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      <title><![CDATA[Textos de divulgação sobre Química - cienciapatodos.webnode.pt]]></title>
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      <language>pt</language>
      <pubDate>Mon, 02 Nov 2015 23:17:00 +0200</pubDate>
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      <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre Química]]></category>
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         <title><![CDATA[Início do Outono na Serra da Estrela]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/inicio-do-outono-na-serra-da-estrela/</link>
         <description><![CDATA[&nbsp;

&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos os anos, no início do Outono, os prados irregulares da quinta que a família da minha mulher tem em Videmonte, na Serra da Estela, se cobrem de flores lilás e cogumelos de várias cores. É sempre um prazer voltar lá nessa altura e este ano não foi diferente. Fiz algumas fotografias de amanitas-das-moscas, fradelhos e de outros cogumelos que não identifiquei, e, claro, também das flores lilás.

&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este ano havia muitos amanita das-moscas que...]]></description>
         <pubDate>Mon, 02 Nov 2015 23:17:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre Química]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><img width="338" height="255" src="https://images-blogger-opensocial.googleusercontent.com/gadgets/proxy?url=http%3A%2F%2F4.bp.blogspot.com%2F-jdlYmmZw69s%2FVFgjUQQDo-I%2FAAAAAAAABWg%2FnimiSWphpUc%2Fs1600%2FDSCF3035.JPG&amp;container=blogger&amp;gadget=a&amp;rewriteMime=image%2F*" border="0"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos os anos, no início do Outono, os prados irregulares da quinta que a família da minha mulher tem em Videmonte, na Serra da Estela, se cobrem de flores lilás e cogumelos de várias cores. É sempre um prazer voltar lá nessa altura e este ano não foi diferente. Fiz algumas fotografias de amanitas-das-moscas, fradelhos e de outros cogumelos que não identifiquei, e, claro, também das flores lilás.<br>
<br>
&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este ano havia muitos amanita das-moscas que são o ícone por excelência dos cogumelos venenosos. No entanto, embora sejam tóxicos e possuam, como é bem conhecido da literatura, propriedades alucinogénias, as intoxicações mortais com esta espécie de cogumelos são felizmente pouco comuns, ao contrário das intoxicações com amanita-falóides (um cogumelo mortal mas muito mais discreto) que quase todos os anos causam vítimas. Estes últimos têm amatoxinas que são péptidos cíclicos muito venenosos que provocam lesões irreversíveis no fígado, enquanto que os amanitas-das-moscas têm compostos bioactivos não péptidicos como o muscimol e pequenas quantidades de muscarina.<br>
<br>
&nbsp;&nbsp;&nbsp; No livro de Dorothy Sayers, <em>O Enigma dos Cogumelos Venenosos</em>, é este último composto que é identificado como responsável pelo crime. Verificou-se depois que o veneno não poderia vir dos cogumelos pois foi detectada uma mistura de isómeros ópticos (compostos com a mesma fórmula que são a imagem no espelho uns dos outros) que não existem naturalmente. Logo só poderiam ter sido obtidos de forma sintética, ou seja produzidos num laboratório. Este aspecto da trama é especialmente interessante porque na altura em que foi escrito o livro não havia ainda sido realizada a síntese da muscarina!<br>
<br>
&nbsp;&nbsp;&nbsp; No capítulo dos venenos do livro <em>Jardins de Cristais</em> refiro estes dois aspectos, mas acabei por não referir dois outros. O primeiro é trivial: a estrutura da muscarina que aparece no livro de Sayers está errada pois baseou-se num trabalho em que esta foi determinada de forma incorrecta. O segundo é mais importante e contribui para a complexidade da trama: o cogumelo amanita-das-moscas possui muscarina em pequena quantidade e por isso dificilmente seria responsável pelo envenenamento com este composto. Existem, no entanto outros cogumelos, muito mais discretos e venenosos e que possuem muscarina em maior quantidade. E, se o especialista em cogumelos que foi envenenando dificilmente se enganaria a identificar o amanita-das-moscas, poderia acontecer que se tivesse enganado com esses.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><img width="351" height="264" id="6y9lsp4" src="https://images-blogger-opensocial.googleusercontent.com/gadgets/proxy?url=http%3A%2F%2F4.bp.blogspot.com%2F-6sDW6A2KLY0%2FVFgkI8HexSI%2FAAAAAAAABWo%2F7ygEyqfESs8%2Fs1600%2FDSCF3007.JPG&amp;container=blogger&amp;gadget=a&amp;rewriteMime=image%2F*" border="0"></p>
