça do “verme seminal” que Deus encaixara toda a progenia de todas as espécies, do princípio ao fim dos tempos. O ovo, neste caso, teria apenas o papel da terra fértil onde se implanta à semente, fornecendo à criatura miniatural que lá entrasse as condições de nutrição e protecção que lhe permitiriam crescer até nascer.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Devido às suas características extremamente curiosas e divertidas, incluindo o seu movimento constante e o seu aspecto de pequeno ser vivo, os espermatozóides foram à época extremamente observados e largamente debatidos, partindo-se sempre do princípio de que constituíam verdadeiros animais. Assim, foram publicadas ilustrações de espermatozóides a dormir, espermatozóides a copular, espermatozóides a nascerem de ovos, sistemas circulatórios, bolbos cefálicos, e até o desenvolvimento do seu tubo digestivo com todos os pormenores.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dentro deste contexto, não é de admirar que um colega dado a partidas tenha tentado enganar outro. O geógrafo francês François de Plantade, Dalenpatius na literatura, mandou a Leeuwenhoek um desenho das pequeninas criaturas humanas que garantia ter visto dentro do espermatozóide humano, já completamente vestidas, com barbas, chapéu e botas, afirmando que descobrira o fenómeno quando “um deles” nadara até ao cimo da gota e despira a pele que o envolvia., numa analogia nítida com os fenómenos da metamorfose dos insectos. Leeuwenhoek, claro, não se deixou enganar: mandou o desenho para a Royal Society como a brincadeira que era, aproveitando por criticar Dalenpatius pela sua descrição errónea do sistema circulatório do espermatozóide, e chamando a atenção para os erros em que podemos incorrer quando tiramos ilações demasiado apressadas das nossas observações.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No entanto, a semente da ideia mais apelativa de todas ficara plantada: alguma vez conseguiríamos observar o homenzinho minúsculo que estaria dentro do espermatozóide humano? O desenho mais famoso que reflecte este anseio é da autoria de outro microscopista holandês, Nicolas Hartsoeker, e figura das últimas páginas do seu monumental Traité de Dioptrique, sobre as possibilidades das lentes telescópicas e microscópicas. O famoso espermatozóide de Hartsoeker, ao contrário dosa de Dalenpatius, tem a cauda bem proporcionada em relação ao tamanho da cabeça. E, dentro da cabeça, uma posição fetal, uma criança com a cabeça ainda muito grande aguarda a sua vez de ser chamada à existência. Ao contrário do que afirmam alguns estudiosos apressados, Hartsoeker nunca afirmou ter observado semelhante criatura: escreveu apenas, ao lado da figura, que era muito provável que, com melhores microscópicas, uma observação semelhante àquela se tornasse possível.</p>
<p style="text-align: center;">
	<img alt="" height="1705" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000056-8ded08ee7e/Homunculus.jpg" style="width: 283px; height: 545px;" width="901" /></p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No entanto, passadas as primeiras décadas de euforia espermista, a teoria começou a cair em desgraça, muito mais depressa que o ovismo. Nesta decadência acelerada, há vários factores que se conjugam.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em primeiro lugar, os números desencadeados pelo espermismo são incompatíveis com a matemática do século XVII. Há milhares de espermatozóides em cada ejaculado, todos eles muito pequenos, e todos eles, supostamente, com as gerações que nascerão e viverão até ao fim dos tempos encaixadas na cabeça. O tamanho destas criaturinhas torna-se rapidamente insuportavelmente pequeno, mesmo não se considerando um limite inferior de tamanho para a organização da vida. A certa altura, Hartsoeker decide fazer um cálculo interessante: que tamanho teriam os coelhos que estão agora vivos na Holanda quando estavam encaixados dentro do primeiro coelho que Deus criou? As suas contas, tendo em conta a pequenez do espermatozóide e a velocidade a que se reproduzem os coelhos, levaram-no a que hoje, em matemática da segunda metade do século XX, se chama um “número impossível” ou um “googol”: valores que expressam fracções de valores tão díspares como o tamanho do electrão comparado com o tamanho do universo. Isto, para o século XVII, era pensar o impensável. Atormentado, Hartsoeker escreveu uma frase lindíssima, digna de figurar em qualquer colectânea de citações sobre as aflições do investigador:</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “J'aimerais bienm étudier la réporoduction, mais qu'est-ce que l'on peut faire d'une chose qui est envelopée de ténèbres si épaisses?”</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Com estas palavras, desistiu de endossar o espermismo, deixou de acreditar na preformação, e nunca mais quis fazer observações microscópicas.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O segundo grande problema do espermismo era exactamente o da natureza animal que os seus progenitores tinham tomado como certa para o veículo das gerações encaixadas. Eles próprios se referiam ao espermatozóide como “verme espermático”. O termo “espermatozóide” só foi cunhado por van Baer no século XIX, quando se conhecia consensualmente a identidade deste “bicho” como uma célula, e no entanto a associação ao parasita seminal persiste: “espermatozóide” significa qualquer coisa como “animal no sémen”. Agora, estaria a sociedade do primeiro tempo da microscopia pronta para admitir que provinha de um verme? Recordemos que, no século XIX, Charles Darwin provocou um estremecimento tremendo nos pilares da religião e da organização social do seu tempo ao ousar sugerir que o homem descende do macaco. Agora imaginemos, dois séculos antes, ter que admitir que o homem descende do verme. O mesmo verme que nos come depois de mortos, ainda por cima. “Oh que triste metamorfose”, escreveu um comentador da época. E a resistência à nossa origem vermífuga ficou largamente registada em panfletos, ensaios, discursos, cartas e sermões.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O terceiro factor foi provavelmente o mais devastador de todos, porque as suas implicações éticas e morais eram extremamente complexas para uma sociedade inquestionadamente cristã. Se existiam milhares de espermatozóides num ejaculado humano, mas se só um conseguia penetrar no ovo (pois que só nascia uma criança de cada vez, no máximo duas), o que é que acontecia a todos os infelizes que não tinham para onde ir crescer e alimentar-se, todos eles já seres humanos em miniatura, todos eles, portanto, com alma? Por que razão havia Deus de criar milhares de seres humanos para depois os matar antes mesmo de nascerem? Não fora este mesmo Deus quem castigara Onan logo no início do Livro do Génesis pelo grave pecado do desperdício da semente? E, afinal, para cada geração, admitia a ocorrência de um verdadeiro massacre de inocentes? É evidente que os espermistas estiveram debaixo de fogo cerrado para resolverem este problema, porque todos eles se pronunciam a este respeito. Alguns, como Leeuwenhoek, tentam desdramatizar a comoção recordando-nos que a Natureza é pródiga em tudo o que faz, e também cria centenas de sementes nas maçãs para delas, se tanto, nascer uma nova macieira. O problema é que as maçãs não têm alma. Hartsoeker tenta descrever um cenário em que todos os animálculos que não conseguissem entrar no ovo perderiam os seus revestimentos externos, tornando-se extremamente leves e quase incorpóreos, flutuando depois no ar até conseguirem voltar a entrar para dentro do corpo de um animal da sua espécie. Se fosse um macho, desceriam até aos testículos, recuperariam os seus revestimentos, e tentariam uma nova oportunidade. Se fosse uma fêmea, voltavam a abandonar o organismo por qualquer orifício acessível. Nalguns casos podiam confundir-se sobre o género que os albergava, resultando daqui o nascimento de hermafroditas. Outros autores congeminam cenários semelhantes, uns mais criativos do que outros, mas todos vocacionados para tranquilizar as hostes com a garantia de que não há qualquer espécie de massacre de inocentes. Claro que nenhuma destas explicações foi particularmente bem-sucedida, e o espermismo começou rapidamente a perder a adesão.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p>
	Texto de<strong> Clara Pinto Correia.</strong></p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[As Caixas Wardianas]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/as-caixas-wardianas1/</link>
         <description><![CDATA[
	