<p style="text-align: justify;"><br>
&nbsp;&nbsp;&nbsp; Já sobre as flores lilás, estava completamente enganado acerca do nome e estava muito longe de suspeitar da sua química e história. No entanto, hoje mesmo, ao ler o livro do médico Mário Viana de Queiroz, <em>Reumatologia, Literatura e Arte</em>, fez-se luz! Referia este autor, citando um artigo sobre Shakespeare e a reumatologia, o qual é ilustrado com versos do poeta, que no tempo de Shakespeare <em>a colchicina não tinha ainda sido redescoberta </em>[1]. De facto, só dois anos depois da morte do poeta e apenas durante duas décadas esta planta foi referida na Farmacopeia Britânica, desaparecendo depois durante 150 anos, quando era bem conhecida de tratados anteriores [2].<br>
<br>
&nbsp;&nbsp;&nbsp; A colchicina é uma molécula usada desde antiguidade até à actualidade para aliviar o sofrimento causado pela gota e, adivinhem onde é que esta molécula pode ser encontrada? Nestas plantas, <em>Colchicum sp.</em>, conhecidas como açafrão de outono. Estas plantas têm bolbos relativamente grandes e são, naturalmente, tóxicas, mas nas quantidades adequadas ainda hoje a colchicina é usada para o tratamento da gota.<br>
<br>
&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sem a química não teria sido possível identificar as estruturas das moléculas referidas e fazer a sua síntese. Dada a toxicidade da colchicina, as quantidades desta molécula presentes nos comprimidos devem ser controladas e não depender apenas de preparações tradicionais. Em muitos casos a gota resulta de alimentação incorrecta, mas noutros, como no caso do médico e Nobel Egas Moniz, pode resultar de uma deficiência bioquímica congénita ou adquirida. Além da gota, existem mais de cem doenças reumáticas desde a fibromialgia até ao lupus, passando pela artrite reumatóide, a osteoartrite e a tendinite [3]. Estas dores e doenças acompanham a humanidade desde tempos imemoriais, mas hoje sabermos diagnosticá-las e tratá-las um pouco melhor. E a química continua a ter um papel importante na procura de novos analgésicos, anti-inflamatórios e materiais biocompatíveis para minorar problemas com as articulações. Sem a química, a humanidade pouco mais tinha avançado do que roer bolbos de açafrão de outono, rilhar cascas de salgueiro e sofrer resignada.</p>
<p style="text-align: justify;"><br>
[1] GEORGE E. EHRLICH, Ann. Rheum. Dis.(1967), 26, 562 (acedido 3/11/2104)<br>
[2] EDWARD F. HARTUNG, Ann. Rheum. Dis.(1954) 13, 190 (acedido 3/11/2104)<br>
[3]&nbsp; NIAMS Questions and Answers about Arthritis and Rheumatic Diseases (acedido 3/11/2104)</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p align="left">&nbsp;<p><strong>Sérgio Rodrigues </strong>(Professor de Química na U. de Coimbra e colaborador do CcT)</p><p><br></p><p>Versão original em: <a href="http://percursosquimicos.blogspot.pt/2014/11/inicio-do-outono-na-serra-da-estrela.html">http://percursosquimicos.blogspot.pt/2014/11/inicio-do-outono-na-serra-da-estrela.html</a></p></p>
<p align="left">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[ Na praia à beira mar]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/na-praia-a-beira-mar/</link>
         <description><![CDATA[&nbsp;
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&nbsp;
&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto passeamos na praia admiremos a química que podemos&nbsp; encontrar à beira mar. A areia dourada é essencialmente sílica e a cor amarelada é devido à presença de óxidos de ferro. Já a cor mais escura&nbsp; da areia molhada e o branco da espuma das ondas resultam da difusão da luz. No caso da espuma, a difusão de todos os comprimentos de onda&nbsp;origina a cor branca como acontece com o leite e outros materiais&nbsp;coloidais. Na areia molhada,...]]></description>
         <pubDate>Sat, 17 Oct 2015 21:12:00 +0200</pubDate>
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         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre Química]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p align="center">&nbsp;<img height="1199" id="tmxvglg" src="http://2.bp.blogspot.com/-Htet_bshGMM/Thy_tJ8j4QI/AAAAAAAAA88/zhH79T6V2AQ/s1600/praia2.jpg" style="height: 342px;" width="413"></p>
<p align="center">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto passeamos na praia admiremos a química que podemos&nbsp; encontrar à beira mar. A areia dourada é essencialmente sílica e a cor amarelada é devido à presença de óxidos de ferro. Já a cor mais escura&nbsp; da areia molhada e o branco da espuma das ondas resultam da difusão da luz. No caso da espuma, a difusão de todos os comprimentos de onda&nbsp;origina a cor branca como acontece com o leite e outros materiais&nbsp;coloidais. Na areia molhada, como há água em vez de ar entre os grãos de areia, a luz é difundida preferencialmente no sentido da sua&nbsp; incidência, originando uma&nbsp; maior atenuação da luz. E a areia grossa&nbsp; parece mais escura pois a luz tem maior probabilidade de ser absorvida&nbsp; durante a sua difusão.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp; A areia molhada poder ser moldada em&nbsp; castelos é uma manifestação das ligações de hidrogénio: as forças de&nbsp; atracção entre a sílica e as moléculas de água mantêm os grãos de areia&nbsp; unidos. Por esta e outras razões, a água é um líquido especial e&nbsp; fundamental para a vida que, com o calor intenso, é necessário beber em&nbsp; maior quantidade, especialmente as crianças e os idosos. A água do mar&nbsp; tem, para além de cloreto de sódio, vários outros sais dissolvidos que a tornam mais densa, sendo por isso mais fácil flutuar nela. Mas como tem uma percentagem de sais de cerca de 3.5%, enquanto os nossos fluidos corporais têm uma percentagem de cerca de 0.9%, beber água do mar&nbsp;aumentaria a concentração de sais no sangue, causando grandes problemas.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tenhamos cuidado com o sol. A absorção da radiação ultravioleta que consegue&nbsp; atravessar a camada de ozono, ao mesmo tempo que origina o bronzeamento e a formação de vitamina D, provoca&nbsp; queimaduras solares e aumenta a&nbsp;probabilidade de cancro de pele. Os protectores solares tanto podem fornecer protecção física, reflectindo e difundindo a radiação ultravioleta, como protecção química, absorvendo a radiação e libertando de forma rápida a energia absorvida por relaxação vibracional. E se usarmos óculos escuros, é importante saber que o vidro filtra naturalmente a radiação ultravioleta, mas nem todos os plásticos o&nbsp;fazem. As lentes de policarbonato são opacas à radiação ultravioleta,&nbsp; mas em imitações podem ter sido usados materiais menos seguros.</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p><img alt="" border="0" height="241" id="up94we5" src="http://3.bp.blogspot.com/-hYgOBYNrdaI/Thy_7P489YI/AAAAAAAAA9E/dzKws0uuI7I/s320/praia1.jpg" style="margin: auto; height: 356px; float: none; display: block;" width="443"></p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao apanharmos conchas e búzios lembremos que resultaram da fixação do dióxido de carbono pelos animais marinhos na forma de carbonato de cálcio e que, por processos geológicos complexos e demorados, estão na origem das rochas calcárias. E notemos a corrosão dos objectos de ferro junto ao mar. Nas regiões marítimas formam-se aerossóis que contêm sais hidratados, em particular de cloretos. Estes, assim como a humidade elevada, ajudam a solubilizar e remover os iões de ferro que resultam da oxidação deste metal, acelerando muito o processo de corrosão. Os aerossóis ajudam também a difundir o característico cheiro a mar. Ao que parece, este é originado por uma complexa mistura de compostos de enxofre provenientes da actividade de microorganismos, vários tipos de compostos produzidos pelas algas e animais marinhos, alguns deles atractivos sexuais, assim como compostos de cloro, bromo e iodo.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez ainda haja tempo para um gelado. E também neste há química.</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
<p><br>
<strong>Sérgio Rodrigues </strong>(Professor de Química na U. de Coimbra e colaborador do CcT)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Versão original em: <a href="http://percursosquimicos.blogspot.pt/2011/07/na-praia-beira-mar.html">http://percursosquimicos.blogspot.pt/2011/07/na-praia-beira-mar.html</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="left">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[A história química de uma raia eléctrica]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/a-historia-quimica-de-uma-raia-electrica/</link>
         <description><![CDATA[
	

	
		Mais um episódio da história química de animais marinhos. Desta vez a raia eléctrica, que ajudou a descobrir a electricidade e contribuiu para o entendimento da transmissão dos impulsos nervosos nos animais, abrindo caminho ao desenvolvimento de medicamentos mais específicos e eficazes.