		


	
		
			
				Exemplos de Caixas Wardianas
			
				Crédito: Wikipédia
			
				&nbsp;
			
				As Caixas Wardianas são o antecedente do terrário moderno, e a inspiração óbvia para o aquário de vidro para todos os tipos de peixes – na realidade, mais ainda, para os peixes lindíssimos dos recifes de coral das praias tropicais, membros de um ecossistema impossível de reproduzir na Europa. O objecto foi inventado pelo dr. Nathaniel Bagshow Ward, em Londres, por volta de 1829 – depois de ter...]]></description>
         <pubDate>Wed, 27 Jun 2012 20:38:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<div class="boxTitle">
	<h1 style="text-align: center;">
		<a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/53/Wardian_cases.jpg"><font color="#919192" size="2"><img alt="File:Wardian cases.jpg" height="421" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/53/Wardian_cases.jpg" style="width: 260px; height: 374px;" width="300" /></font></a></h1>
</div>
<div class="boxContent">
	<div class="contentBox">
		<div class="articleDetail">
			<p style="text-align: center;">
				Exemplos de Caixas Wardianas</p>
			<p style="text-align: center;">
				<strong>Crédito</strong>: Wikipédia</p>
			<p>
				&nbsp;</p>
			<p>
				As Caixas Wardianas são o antecedente do terrário moderno, e a inspiração óbvia para o aquário de vidro para todos os tipos de peixes – na realidade, mais ainda, para os peixes lindíssimos dos recifes de coral das praias tropicais, membros de um ecossistema impossível de reproduzir na Europa. O objecto foi inventado pelo dr. Nathaniel Bagshow Ward, em Londres, por volta de 1829 – depois de ter sido inspirado por um acidente absolutamente fortuito.</p>
			<p>
				&nbsp;</p>
			<p style="text-align: center;">
				<a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b1/Nathaniel_Bagshaw_Ward_1866.jpg"><img alt="File:Nathaniel Bagshaw Ward 1866.jpg" height="465" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b1/Nathaniel_Bagshaw_Ward_1866.jpg" style="width: 246px; height: 404px;" width="300" /></a></p>
			<p style="text-align: center;">
				Dr. Nathaniel Bagshow Ward</p>
			<p style="text-align: center;">
				<strong>Crédito</strong>: Wikipédia</p>
			<p>
				&nbsp;</p>
			<p>
				Este dr. Ward era um médico com uma grande paixão por botânica. O seu próprio herbário, totalmente recolhido, alisado, seco e prensado por ele, chegava a cerca de 25.000 espécies. Os fetos do seu jardim, no entanto, estavam a ser sufocados pelo smog de Londres da revolução industrial, que consistia sobretudo em fumo de carvão e em ácido sulfúrico. Notou logo que, em contraste com os seus fetos grandes que pereciam no jardim, nas caixas plantas estavam a germinar esporos de novos fetos numa resposta de crescimento visível e relevante, numa porção mínima se solo. Deu instruções a um carpinteiro para lhe construir uma caixa de madeira para fetos, bem apertada e bem selada – e descobriu que aqui os fetos cresciam e davam esplêndidos sinais de saúde.</p>
			<p style="text-align: center;">
				&nbsp;</p>
			<p>
				Não tardou até que as caixas Wardianas se tornassem decorações obrigatórias nos escritórios da classe alta, tanto na Europa com nos Estados Unidos. Foi graças a elas que se popularizou a moda generalizada do cultivo de fetos exóticos – e, logo a seguir, o cultivo ainda mais complexo de orquídeas tropicais.</p>
			<p>
				&nbsp;</p>
			<p>
				Mais importante ainda, as caixas Wardianas deram um impulso sem precedentes, uma verdadeira revolução, na mobilidade das plantas de importância comercial. Foi, por exemplo, em caixas Wardianas que Robert Fortune sonegou para a Índia Inglesa vinte mil pés de chá vindos de Shangai, para iniciar as plantações de chá de Assam. Depois da sua germinação em estufa, brotos de árvore de borracha do Brasil foram exportados com sucesso em caixas Wardianas para o Sri Lanka e para os novos territórios ingleses na Malásia para iniciar plantações colossais de árvores de borracha. Há, pois, que dar-lhes o crédito de terem contribuído para o fim dos monopólios geográficos na produção de bens de importância agrícola.</p>
			<p>
				&nbsp;</p>
			<p>
				O interesse de Ward pelas áreas que o fizeram deixar o seu nome na história é visível no número de sociedades que frequentou. Era um membro activo da Sociedade de Boticários de Londres, da qual se tornou bastonário em 1854. Até ao início do século 2000, era esta Sociedade que administrava o Chelsea Physic Garden, em Londres, o jardim botânico mais antigo do Reino Unido. Além disso, Ward foi um dos membros fundadores tanto da Sociedade Botânica de Edinburgo como da Royal Microscopic Society, bem como membro da Linnean Society e da da Royal Society.</p>
			<p>
				&nbsp;</p>
			<p>
				Texto de<strong> Clara Pinto Correia.</strong></p>
		</div>
	</div>
</div>
<p>
	&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Sociedades Científicas]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/sociedades-cientificas/</link>
         <description><![CDATA[
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;