	
		&nbsp;
	
		&nbsp;
	
		A raia eléctrica (Torpedo marmorata L.) possui orgãos eléctricos que podem dar um choque de mais de duzentos volts durante cerca de um segundo. Este peixe, assim como a enguia...]]></description>
         <pubDate>Sat, 14 Apr 2012 12:56:00 +0200</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://cienciapatodos.webnode.pt/news/a-historia-quimica-de-uma-raia-electrica/</guid>
         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre Química]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>
	<a href="http://3.bp.blogspot.com/-xXjFoFPoumk/Tv4hb623u6I/AAAAAAAAA_A/sEZPmhcC0tA/s1600/P301211_20.35.jpg"><img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5692023742582471586" src="http://3.bp.blogspot.com/-xXjFoFPoumk/Tv4hb623u6I/AAAAAAAAA_A/sEZPmhcC0tA/s200/P301211_20.35.jpg" style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 194px; height: 143px; float: left; cursor: pointer;" /></a></p>
<div class="post-body">
	<p>
		<i>Mais um episódio da história química de animais marinhos. Desta vez a raia eléctrica, que ajudou a descobrir a electricidade e contribuiu para o entendimento da transmissão dos impulsos nervosos nos animais, abrindo caminho ao desenvolvimento de medicamentos mais específicos e eficazes.</i></p>
	<p>
		&nbsp;</p>
	<p>
		&nbsp;</p>
	<p>
		A raia eléctrica (<i>Torp<a href="http://1.bp.blogspot.com/-M9uw0KUC2CI/TwTtDZUhFSI/AAAAAAAABAs/D1-MVVUWgw8/s1600/260px-Torpedo_marmorata_portugal.jpg"><img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5693936471495480610" src="http://1.bp.blogspot.com/-M9uw0KUC2CI/TwTtDZUhFSI/AAAAAAAABAs/D1-MVVUWgw8/s200/260px-Torpedo_marmorata_portugal.jpg" style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 200px; height: 150px; float: left; cursor: pointer;" /></a>edo marmorata</i> L.) possui orgãos eléctricos que podem dar um choque de mais de duzentos volts durante cerca de um segundo. Este peixe, assim como a enguia eléctrica e o peixe-gato eléctrico, desde sempre maravilharam os naturalistas e atraíram a atenção de médicos e cientistas. Os orgãos eléctricos destes peixes comportam-se como verdadeiras pilhas eléctricas com as quais estes animais podem atordoar as suas vítimas, mas só depois do final do século XVIII tal começou a ser entendido. O excêntrico Cavendish, ao construir um modelo da raia eléctrica com base numa garrafa de Leiden, que era na altura um objecto científico bem conhecido pelos choques eléctricos que dava, convenceu a comunidade científica de que a <i>mordedura</i> destes peixes era de natureza eléctrica. Mais tarde, a discussão entre Galvani e Volta sobre a existência da electricidade animal, conduziu Volta ao desenvolvimento da primeira pilha eléctrica. A pilha de Volta revelou-se um modelo muito melhor da raia eléctrica, com a vantagem de proporcionar uma corrente eléctrica contínua. Estava aberto o caminho aos desenvolvimentos científicos e tecnológicos que a electricidade nos trouxe. E tudo isso com a ajuda de uns peixes exóticos!<br />
		<br />
		Mais recentemente, a raia eléctrica e os seus primos eléctricos revelaram ser um óptimo meio para estudar os mecanismos de transmissão dos impulsos nervosos nos animais. Os cientistas puderam fazer isso medindo as correntes eléctricas ao mesmo tempo que manipulavam células nervosas da raia eléctrica e mediam as concentrações dos iões no seu interior e exterior. Verificaram que o processo envolvia os iões sódio e potássio que circulavam para dentro e para fora das células nervosas através de <i>canais</i> com a ajuda de uma molécula chamada acetilcolina que estes peixes produzem em grande quantidade e para a qual têm muitos <i>receptores</i>. Os cientistas contaram também com a ajuda de venenos de outros peixes e cobras que usaram para bloquear a transmissão dos impulsos nervosos e assim estudar melhor o funcionamento e controlo destes impulso.<br />