	&nbsp;

	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Trânsito natural dos mestres e discípulos, ou do ambiente dos sábios das cortes, experimentado durante a Renascença, transitando para todos os cidadãos, logo a partir do século XVII. Grupos com dois ou três profissionais, maioritariamente professores universitários, e números entusiásticos de amadores. A tendência agudiza-se na sequência da Revolução Americana, com a noção de que faz parte do bom exercício da cidadania conhecer bem...]]></description>
         <pubDate>Wed, 06 Jun 2012 19:17:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<span comic="" sans="" style="font-family: ;"><o:p><img height="428" src="http://www.madrimasd.org/blogs/universo/wp-content/blogs.dir/42/files/159/o_Royal%20Soc.%20Of%20London1.jpg" style="width: 415px; height: 357px;" width="454" /></o:p></span></p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Trânsito natural dos mestres e discípulos, ou do ambiente dos sábios das cortes, experimentado durante a Renascença, transitando para todos os cidadãos, logo a partir do século XVII. Grupos com dois ou três profissionais, maioritariamente professores universitários, e números entusiásticos de amadores. A tendência agudiza-se na sequência da Revolução Americana, com a noção de que faz parte do bom exercício da cidadania conhecer bem as riquezas e recursos naturais do país – juntamente com a sua divulgação junto dos que não conhecem tais maravilhas. A mesma tendência, pelas mesmas razões, cresce na Europa do século XIX depois da Revolução Francesa, com o ênfase adicional posto no louvor aos benefícios da ciência.</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Muitos dos amadores que integravam estas sociedades pertenciam ao clero, como o Reverendo William Gregor, que descobriu o novo elemento Titânio numa areia preta que existia na sua própria paróquia; ou Gilbert White, cujo <em>Natural History of Selbourne</em> inspirou gerações e gerações de naturalistas – tal como, no século XVII, <em>o l’homme</em> de René Descartes já tinha inspirado o padre Malebranche para estudar durante cinco anos até redigir o seu colossal <em>À la Recherche de la Vérité</em>,; ou o <em>Spectacle de la Nature</em>, do Abbé Pluche, tinha inspirado Charles Bonnet para dedicar toda a sua vida ao estudo da natureza.</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O que é que, em traços largos, podemos dizer que caracteriza os membros destas sociedades? Há um poder especial para observar e recordar detalhes, uma memória particular para os lugares, aliados a um amor, um sentimento lírico da natureza, que são característicos do tipo de mente destes naturalistas. Por volta de 1830 dizia-se de William Smith, alcunhado carinhosamente de &nbsp;“pai da geologia”, que, mesmo já numa idade avançada, a sua “memória para locais era tão exacta que foi muitas vezes, ao fim de vários anos, directamente de volta a um qualquer recanto natural para recuperar os seus fósseis”. Acontece o mesmo com Tom Morgan – um membro de American Fern Society ainda vivo, nos seus setenta e muitos anos, que é descrito pelos colegas estupefactos como recordando-se &nbsp;de cada feto significativo que alguma vez viu -- e lembra-se não só da planta, mas também da sua localização.</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Note-se, ainda, em benefício deste tipo de sociedades que sobreviveram até hoje e estão de óptima saúde, que tanto os cometas como as supernovas são frequentemente vistos pela primeira vez por astrónomos amadores (um deles, um pastor protestante australiano, que usava apenas um pequeno telescópio mas tinha a tal qualidade de naturalista: era capaz de recordar a localização exacta de cada supernova -- fez um estudo único da incidência de supernovas em mil galáxias). Os amadores são vitais em mineralogia – independentes de bolsas ou de apoio profissional, chegam a lugares que os profissionais podem não atingir e descrevem todos os anos novas espécies de minerais. Acontece o mesmo na caça aos fósseis e na observação de aves. Em todas estas áreas, o crucial não é necessariamente o treino académico mas antes o olho do naturalista, que vem de uma qualquer combinação de disposição endógena, biofilia, experiência e paixão. Os amadores, no melhor dos sentidos, têm exactamente isto – uma paixão, um amor pelo seu objecto de estudo, e a experiência acumulada, frequentemente de uma vida inteira, de observações intensas no campo.</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	Texto de <strong>Clara Pinto Correia</strong>.</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Alucinogénios]]></title>
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	&nbsp;

	Há bastante literatura produzida sobre esta temática, por etnobotânicos, químicos e neurologistas de créditos mais que firmados, mas o que importa aqui reter é que todos esses autores descrevem, basicamente, um ponto comum e incontornável: &nbsp;como cada cultura do mundo descobriu plantas com poderes alucinogénicos ou intoxicantes, muitas vezes vistas como sobrenaturais ou divinas. O Velho Mundo, por exemplo, não sabia nada sobre as poderosas drogas alucinogénicas da América...]]></description>
         <pubDate>Tue, 22 May 2012 00:34:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
	<img height="639" id="il_fi" src="http://www.geocities.ws/tiagohi/gifs/g066.jpg" style="width: 286px; height: 394px; padding-top: 8px; padding-right: 8px; padding-bottom: 8px;" width="418" /></p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	Há bastante literatura produzida sobre esta temática, por etnobotânicos, químicos e neurologistas de créditos mais que firmados, mas o que importa aqui reter é que todos esses autores descrevem, basicamente, um ponto comum e incontornável: &nbsp;como cada cultura do mundo descobriu plantas com poderes alucinogénicos ou intoxicantes, muitas vezes vistas como sobrenaturais ou divinas. O Velho Mundo, por exemplo, não sabia nada sobre as poderosas drogas alucinogénicas da América Central – o&nbsp; <em>ololiuhqui</em> (a que os espanhóis chamaram <em>semilla de la Virgen</em>, semente da Virgem); o cogumelo psilocibíneo sagrado, <em>teonanacatl,</em> a carne de Deus (os seus constituintes activos também são derivados do ácido lisérgico, geralmente conhecido pelas iniciais LSD); e, no Norte do México, sobrepondo-se com o Sul dos Estados Unidos, os botões do cacto peyotl, às vezes chamados botões mescal (embora não tenham nada a ver com o mescal, a aguardente que se destila do agave).</p>
<p>
	Há produtos alucinogénicos Sul Americanos ainda mais exóticos como a <em>ayahuasca </em>(a vinha da alma), feita com a vinha da Amazónia <em>Banisteriopsis caapí</em>, que William Burroughs e Allen Ginsberg descrevem em <em>The Yage Letters</em>; e os produtos ricos em triptamina – Virola, yopo, cojoba , todos com ingredientes &nbsp;quimicamente idênticos, e &nbsp;estruturalmente muito próximos do neurotransmissor designado por serotonina. Os padrões geométricos das decorações dos lugares sagrados de um grande número de culturas apresentam uma semelhança espantosa com as formas descritas para as enxaquecas extremas, iguais às das resultantes da ingestão de um grande número de indutores de estados alterados de consciência.</p>
<p>
	Curiosamente, o trabalho dos arqueólogos mostra-nos que, na sua grande maioria, estas substâncias são consumidas pelos humanos, de forma ritual ou aleatória (em muitos casos é difícil de dizer) desde os tempos pré-históricos. Terá sido por acidente? Ou antes por tentativa e erro, na nossa tentativa constante de nos superarmos a nós próprios, mesmo quando ainda estamos dentro de umas cavernas inóspitas, (sem grandes defesas contra o exterior?). E por que é que plantas tão botanicamente diferentes convergirem, por assim dizer, para compostos tão similares, e que papel desempenham estes compostos na vida da planta – serão meros produtos secundários do metabolismo (como o índigo que se encontra em tantas plantas); ou serão usados (como a estricnina, ou outros alcalóides amargos) para deter predadores venenosos; ou desempenharão papeis essenciais nas próprias plantas?</p>
<p>
	Deus lá sabe.</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	Texto de <strong>Clara Pinto Correia</strong>.</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[Peter Mitchell da Teoria Quimiosmótica? Sim e também de algumas excentricidades ...]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/peter-mitchell-da-teoria-quimiosmotica-/</link>
         <description><![CDATA[
	&nbsp;