		<br />
		Só há pouco tempo foi possível perceber qual a estrutura tridimensional dos <i>canais</i> iónicos e entender melhor porque os canais de sódio e potássio são específicos para cada um destes iões e não permitem a passagem do outro ião.<sup><font size="2">1</font></sup> Para isso, os cientistas contaram com uma técnica muito poderosa para determinar a estrutura das moléculas: a difracção de raios x.<font size="2"><sup>2</sup></font><br />
		<br />
		Mas voltando à raia eléctrica: por que razão não dá esta choques em si mesma, pergunta o meu filho? Os peixes eléctricos controlam, através do seu sistema nervoso, o momento em que produzem a descarga eléctrica. São também muito sensíveis aos campos eléctricos que os rodeiam, controlando muito bem as descargas eléctricas que produzem. Os peixes eléctricos não dão choques em si mesmos porque as suas células produtoras de electricidade, assim como os órgãos que originam a descarga eléctrica, estão muito bem isolados do resto do seu corpo. Por outro lado, as suas vítimas recebem o choque eléctrico em todo o corpo, através da água. Assim, embora não dêem choques em si mesmos, os peixes eléctricos poderiam na prática dar choques uns aos outros, o que normalmente não fazem.<br />
		&nbsp;</p>
	<p>
		<br />
		<b>Referências</b><br />
		<span style="font-style: italic;">- The Shocking History of Electric Fishes: From Ancient Epochs to the Birth of Modern Neurophysiology</span>, S. Finger e M. Piccolino (OUP, USA, 2011).<br />
		<span style="font-style: italic;">- Biochemistry</span>, J. M. Berg, J. L. Tymoczko e L. Stryer (Freeman, USA, 2002).<br />
		<br />
		<b>Notas</b><br />
		<small><sup><font size="1">1</font></sup><font size="2">O sódio não passa no canal de potássio por, paradoxalmente, ser muito pequeno e assim não ser favorável, em relação à energia de solvatação, a energia de interacção deste com os resíduos moleculares do canal. Já o potássio não passa no canal do ião sódio por ser demasiado volumoso.</font></small><br />
		<br />
		<small><sup><font size="1">2</font></sup><font size="2">A difracção de raios x está relacionada com as típicas radiografias apenas por usar radiação da região dos raios x. De facto, a <i>imagem</i> que a difracção de raios x permite obter das moléculas é conseguida de forma indirecta. Primeiro é preciso que as moléculas tenham sido cristalizadas. Em seguida, como num cristal as distâncias entre os átomos apresentam regularidades periódicas, aparecem padrões no espectro dos raios x difractados que, depois de analisados (actualmente usando programas de computador), revelam a estrutura tridimensional da molécula. Vale a pena o esforço, pois conhecer a estrutura e o funcionamento dos <i>canais</i> iónicos é muito importante para um melhor entendimento dos mecanismos de controlo da dor e do vício das drogas e se poderem desenvolver medicamentos mais específicos e eficazes. Apenas em 1998 foi obtida a estrutura dos canais de potássio por raios x (Prémio Nobel em 2003). Nos livros de bioquímica publicados até 2011 não aparecem estruturas tridimensionais do canal de sódio. De facto, só em Julho de 2011 foi publicado na Nature (The crystal structure of a voltage-gated sodium channel, Payandeh J, Scheuer T, Zheng N, Catterall WA, Nature. 2011, Jul 10) a estrutura obtida por difracção de raios x de um canal de sódio de uma bactéria, revelando os <i>truques</i> utilizados para a sua especificidade para o sódio.</font></small></p>
	<p>
		&nbsp;</p>
	<div style="clear: both;">
		&nbsp;</div>
</div>
<div class="post-footer">
	<p class="post-footer-line post-footer-line-1">
		<span class="post-author"><strong>Sérgio Rodrigues </strong>(texto publicado no "De Rerum Natura", a 09 de&nbsp;Janeiro de 2012)</span></p>
	<p>
		<span class="post-author">Versão original em: <a href="http://dererummundi.blogspot.pt/2012/01/historia-quimica-de-uma-raia-electrica.html">http://dererummundi.blogspot.pt/2012/01/historia-quimica-de-uma-raia-electrica.html</a></span></p>
</div>
<p>
	&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
      </item>
      <item>
         <title><![CDATA[A história química de um cachalote]]></title>
         <link>http://cienciapatodos.webnode.pt/news/a-historia-quimica-de-um-cachalote/</link>
         <description><![CDATA[
	&nbsp;

	

	&nbsp;

	O título deste texto foi sugerido pelo meu filho mais pequeno (autor do desenho aqui ao lado), grande admirador dos animais marinhos, após ter visto uns slides sobre a química no Moby Dick de Herman Melville.
	&nbsp;

	&nbsp;

	No século XIX, os cachalotes eram vistos como animais ferozes e maus. São descritos dessa forma no Moby Dick de Melville e nas Vinte mil léguas submarinas de Júlio Verne. Talvez por isso ninguém, nessa altura, se importasse com a sua sorte. Sabemos...]]></description>
         <pubDate>Fri, 06 Apr 2012 11:48:00 +0200</pubDate>
         <guid isPermaLink="true">http://cienciapatodos.webnode.pt/news/a-historia-quimica-de-um-cachalote/</guid>
         <category><![CDATA[Textos de divulgação sobre Química]]></category>
         <content:encoded><![CDATA[<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	<em><a href="http://1.bp.blogspot.com/-ftYBG5hnt0Y/TvyXuMWa-CI/AAAAAAAAA9U/6U6Hex8HRlY/s1600/P041211_16.47.jpg"><img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5691590848934508578" src="http://1.bp.blogspot.com/-ftYBG5hnt0Y/TvyXuMWa-CI/AAAAAAAAA9U/6U6Hex8HRlY/s200/P041211_16.47.jpg" style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 200px; height: 150px; float: left; cursor: pointer;" /></a></em></p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	<em>O título deste texto foi sugerido pelo meu filho mais pequeno (autor do desenho aqui ao lado), grande admirador dos animais marinhos, após ter visto uns</em> slides <i>sobre a química no Moby Dick de Herman Melville</i>.<br />
	&nbsp;</p>
<p>
	&nbsp;</p>
<p>
	No século XIX, os cachalotes eram vistos como animais ferozes e maus. São descritos dessa forma no <i>Moby Dick</i> de Melville e nas <i>Vinte mil léguas submarinas</i> de Júlio Verne. Talvez por isso ninguém, nessa altura, se importasse com a sua sorte. Sabemos hoje que essa ideia era errada, embora eles continuem a ser para nós animais misteriosos.<br />
	<br />
	<a href="http://2.bp.blogspot.com/-jE8UerZZgD8/TvyYT1PQZbI/AAAAAAAAA94/rWXZA3JvQDY/s1600/mobydick.jpg"><img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5691591495565469106" src="http://2.bp.blogspot.com/-jE8UerZZgD8/TvyYT1PQZbI/AAAAAAAAA94/rWXZA3JvQDY/s200/mobydick.jpg" style="margin: 0px 0px 10px 10px; width: 132px; height: 200px; float: right; cursor: pointer;" /></a>No <i>Moby Dick</i> a palavra <i>química</i> aparece apenas uma vez. E, ainda assim, no sentido figurado da atracção entre as pessoas. No entanto, este livro tem muita química para além de nos trazer a memória de um mundo que a química ajudou a mudar. De facto, no século XIX, as velas mais finas, os lubrificantes das máquinas mais delicadas, os perfumes mais caros, o vestuário feminino mais elegantes e muitos dos objectos mais requintados, deviam a sua existência à caça às baleias. Hoje em dia todos esses produtos, ou se tornaram desnecessários, ou estão fora de moda, ou têm substitutos que foram desenvolvidos pelos químicos.<br />