	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;

	“A mente humana é como um jardim onde são plantados factos e ideias e que passamos o tempo a rearranjar...”, Peter Mitchell

	&nbsp;

	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Andando para trás no tempo duas décadas e uns pozinhos, vejo-me sentada num anfiteatro a estrear mas já padecendo de alguns problemas genéticos, num edifício com C baptizado e hoje a precisar de cuidados geriátricos, ali para os lados do Campo Grande de...]]></description>
         <pubDate>Sat, 31 Mar 2012 13:53:00 +0200</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://cienciapatodos.webnode.pt/news/peter-mitchell-da-teoria-quimiosmotica-/</guid>
         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre História e Filosofia da Ciência]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p style="margin-left: 219.75pt;">
	&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">
	<img alt="" height="400" src="http://files.cienciapatodos.webnode.pt/200000042-92e4d93df1/Peter Mitchell.png" style="width: 241px; height: 308px;" width="309" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">
	<em>“A mente humana é como um jardim onde são plantados factos e ideias e que passamos o tempo a rearranjar...”, </em>Peter Mitchell</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Andando para trás no tempo duas décadas e uns pozinhos, vejo-me sentada num anfiteatro a estrear mas já padecendo de alguns problemas genéticos, num edifício com C baptizado e hoje a precisar de cuidados geriátricos, ali para os lados do Campo Grande de uma grande cidade. Coordenadas - Curso de Biologia, ramo de Investigação, cadeira de Bioenergética, Professor Daniel Arrabaça, pessoa que se por um lado me intimidava com o seu modo ríspido de (<em>inter</em>)agir, por outro me encantava com estórias e histórias tão fluidas, quanto as membranas ao longo das quais electrões saltitam os degraus de uma escada energética, permitindo, deste modo, que protões atravessando-as num único sentido, se acumulem de um só lado e sendo muitos, unem forças e energia e com elas fazem “luz”, que neste caso é como quem diz, ATP. Grandes exemplos estas membranas! Adiante. E quando já o tinha colocado no topo de um altar com velinhas acesas tal era a minha adoração por tais momentos, eis que um dia tem a ousadia de contar que trabalhara com o Prémio Nobel Peter Mitchell, pai da Teoria Quimiosmótica, aquela fascinante dos saltinhos e atravessamentos de que falei ali em cima. Pronto! Não se faz! Uma coisa é privarmos com alguém que olhamos de baixo porque o colocamos num plano onde a terra acaba, outra, muito diferente, será termos que distender o pescoço porque ascendeu ao nível onde começa o céu. Ora vamos lá mudar de assunto que desse dia em que me vejo, não quero falar.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Peter Mitchell nasceu em 1920 em Surrey, Inglaterra e sempre estudou em colégios como convém a famílias endinheiradas. Em Queens College caiu na graça do Director C.J. Wiseman, (há nomes premonitórios...) reconhecido professor de matemática e talentoso músico amador, cuja credibilidade muito lhe valeu mais tarde quando quis entrar na universidade em Cambridge e o resultado do seu exame de admissão se revelou um episódio para esquecer. Enquanto a guerra acontece por essa Europa fora, fecha-se no local de estudo e trabalho onde chega todos os dias extravagante no seu Rolls Royce, com o cabelo pelos ombros, jaqueta roxa e camisa aberta até ao umbigo. Depois de ver a sua primeira dissertação rejeitada por “demasiada originalidade”, em 1951 termina o doutoramento com J.F. Danielli (aquele senhor do modelo da membrana com as proteínas espalmadas entre duas paredes de lípidos), no qual estudou os mecanismos de acção da penicilina descoberta vinte anos antes, uns 100 Km a sul. Transita, por convite, de monitor no Department of Biochemistry em Cambridge para director da Chemical Biology Unit na Universidade de Edinburgh onde continua o seu percurso académico.