	<br />
	<a href="http://1.bp.blogspot.com/-LWWIKmgqXxA/TvyYyVSB83I/AAAAAAAAA-Q/p9eaEY-qVCU/s1600/spermacet-candle.jpeg"><img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5691592019563115378" src="http://1.bp.blogspot.com/-LWWIKmgqXxA/TvyYyVSB83I/AAAAAAAAA-Q/p9eaEY-qVCU/s200/spermacet-candle.jpeg" style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 200px; height: 159px; float: left; cursor: pointer;" /></a> Na cabeça do cachalote existe um óleo denominado <i>espermacete</i> que se associava, na altura, ao seu sistema reprodutor. Sabemos hoje que este óleo é uma parte do sistema de flutuação que lhes permite mergulhar até profundidades enormes. Esse óleo tinha, no século XIX, aplicação na produção de velas finas e lubrificantes delicados, assim como todas as gorduras das baleias eram aproveitadas para os mais variados fins. Hoje em dia as velas são apenas uma recordação, ou um objecto de decoração. E todos os usos dos óleos das baleias foram substituídos por produtos naturais ou sintéticos com origem vegetal ou derivados do petróleo.<br />
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	Nos estômagos das baleias podia encontrar-se uma massa cinzenta e mal cheirosa que, após contacto com o ar e a luz, libertava um odor agradável. Este sólido era chamado âmbar cinzento e foi muito importante para a industria dos perfumes como fixante dos aromas. Hoje em dia existem substitutos sintéticos, isto é produzidos em laboratório ou de forma industrial.<br />
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	<a href="http://3.bp.blogspot.com/-cHtZWZUdOt4/TvyYfUJP69I/AAAAAAAAA-E/M-vOvtFfwgI/s1600/balein-corsets.jpeg"><img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5691591692840332242" src="http://3.bp.blogspot.com/-cHtZWZUdOt4/TvyYfUJP69I/AAAAAAAAA-E/M-vOvtFfwgI/s200/balein-corsets.jpeg" style="margin: 0px 0px 10px 10px; width: 200px; height: 130px; float: right; cursor: pointer;" /></a> Os ossos e os dentes das várias espécies de baleias eram usados em muitos produtos de uso comum ou de decoração. Em particular, os dentes do cachalote eram usados para fazer peças de xadrez, teclas de piano e bolas de bilhar. Essas aplicações hoje em dia foram completamente substituídas pelo plástico. De forma idêntica, os “ossos da boca” de algumas baleias, muito duros e flexíveis, eram usados para fazer corpetes, uma peça de vestuário feminino hoje completamente fora de moda.<br />
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	Vemos assim, com a <i>história química de um cachalote</i>, como a química nos permite um mundo melhor ao mesmo tempo que salvamos as baleias.</p>
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	<strong>Sérgio Rodrigues </strong>(texto publicado no "De Rerum Natura", a 29 de Dezembro de 2011)</p>
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	Versão original em: <a href="http://dererummundi.blogspot.pt/2011/12/historia-quimica-de-um-cachalote.html">http://dererummundi.blogspot.pt/2011/12/historia-quimica-de-um-cachalote.html</a></p>
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