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pessoa de visão abrangente, tem para além da ciência muitos interesses que vão desde a família, à arquitectura e restauro, à música, à filosofia e à história do pensamento. É natural que por isto mesmo, Mitchell esteja interessado não só na ciência em si, mas em todo o mecanismo da descoberta científica como um processo criativo e de triagem de informação. Nas suas próprias palavras “o problema da maioria dos cientistas não é tanto a falta de boas memórias, mas sim o não terem bons esquecimentos”.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em 1961, num fabuloso exercício de abstracção e mudança do paradigma, que defendia com unhas e dentes a existência de um composto intermédio altamente energético não fosforilado, põe a hipótese do acoplamento energético (o fluxo de electrões através de uma cadeia transportadora de moléculas localizada numa membrana, bombeia, de modo unidireccional, protões através da mesma gerando um potencial electroquímico -força protomotriz- e é o desfazer deste gradiente que permite a síntese de ATP) alicerçada numa série de postulados a validar. Esta abordagem holística da Biologia é controversa, envolve conceitos teóricos muito à frente das evidências experimentais possíveis na altura e abala o modo de pensar instituído em relação a tópicos como: conservação de energia, transporte de metabolitos, estrutura e função das membranas, homeostasia, evolução da célula eucariota, entre outros, bem como todos os aspectos da vida em que estes processos têm lugar. Segundo o seu antigo colega em Cambridge, Leslie Orgel, “...desde Darwin e Wallace que a Biologia não apresentava uma ideia tão contra-intuitiva como as de Einstein, Heisenberg e Schroedinger.” E é por isso natural que a sua visão tenha sido completamente negligenciada pelos seus pares durante anos, o que o leva a alimentar as suas convicções com bastante angústia, recursos financeiros pessoais, noitadas frequentes e uns copos para além da conta. Consta, de fonte fidedigna que eu cá sei, que entre as tarefas dos seus colaboradores mais jovens, estava incluída uma ronda aos <em>pubs</em> da área sempre que o seu atraso passava o limiar estipulado.&nbsp; Mas não há almoços grátis, e entre 1963 e 1965 problemas gástricos agudos afastam-no por completo da investigação. Quis o destino que quando por conselho médico procurava uma casa a sul onde pudesse recuperar, tivesse tropeçado em Cornwell numa mansão em ruínas pela qual fez uma oferta ridícula. E é assim que quase sem saber como, se vê mestre das obras de recuperação e nasce a Glynn House onde adapta a ala oeste para investigação juntamente com antiga colega Jennifer Moyle com quem cria um grupo muito restrito de quatro elementos, já a contar com a secretária. E é também assim que é fundado o Glynn Research Institute dedicado à investigação fundamental em Biologia, o famoso local de concepção da Teoria Quimiosmótica que lhe valeu o prémio Nobel da Química em 1978 pela “contribuição para o esclarecimento da transferência de energia biológica”, para muitos a segunda maior descoberta da Biologia do século XX, logo após da estrutura do DNA.</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Após a sua morte em 1992, Helen Mitchell sua segunda mulher, inspirada na entrevista que deu à BBC e que denominou “<em>Gardens of the Mind</em>”, criou um jardim em Glynn em sua homenagem onde se pode ler “<em>Remembering Peter Mitchell in whose gardens of the mind we wonder in joy and gratitude</em>“ .</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quando nas minhas aulas conto esta história aos alunos e digo que o meu professor de Bioenergética trabalhou com o laureado Nobel Peter Mitchell também tenho o meu impacto. É certo que não me olham de baixo nem começam a hiper-ventilar, mas fixam-me de olhinhos mais abertos e quer-me cá parecer que até esboçam um sorriso.&nbsp; Se calhar para a próxima sou capaz que completar o ramalhete com “e consegui 19 a Bioenergética que tive que defender numa oral”. É. Vou pensar nisso...</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	<strong>Alexandra Nobre </strong>(texto publicado no "De Rerum Natura", a&nbsp;31 de&nbsp;Janeiro de 2012)</p>
<p>
	Versão original em: <a href="http://dererummundi.blogspot.pt/2012/01/peter-mitchell-da-teoria-quimiosmotica.html">http://dererummundi.blogspot.pt/2012/01/peter-mitchell-da-teoria-quimiosmotica.html</a></p>
<p>
	&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
   </channel>
</rss>